domingo, 15 de setembro de 2013

Motim


Diotima,
por que me trouxeste essa tortura?
eu estava contente com os filhos que tinha
com a sensação de brandura
serenidade e descanso
mas sabes quantas vezes quis cortar meus pedaços
e o quanto não tenho beleza
e continuas a me fazer perguntar sobre isso tudo
Diotima, demônio, feiticeira
como eu queria te matar e parar de me indagar

tumulto

Sim, foi esse desejo que inventou todas as artes,
a tecelagem, a medicina, os arcos
as profecias
a metalurgia
a astronomia
um desejo que não é justo, nem sábio
nem feliz
não é perfumado mas carente de perfume
não é verdadeiro mas quer a verdade
não é corajoso mas procura  coragem
E o que fazer agora que todas essas faltas
me fulminaram a calma
eu que não tenho músculos
nem força nem bondade? 



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Performance

Não é só para apaziguar
as guerras
é para mudar de rosto, de roupa
de corpo
fraturar-se, quebrar-se
transformar-se
ser despedida e raiz
espanto
Não é só para cantar
é para mudar de ângulo
de geografia
como as nuvens mudam de forma
também mudamos de olhos e cílios
de hábitos e de lábios

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O banquete

até o sal elogiaram
e não louvaram o amor
mesmo que viesse com geadas e granizos
mesmo que perturbasse as plantações
e inquietasse as órbitas dos astros
o amor e até o ódio nos salvariam
e mesmo que fosse doença
também seria cura
e mesmo que não tivesse a quem se dar
também seria amor
mesmo que não fosse por pessoa alguma
e fosse só memória, promessa ou guerra
também seria amor
e se fosse passageiro também seria duradouro
e se fosse duradouro também seria passageiro
e se fosse solidão também seria companhia
se fosse mutilado também seria o todo
e mesmo se estivesse errado também seria certo
e se fosse feio também seria belo
e se fosse violento também seria delicado
e mesmo se estivesse perto também seria distante
e se estivesse distante também seria perto
porque ninguém pode entender o amor nem o ódio
nem a solidão nem outros mistérios

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

astrônoma autodidata

Te contei que recebi meu exame de sangue?
Estou toda contaminada de alumínio
e disseram que Michael Jackson desceu
só para cantar para a gente:
eu não confio em quem não toma café
não quero sair ileso dessa vida
quero cicatrizes no rosto, na face, no jeito
dessa vez desceu sem máscaras
Eu nem sabia que isso ia acontecer
a lua tava vênus
a lua trespassou vênus
Isso só acontece de quantos em quantos anos?
Não tem uma bandeira de um país que é assim?
Que país é esse, é lá Arábia?
eu só pensava no telescópio e nesse país
e em um maneira de estar lá mesmo sem estar

sábado, 7 de setembro de 2013

O teu demônio

O teu demônio me segue
anos a fio
Tece flores para mim
divide meu corpo em partes

Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
aparo suas bordas seu rabo seus chifres

O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado

O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre

O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
e vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda

Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Orfeu despedaçado

Há não sei quantas armas
apontadas contra minha cabeça
e ameaçam me esquartejar depois
primeiro um braço, depois uma perna
todos os meus pedaços cortados
como cactos para o gado
e ainda querem dar meus ossos aos cães
há não sei quantos revólveres
apontados contra minha cabeça
não sei quantos pássaros  mutilados
uivando
o piloto já saiu baleado com a mão no peito
a aeromoça de olhos vendados foi feita refém
muitos gritam, outros calam
e eu estou desesperado
sem saber como fugir daqui

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Contaminação

era para ser um bálsamo
e foi uma facada
era para ser de riso
e foi de lágrima
deixei minha arma no carro
para não matar ninguém
quem sabe se possa reverter:
era para ser uma facada
e foi um bálsamo
era para ser só corte e corpo
e foi de alma

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cotidiano

se você perdesse o estojo e
o caderno, o que você faria?
procuraria
nos achados e perdidos
da estação
colocaria avisos nos postes
perguntaria a todos:
vocês não viram meu caderno?
nele foram rabiscados
a tempestade de hoje à tarde
o trem que perdi para a capital
a vontade inteira que tenho de ser real

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

búzios

me feri com a caneta
navalha que não falha
me cortou a mão
as unhas os ossos
os cabelos os joelhos
me deixou metade sangue
metade asa
estou ferido nos olhos
na nuca no peito
tatuei-me uma casa
aonde eu pudesse ir
desenhei ruas, livros
praias, filmes
um lugar qualquer
para onde eu pudesse
voar
e desabar

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

meteorologia


há quase um ano consultando os serviços meteorológicos
e nada
nunca iria nevar nessa cidade
mesmo assim sonhou que esculpia
em gelo um beijo

como não nevava
a moça hidratou os cabelos
tomou sorvete de amora
e se banhou no mar

como não nevava
ela se deleitou com a chuva
com a represa, os vizinhos
e a horta

como não nevava
resolveu abrigar-se em outro luar

sábado, 17 de agosto de 2013

pequeno vento de agosto

de qual cidade você vem agora
de qual viagem  você volta?

para atravessar minha vida de vermelho
para arrancar de vez minha tristeza
de que havia um coração com um só sentido?

de qual lugar você nunca me chama
de qual saudade você sangra
de qual espanto você cala
sem entender minha brisa e onde me rompo?


por que o vento se escondeu do meu vestido
não bate mais à porta, não me banha
com  a distância dos que nunca chegam
de qual labirinto você canta
de quais areias você sopra?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

torpedo cósmico

nem sei em que país você mora
só quero escrever, escrever, escrever
não sei
se catas guimbas de cigarro nas pedras portuguesas
do Egito, de Israel, da Jordândia
se estás perdido em Tokio sem mapa nem estrelas
fingindo que está só
nem sei se você se escuta, se me escuta
se os versos das canções se escutam mútuas
se cruzam, se trespassam no espaço nu entre  nós e a medialuna
nem sei quem você é, nem de que século, nem década, nem nada
se é verão, inverno, outono, primavera
se é humano, pedra, animal,
homem, mulher, árvore
mas busco, procuro, canto tanto
e atrevo-me a uma ciranda de palavras
na onda  que me leva para mais longe
voz que atravessa mares, astros , lares
viajo como um torpedo para Júpiter, Netuno, Marte
nave, nave , nave
música, música, música

sábado, 10 de agosto de 2013

Canção do homem que saiu a cavalo

procurou alguém de além mar
para sonhar
não para ver, tocar, falar
só para imaginar
buscou alguém de além mar
para estar sempre distante e com saudades
e com ciúmes e com novidades
não foi para receber cartas
foi para ouvir música
não foi para ser correspondido
foi para ser abandonado

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Matafuegos

musos e musas
de todas as cidades me salvem
sou uma força em um plural terrível
atenção Lisboa, Berlim, Buenos Aires
arrombei a porta de casa
larguei os filhos
os sapatos, as máscaras
estou com um incêndio
na boca, na voz, no riso
matei toda essa vida
calculista
roubei
e estou fugindo para o poema

domingo, 28 de julho de 2013

Festa de São João




Isso não é invasão é olhação

sua noite começa melhor

depois que alguém  te olha

Se eu ficar na barraca do beijo

vou dar prejuízo

ninguém vai querer me beijar

mas se eu ficar na barraca do olhar

quem sabe, talvez,

São João

acenda a fogueira do meu coração

e aí vou continuar

não é urgente, não é para casar

é só para olhar

Isso não é invasão, São João,  é só

olhar,  luz,  câmera,  ação

meu nome é Suellen

maria chuteira

superem

sexta-feira, 26 de julho de 2013

uso e desuso

muse-me e abuse-me
cante-me
escreva-me
leia-me
curta-me
adoce-me
roube-me
use-me
mas meu coração não é de pelúcia,
baby:
é de carne

quinta-feira, 18 de julho de 2013

mensagem de uma Helena estrelada

depois acho que vou fazer um poema
mulher curiosa, mulher dos furos, do furô
das fendas, das peixeiras,
mulheres rendeiras
das navalhas, etc e tal
se quiser ainda me dar um alô
tô aqui
na luz natural do pacífico
fuso horário trocado
datas alteradas
programada e libertada
garota de programa
lâmpada acesa
entre o tear e o fuso
entre o fuso e o tear
de frente para o mar