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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Zila

Nessas águas que entrei a vida inteira
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar

Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo

Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar

E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar

terça-feira, 4 de março de 2014

Oração a São Miguel Arcanjo

Se houver perigo esta noite,
preciso que me abrigues

Não te fies no delicado trato
que tenho com os monstros

Eles mentem
Nós mentimos, todos mentem

Se houver perigo esta noite,
não penses que sou forte
só porque vivo só
e conheço toda a ilha
e domino palavras e com elas
construo armas e escudos

Se houver perigo,
preciso que sejas meu pai,
forte, amigo,
afastando com a espada os inimigos

Preciso que pises sobre o meu terror
como pisarias mansamente
sobre um demônio adormecido

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Antônio Francisco Lisboa

Mesmo sem querer
vou segurando em sombras
me agarro às adralvas  das portas
me apoio na cantaria das casas

Que ando a querer nas torres altas?

Confio meu corpo aos pináculos
Sustento-me em arcos cruzeiros

Com o que resta dos meus braços
modelo a carne dos anjos

Que a ando a buscar nas madrugadas?

Por que insisto em iluminar
a noite desse jeito?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O poema de Laura

                                                           Gustav Klimt


Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais

Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo

Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse

Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo

Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste

Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas

Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo

Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...

domingo, 27 de novembro de 2011

As perdas

                                                       Hamilton, James. 1871
                                  

Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados

Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços

sábado, 29 de outubro de 2011

Lira de Eurídice

Vem de dentro de mim
uma música
atravessando estradas, campos, lares

Quem pode cobrir de cinza
essa lira que arde?

Vem de dentro de mim
uma música
esbarrando em pedras
soterrando portas
destravando cidades

Dentro de mim
uma música
acesa
invade mares, rios, vales

Quem lhe ousa dar margens?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Calipso

Luís Phillipe. ArtRio,2011


Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias

Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo

Mas uma frágil canoa
foi mais forte

Eu conhecia feitiço, gozo, beleza

Nada que impedisse
um homem de um regresso

Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas

E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Beatriz

Como se me preparasse para a festa
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia

Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste

Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim

E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Clítia

Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz

Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,
liberta agora meus olhos dessa escravidão

Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo

Preciso de trevas para o meu desejo

domingo, 5 de junho de 2011

Brasas

"La bruja", de Cildo Meireles


Há um desejo de chuva sobre brasas
e o invasor finalmente deixou esse país
Desejo de guardar as armas
e arrumar a casa
limpar armários, trancar arcas

A matéria escura dos meus cabelos
vai descendo com o vestido até os pés

Uma monja vai nascendo de mim
blindada sob véus e espadas

Ninguém se atreva a perturbar
esse silêncio de milênios
Ninguém ouse uma palavra
contra essa escuridão

Sou um submarino inacessível
sob muitas águas

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cidade submersa

Uma cidade submersa
amores submersos
uma luz marinha guiando
minha busca

o musgo tomou conta
das casas naufragadas

Entre polvos e arraias
nado e sonho
com a cidade que perdi

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Medusa

Deslizo entre tuas mãos
como um barco noturno
entre ilhas

Te apareço em sonhos
sangrando como uma ninfa
Na sombra do esquecimento
em que me alojaste
tornei-me um bicho que vive

Uma luz esquisita emana
de meus cabelos e te atormenta

Ofereço serpentes
e te assusto

Espelho o medo que sentes
do que não podes tocar
do que não podes possuir
do que a vida é pequena demais
para alcançar

sábado, 26 de março de 2011

Dioniso diante de Apolo

Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne

Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo

Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?

Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível

Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Penélope



Se me chegasses no fim desta tarde
eu queria ser outra
não essa estranha que sou em meio à chuva

Se me pudesses ver no fim da tarde
eu fugiria
com medo que minha tristeza te assustasse

Se soubesses o que passo
eu diria: não é verdade

Iria encontrar um jeito de enganar-te
e disfarçar-me

Mas jamais, jamais
deixaria que me visses
sem que a fascinação me abençoasse

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Anúncio de Antiquário

Aceito toda forma de dor
Guardo os cacos, os fracassos
Coleciono toda espécie de trapo
baús, lustres, quadros
bibelôs despedaçados

Até navios desaparecidos
guardo

Aceito cores de todos os retalhos
todas as roupas vividas
chapéus de gente antiga
relógios, violas, rádios

E os desejos perdidos
debaixo dos guarda-chuvas
risos que ficaram presos
dentro dos portarretratos

Aceito o que foi pisado
mutilado, abandonado
Aceito, como um oceano,
toda forma de naufrágio

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Morro da Forca

Minha coragem me deixará leve
suspenso entre olhares abismados

Pela última vez ouço o vento
Basta uma corda, basta um salto

E nunca mais as igrejas
e nunca mais essas ruas
e nunca mais a volúpia do sol
sobre minha carne

Talvez seja só um exílio
uma leveza erguida sobre as pedras
um modo desconhecido de ser pássaro

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carta para Elizabeth Bishop



Há fantasmas, sim, cercando a casa
e bichos mortos e cães furiosos
Mas há também bons espíritos
aterrando o medo
e o desejo louco de viver feliz
numa cidade noturna acesa contra tudo

sábado, 15 de janeiro de 2011

Treliças

Acabei o namoro com teus olhos
O que esperar da luz entre treliças?
Chove a cântaros em Vila Rica
e a janela está fechada há séculos

De que adianta te encontrar nas ruas?
Terminei o namoro com tua alma
Cortei as cordas dessa lira

Havia pássaros entre nós dois
segredos escorriam sem paz
pelas águas perdidas

Mas agora há sossego afastando nossas vidas
Chove, chove a cântaros em Vila Rica
e nunca mais molharemos os sonhos
na mesma bica

domingo, 9 de janeiro de 2011

A fuga de Io



                                                         para Linda Nemer


Eu vinha tonta de mar
e desaguei aqui
entre varandas estreitas
e pontes de suicidas
Cheguei depois do ouro dos poetas
Bebo no cano de ferro do chafariz
Vim para amar o que ficou
sabendo que são restos
Eu vinha encandeada pelo sol
e desaguei aqui
porque a dor não escolhe
a escuridão com que vai se cobrir

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Santa Clara


Amanheci de um modo novo hoje
as luzes de sempre
não me prendem mais com suas âncoras
queimei as lanças
e fui deixando para trás
a casa, o pátio, a aldeia
docemente ensolarada

Rasguei as certezas
enterrei os vestidos
e agora tenho por riqueza o vento

que sustenta os pássaros