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quinta-feira, 20 de março de 2014

Uma tradução de Valéry *

Teus passos, filhos do silêncio,
voltam-se lentos e sagrados
para o leito da minha vigília
passos mudos e gelados

Pessoa pura, sombra divina
como se detêm doces esses passos
Deuses! Todos os dons que adivinho
vêm a mim sobre teus pés nus

Se teus lábios se adiantam
e se preparam
para apaziguar meus pensamentos
com o conforto de um beijo

Digo: não te apresses nesse gesto terno
doçura de ser e não ser
pois eu vivi de te esperar
e meu coração precisa dos teus passos


* Tradução livre a partir do poema “Les pas”( Os passos), de Paul Valéry(1871-1945)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Zarabatanas

Ninguém esperava mais
por esses cabelos imensos
por esses olhos de fera
esse meu ar de arco e flecha
Zarabatanas eu faço
com mãos de índio bravo
ponho o curare na ponta
paraliso os ventos errados
e só atraio belos raios

domingo, 26 de janeiro de 2014

Praia de Ponta Negra

" Nada, nada, nadador...”
Jorge de Lima

Nadei tanto, tanto, tanto
fosse noite ou fosse dia
anfíbio eu era
metade água, outra terra

Sobrevivi porque contei tudo ao mar
ele sabe como respiro
guardei lá meus gritos
e misturei minhas lágrimas a seus sais

Fui queimada por algas
e, alentada pela espuma leve,
dei minha dor às ondas

domingo, 21 de outubro de 2012

Zarabatanas

                                                           Jason Martin

Ninguém esperava mais
por esses cabelos imensos
por esses olhos de fera
esse meu ar de arco e flecha
Zarabatanas eu faço
com mãos de índio bravo
ponho o curare na ponta
paraliso os ventos errados
e só atraio belos raios

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Prisões

Antes eu era o incêndio
agora faço seguro contra fogo
contra roubos

Eu mesma era furacão
eu mesma roubava
agora apaziguo tudo e tranco

Antes eu era as perdas
agora sou vista pelo bairro, precavida,
comprando cadeados sob medida

sábado, 15 de outubro de 2011

Valquíria

Romã Fernandes (gravura)

Tua alegria está rondando meus mistérios
na penumbra em que estamos
escuto teus passos docemente

Pisas sonhos escuros
vences os fogos noturnos
e um pai te desafia com uma lança

Finjo que estou ferida, adormecida
aguardo que ouses tocar-me e que me acordes

Para que eu possa cavalgar
dentro da tua vida

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Retratos dos ancestrais

Não idolatro rostos que abandonam
Deixarei que partam
Encherei um navio de emigrantes
os que negaram, os que fugiram
os que sufocaram e calaram

Todos, todos convocados
para o navio fantasma
Todos, todos vão embora

Velhos desde o império
Gordos homens sobre cavalos
e mulheres muito tristes

Odeio loucamente essa parede
onde eles jazem
Muros contra minha liberdade

domingo, 21 de agosto de 2011

Invasão ibérica

A Espanha e seus campos de girassóis
suas oliveiras, seus rios
seus árabes e catedrais
aportaram em mim e te querem

Todas as forças de sua arquitetura
suas casas mediterrâneas, suas torres medievais
as touradas sangrentas de Sevilha
os ciganos incríveis de Granada

Por todo lado essa prece:
O meu amor é esse país inteiro te esperando

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Burka

Cecília Costa, ArtRio/2011

Essa estrangeira sem nome, sem rosto, sem riso
disfarça, mas me olha, de dentro do seu abismo
Ela viaja comigo: sombra calada, monja
meio fantasma, meio ferida
Sobrevivente de nada, queimada, ardida
Sob véus calcada, sob véus contida
Me prendendo também
em sua cripta

domingo, 1 de maio de 2011

O pedido da fonte

Se sabes que sou uma fonte
bebe logo dessa água

Tenho sede que me bebas
tenho sede que me leves

Na taça da tua boca
nos rumos da tua vida

terça-feira, 8 de março de 2011

Oração

Agradeço esse dia e todas as suas sombras
e o que me tocou como foice
e a face delicada que mostrei

Agradeço esse dia e todas as suas marcas
e o que ficou na encosta e o que restou nos olhos

Agradeço essa febre
o riso que espelhei sobre as águas
a beleza que busquei
e a vida que desejei com tanta força

sábado, 4 de dezembro de 2010

Veraneio

Ele a cobria
com a brisa úmida da tarde
e ela saía assim
toda feita de brisa

Abençoada pelos olhos que mentiam
fingindo não ver o que era frágil
as saudades que iam nascer
por baixo daqueles cabelos

Saía de suas mãos com a força de uma estrela
Ninguém podia ver
os joelhos feridos
da menina feliz que ele inventava
naquelas tardes febris de veraneio

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Praia de Ponta Negra

" Nada, nada, nadador...”
Jorge de Lima

Nadei tanto, tanto, tanto
fosse noite ou fosse dia
anfíbio eu era
metade água, outra terra

Sobrevivi porque contei tudo ao mar
ele sabe como respiro
guardei lá meus gritos
e misturei minhas lágrimas a seus sais

Fui queimada por algas
e, alentada pela espuma leve,
dei minha dor às ondas

domingo, 29 de agosto de 2010

Prisões




Antes eu era o incêndio
agora faço seguro contra fogo
contra roubos

Eu mesma era furacão
eu mesma roubava
agora apaziguo tudo e tranco

Antes eu era as perdas
agora sou vista pelo bairro, precavida,
comprando cadeados sob medida

domingo, 18 de julho de 2010

A terra e o fogo

Terra úmida é o que sou
E tua voz me fecunda
Abre fendas em mim
Por onde os meninos vão nascer

Sou essa planície deitada
Sob o vento forte
Esse vale que invades
Sou domínio teu
Tua carne
Cera sob o teu poder

Sou o que queres que eu seja
Enxame, cardume, aves
Noite, noite, noite
que a tua luz esmaga sem vencer


Poema publicado na revista Geologia para poetas. Casa da Ciência/UFRJ.Rio de Janeiro.2009. Iniciativa da poeta e professora de Geologia Maria Dolores Wanderley.
Mais poemas: www.palavrarte.com/equipe/equipe_iracema.php