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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Dezembro


Mulher, mulher
não vê que eu tô na paz
vamos sambar um pouquinho
vamos descer comigo
solta esse cabelo, põe uma flor
pegamos o teleférico e depois o metrô
Chama a galera toda 
todo mundo no liquidificador 
Vamos sambar na praça São Salvador
quem sabe a gente se salva
com o samba na causa

sábado, 14 de novembro de 2015

Noturno sobre ponte na Baía de Guanabara

Eu ofereço
esse gosto pela forte chuva nas estradas
Naves, guindastes,
o ferro úmido de todas as coisas
que compõem a paisagem
Ofereço minha pele febril
minha estratégia de vida
Esse pequeno dilúvio
essas águas que vejo inundando tudo
Os mistérios todos à frente
dos faróis do automóvel
O sereno pacto de fazer parte do tráfego
entre grandes cidades
Ofereço a conversão desse desassossego
em trilhas iluminadas

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Penas de uma casa em cinzas

 Traga-me um copo d'água, tenho sede."
              Gilberto Gil


É óbvio que anoiteceu
está registrado em fotos
em minas, em mapas
Não posso trazer de volta o passado
imitando a voz dos mortos
Não posso devolver sua mãe,
sua filha, sua falta
O que há por dentro são gambiarras
madeiras úmidas, telhas e vidraças quebradas
A vida gotejando no balde
e a caixa de amianto vazia
de onde espero toda água possível
para o chão limpo e claro que preciso

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O mestre da meia-noite

É à meia-noite que ele canta e toca
os olhos depois do mar
maresia depois da chuva
à meia-noite ele chama
à meia-noite se banha
em águas de vinho tinto
no meio da noite ele acorda
do espanto do dia feroz
entre o rio do canal, entre o piano e o violão
entre o improviso e o imprevisível
à meia-noite,
inesperadamente,
desesperadamente
ele vira música

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Recife

e nadava no mar sujo
com sacos plásticos, canudos
águas-vivas, peixes, tubarões
cadáveres expostos
pernas retalhadas, tatuadas
e dava socos na água
chorava, queimava
e a água em silêncio
sangrava, matava

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

nômades tuaregs

estranheza feroz nas cores desse povo
pequenos roubos, hóspedes estrangeiros
noites geladas e escuras
bandos inteiros comendo
arroz puro no deserto
gente querendo fugir para algum outro país
sem perceber que a água estava ali mesmo
era só cavar um poço e encontrar a própria sede

sábado, 6 de setembro de 2014

Loja de Mulheres

labirinto que sigo nessa cidade
plena de tantas outras
tecidos e mais tecidos entrelaçados
becos, mercados
lojas de chapéus, botas, saias, brechós
O meu desejo de ancorar ali
na vitrine como um manequim
e esperar por todos os que passam
amá-los todos disfarçada
nesse corpo de medusa sem cabeça nem braços
nesse vestido exposto com seu preço
metade estátua, metade mulher
metade blusa, metade sandália
sou essa fêmea de acrílico lírico na calçada

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Delicado recado

a raiz da cor de um raio trago
cor de vela, fumaça, orvalho
a raiz da cor de um porto
invento recrio e tento
sempre que caio

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Ice King

o rei do gelo
me encanta
com sua música
seu silêncio
seu ar
podem dizer
ah que lirismo tosco
que não fala em remédios
nem acidentes aéreos
nem produtos de limpeza
e beleza
estou dando linha
para a pipa voar
e não corda para o garoto se enforcar
o rei do gelo
me encanta
e sabe se cuidar
aprendi com ele que
sou eu mesmo sozinho
na primeira pessoa do singular
que hei de me salvar

terça-feira, 27 de maio de 2014

Surpresas

desejei o tempo de um presságio
de um trem demorando a chegar
o tempo de um oráculo
e de uma espera
pelos enigmas, decifrações, saudades
um tempo com menos pressa
menos imprensa, menos notícias

mas todos os aparelhos estão ligados
raios, pneumáticos, telegramas
circulam por toda parte
tudo portátil, óbvio e comunicável

todos a postos
nenhum mistério
nenhuma posta restante
nenhuma estação à frente
nem segredo nem surpresa

ficou tudo tão urgente e incandescente
que ninguém pode mais escurecer
nem se esconder

sábado, 20 de abril de 2013

Marisa

apedrejo vidraças, sou da pichação
rompo os tratos, os trapos

destruo calendários, lojas da marisa
plantações de alfaces, pepinos, hortas orgânicas falsas

vadia sou eu que faço hot dog pra moçada
moradora de prédio ocupado, manicure
cabelereira e ladra nas horas vagas
sonhando todo dia em atacar o shopping center

eu e a máquina de lavar, a pia, o pano de chão
os filhos, a solidão e aquele amante pilantra que visito na prisão,
momentinho no parlatório, fila para entrada,
dez minutos de love e mais nada

eu sou a própria manifestação, a pombajira total
boderline, bipolar,  tudo uma farsa
que papanicolau que nada
e  essa história de cândida ?

pureza?
meu lance mesmo é o cigarro e a cachaça

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sexta-feira do desmanche total

por aqui tudo pacificado,
apaziguado, dominado
virei dono de farmácia
quero ver o povo vir
comprar a bonitinha na minha loja
com receitinha de fitoterapeuta natureba
em doses homeopáticas
dá tudo na mesma:
cachaça, fumacinha, coca-cola
florais e cápsulas de alho
todo mundo igual
na sexta-feira do desmanche total
se você vê vozes, ouve vultos
sente-se vítima de feitiço ou maldição
venha para os filhos da luz
funk de jesus
cartomantes, políticos, sifíliticos
só jesus na causa
dentistas de todos os credos, uni-vos
porque só jesus salva

quinta-feira, 28 de março de 2013

O nascimento das aves

                                                     Creación de las aves- Remedios Varo



                              Estão nascendo de minhas mãos feridas
                              essas aves
                              nuvens condensadas
                              pequenos faróis
                              desejos que acendo no ar marinho
                              as flechas que procuro ser
                              estão camufladas no voo
                              e acertam o alvo noturno
                              de tudo que em mim é ausência inquieta
                              ou ritmada música

domingo, 28 de outubro de 2012

Manobras de atracação e desatracação

Goya





quase não lembro deles
antes de serem capturados
pela lenta escuridão que os afastou
de todas as possibilidades lúcidas

mesmo nesse lugar quieto,
administrado, envidraçado,

com luzes fluorescentes,
a hesitação faz a ronda

há ainda nuvens, cegueiras
a tristeza de uma pele diante da outra
um rosto diante do outro
e as bocas de todos que falam
sufocando seus desastres

sábado, 8 de setembro de 2012

Corveta

                                                              Bispo do Rosário (Veleiro)
          
                      

                                                                            para Arthur Bispo do Rosário

No estaleiro
consertando presságios,
crianças guardadas e briquedos,
estacionei com âncoras e garras

pousei com ossos frágeis, radiografias
plumas inchadas pela chuva

esperando voltar aos mares
sanguíneo
voraz
refeito de todo dano
respirando de novo pelos panos

sábado, 8 de outubro de 2011

A vendedora de açaí




Mais uma sandália se partiu
na ida à feira para comprar caquis

retornas segurando uma penca de bananas
e a sandália quebrada na outra mão
o  pé no chão
torto anjo de Drummond
descalça parceira de Carlito

e mesmo assim desajeitada
tens ventania bastante para o dia

os feirantes estão lá a postos
tentadores
mas flertas é com o brilho súbito
da risonha vendedora de açaí

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

No salão de beleza

Não satisfeita em acolher sozinha sua dor
ela despejava com luz a dor nos outros
ferindo-os nos calcanhares, nos pulsos, nos joelhos
em vão se corria aos salões onde se tratam e pintam
mãos delicadas
em vão se escovavam os cabelos
inútil arrancar com cera e pinça
o excesso de pelos
Era soturna a dor, viscosa, escura
mas se servia com chá para os desavisados
que, diante da inofensiva senhora,
tombavam envenenados

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Troia

e vamos nos preparando para as olimpíadas
com presságios gregos
nuvens claras, temporais
notícias digitais

presentes gregos podem trair nossas muralhas
troianos podem levar nossas mulheres

a guerra de Troia começou com uma hospedagem
por isso
ou tenha muito cuidado com quem você hospeda
em sua colmeia
ou viva para valer  o risco
de uma Ilíada inteira e uma Odisseia

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Gravidez de Zeus

Mais uma vez houve fúria contra um filho de Zeus. Para salvar Dioniso, o pai guarda o coração do filho em sua própria coxa. Grávido, por fim, traz de volta ao mundo o deus do vinho e da folia. Por esses dias me senti grávida de gêmeos, cada um em uma de minhas coxas, úteros imaginários que talvez representem a força grávida dos que caminham férteis e feridos e não se deixam cicatrizar totalmente. Muitas vezes somos nômades em nosso próprio corpo e a vida pode ser um passeio insólito, estranho, absurdamente belo: os passos de alguém grávido em suas coxas, pernas, em todos os os seus poros e pelos.

domingo, 23 de maio de 2010

Ciclistas

Liberdade ? perder as fotos, as chaves
saber perder o dente, o amor
os amigos, os filhos
não atar-se, não atear-se
não afoguear-se
Se for assim esse gelo, essa frieza
não quero
prefiro os monstros que me cercam
as máscaras, as lágrimas
nossas duas bicicletas inexplicáveis