quarta-feira, 6 de julho de 2011

Grafite

Banksy

Preciso cobrir com gestos essas ruas
pintar, escavar, tornear
abrandar as paredes do meu jeito
Preciso dizer-lhes algo
assaltá-las
transformar o que sobra
traduzir as sombras em desejos

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ariadne

I

Foi exatamente isso que ela fez
Fugiu com o trapezista do circo
Largou terras, pratarias,
todos os bens da família
todos os deveres leais
Por isso agora vive numa tenda
e é errante, fumante, amante
pobre, pobre, pobre de marré, marré marré
e rica, rica, rica de muitas marés

Mas quem te ancora, mulher,
quando o vendaval vem solto sobre as águas?
Quem pode te proteger?
Foi nisso que deu
Quem mandou fugir com o trapezista de circo, menina?

E a moça fugitiva canta tentando esquecer:
Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré
e sou rica, rica, rica de muitas marés

II
Mas quem disse que o trapezista de circo
queria mesmo essa moça de família, seda e mimos?
Quem disse que não era mais uma forma de poder?
De querer vencer os ares e desafiar os lares?
Exibi-la pelos bares
como conquista circense
bicho doméstico domado
pela força de mil artes?

Que será dessa mocinha na mão desse saltimbanco?
Será que será trapezista
ou lavará o chão que ele pisa?

O restante dessa estória
só o destino vai dizer

III

Alguém por aí versado em mitologia
pode até dar um palpite:
Talvez seja um destino de Ariadne,
largada por Teseu,
resgatada por Dioniso...

Mas pode ser que não seja
e para dizer a verdade
talvez essa Ariadne
não queira nem circo, nem pátria
talvez ela mesma se salve
Isso só o diabo sabe

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A musa

“Uma predisposição musical
antecede em mim a palavra poética.
”
Schiller

Posso ouvi-la com voz de demônio ou deusa
em canções de desespero ou leve melancolia
Posso ouvi-la do alambrado das casas
da zona portuária ou de montanhas bem altas

Ouso guardá-la em meu desassossego
dentro dos espelhos
no que restou nos cinzeiros
dos amores que tive e queimei

Meus pulmões em brasa precisam do seu ar
Só por ela respiro
por ela entro nas águas
Fico boa de tudo e nunca mais vou tossir

Por ela invento bruxedos
Faço fogo, amor e guerra
Largo todos os meus vícios
Troco todos os meus reinos

terça-feira, 28 de junho de 2011

Morro da Conceição

Travessa do Sereno
Rua do Jogo da Bola
São Francisco da Prainha

Esses nomes me queimam
Rumor que amanhece cedo
e nunca deixa de arder

Os nomes das padarias,
mercearias, lavanderias
Nomes dos becos e pretos

Estrelas que avançam soltas
contra minha boca

Casas apinhadas
onde as mulheres oxigenadas
cercam a estátua de Camões

E a língua lusitana,
no doce gozo da tarde brasileira,
não deixa mais nada doer

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Chicletes de hortelã

Um porto faiscando em teus cabelos
Tua alegria inteira vindo para mim
mascando chicletes de hortelã

Com o céu da boca estrelado
me feres, me cuidas, me envenenas
e o cheiro forte que incensas
incendeia tudo e parte

Mas me voltas como mulher
mais uma vez
Terna música que escuto
Ritmo, verso, foice
com que arranco raízes
e canto

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Beatriz

Como se me preparasse para a festa
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia

Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste

Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim

E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade

terça-feira, 21 de junho de 2011

Venditas

Damien Hirst



Aceito que me cubras
com palavras transparentes
É uma forma de cura

Aceito que resplandeças
com teus fogos de artifício
tua letra bem miúda
tua voz de professora

Aceito que me enganes
cada vez que escreves cartas
nesse tempo sem carteiros, sem telegramas
sem nada

Aceito que venhas por mera telepatia
minha intensa musa clara

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ao pé do muro

E além do mais, eu também tenho
uma banda bichada onde um veneno fino
se destila
E essa outra banda que me salva
Pedra não é
e ao perecimento se castiga
Fruta no sereno
uma parte sã, outra perdida
O que me bicha e lixa e come seco
é o que em silêncio me espanta sem que eu saiba
Pode um bico de pássaro reter o meu destino
com a doçura própria de seu timbre
Posso secar ao sol com a casca empretecida
uma banda sã, outra maldita
Mundo, mundo, vasto mundo, estou aqui dividida
e nem rima nem solução seria
se eu me chamasse Aparecida
http://anonimundo.blogspot.com/

domingo, 19 de junho de 2011

Mênstruos

Modigliani


Os lençóis estão limpos
apesar dos meus mênstruos
posso chorar sobre eles
as minhas lágrimas limpas

Meus seios estão sãos
sem formações malignas
meu útero não tem feridas
Os anjos disseram que não vou ter filhos
eu que sou serva da vida

Os lençóis estão limpos
eu também estou limpa
até às tripas
Uma mulher do mundo tinha fluxos ininterruptos
tocou o vestido de Cristo e ficou sã

Eu estou sã como ela
cheia de desígnios e digna
o vinho fluindo quente
pelos lábios do sexo
a vida vil e ferida

Os lençóis estão limpos
apesar dos meus mênstruos
as lágrimas e a saliva límpidas
a noite enraizada na beleza
apesar da cólica e do sangue que me molha

sábado, 18 de junho de 2011

Poema para Pedro, o muito

"Muchacha en la ventana" Salvador Dalí,1925





Por tanto tempo amei Pedro
que já o deixara há anos
e ainda era cedo
e não havia mais jeito
e no entanto eu amava
como uma espécie de bicho que aguarda
como uma espécie de massa descansando

E Pedro era Pedro e muitos
não era um só
mas todos que eu ia amando pelo mundo
Em cada um era Pedro
em cada Pedro um segundo
mil e único
Vento estúpido, vento estúpido,
por que me fizeste uma só para um homem múltiplo?
Por que de mim não fizeste também tantas Marias
por tantos Pedros pecada
por tantos Pedros navegada?
Ao invés me deixaste só
sendo só uma e mais nada
Quando no fundo eu queria
ser as outras Marias
que Pedro também amava
e ser as outras mulheres com quem Pedro deitava
Vento estúpido, deus do múltiplo,
tu não me deste esta dádiva

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Clítia

Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz

Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,
liberta agora meus olhos dessa escravidão

Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo

Preciso de trevas para o meu desejo

domingo, 5 de junho de 2011

Canção da inveja

Invejo a paz dos homens nos aeroportos
Os comissários fardados rumando para o embarque
Invejo os condomínios fechados
os apartamentos bem decorados
as casas de muro alto
com seus cães de guarda
Invejo todas as coisas normais
que a toda hora sucedem
e todos os loucos breves
e as viúvas sadias com seus netos
Sinto inveja dos animais domésticos
e dos filhos que se despedem
e seguem pra escola
E por último dei para ter inveja
dos quartos bem arrumados
dos banheiros limpos
das cozinhas azulejadas e dos eletrodomésticos
E como se não bastasse
eu que sou devastado
e a tudo devasto com minha lava
invejo meus próprios versos
e a paz daqueles que os lêem
em suas casas
nos seus apês apertados
nas suas varandas amplas
nos seus sanitários brancos
nas suas invejas leves

Brasas

"La bruja", de Cildo Meireles


Há um desejo de chuva sobre brasas
e o invasor finalmente deixou esse país
Desejo de guardar as armas
e arrumar a casa
limpar armários, trancar arcas

A matéria escura dos meus cabelos
vai descendo com o vestido até os pés

Uma monja vai nascendo de mim
blindada sob véus e espadas

Ninguém se atreva a perturbar
esse silêncio de milênios
Ninguém ouse uma palavra
contra essa escuridão

Sou um submarino inacessível
sob muitas águas

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cidade submersa

Uma cidade submersa
amores submersos
uma luz marinha guiando
minha busca

o musgo tomou conta
das casas naufragadas

Entre polvos e arraias
nado e sonho
com a cidade que perdi

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Semente

A noite desce sobre mim
e me expele violentamente
não para um mundo de senhores calmos
não para pedras e cordeiros apascentados
mas para saltos rituais macabros
fortes gritos de mulher
partos gozos

A noite me atravessa
me arremessa,draga
enquanto uma delicada fera
me toma pelas mãos
para uma valsa

domingo, 1 de maio de 2011

O pedido da fonte

Se sabes que sou uma fonte
bebe logo dessa água

Tenho sede que me bebas
tenho sede que me leves

Na taça da tua boca
nos rumos da tua vida

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Horto

Juazeiro, Juazeiro,
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
Imagens estilhaçadas
cacos de virgens Marias
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
estilhaços de uma guerra
Mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Medusa

Deslizo entre tuas mãos
como um barco noturno
entre ilhas

Te apareço em sonhos
sangrando como uma ninfa
Na sombra do esquecimento
em que me alojaste
tornei-me um bicho que vive

Uma luz esquisita emana
de meus cabelos e te atormenta

Ofereço serpentes
e te assusto

Espelho o medo que sentes
do que não podes tocar
do que não podes possuir
do que a vida é pequena demais
para alcançar

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tear

Luta contra o silêncio
são os tecidos que vestes
o murmúrio dos teus passos
o taconeado dos sapatos

Luta contra a treva
são teus acenos, teu jeito ameno
de tomar chá à tarde

O passeio à padaria
onde buscas o pão
para mais um dia

em que iluminas
o mundo que pisas