Nessas águas que entrei a vida inteira
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar
Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo
Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar
E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar
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quinta-feira, 1 de maio de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
Oração a São Miguel Arcanjo
Se houver perigo esta noite,
preciso que me abrigues
Não te fies no delicado trato
que tenho com os monstros
Eles mentem
Nós mentimos, todos mentem
Se houver perigo esta noite,
não penses que sou forte
só porque vivo só
e conheço toda a ilha
e domino palavras e com elas
construo armas e escudos
Se houver perigo,
preciso que sejas meu pai,
forte, amigo,
afastando com a espada os inimigos
Preciso que pises sobre o meu terror
como pisarias mansamente
sobre um demônio adormecido
preciso que me abrigues
Não te fies no delicado trato
que tenho com os monstros
Eles mentem
Nós mentimos, todos mentem
Se houver perigo esta noite,
não penses que sou forte
só porque vivo só
e conheço toda a ilha
e domino palavras e com elas
construo armas e escudos
Se houver perigo,
preciso que sejas meu pai,
forte, amigo,
afastando com a espada os inimigos
Preciso que pises sobre o meu terror
como pisarias mansamente
sobre um demônio adormecido
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Antônio Francisco Lisboa
Mesmo sem querer
vou segurando em sombras
me agarro às adralvas das portas
me apoio na cantaria das casas
Que ando a querer nas torres altas?
Confio meu corpo aos pináculos
Sustento-me em arcos cruzeiros
Com o que resta dos meus braços
modelo a carne dos anjos
Que a ando a buscar nas madrugadas?
Por que insisto em iluminar
a noite desse jeito?
vou segurando em sombras
me agarro às adralvas das portas
me apoio na cantaria das casas
Que ando a querer nas torres altas?
Confio meu corpo aos pináculos
Sustento-me em arcos cruzeiros
Com o que resta dos meus braços
modelo a carne dos anjos
Que a ando a buscar nas madrugadas?
Por que insisto em iluminar
a noite desse jeito?
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O poema de Laura
Gustav Klimt
Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais
Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo
Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse
Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo
Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste
Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas
Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo
Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...
Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais
Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo
Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse
Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo
Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste
Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas
Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo
Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...
domingo, 27 de novembro de 2011
As perdas
Hamilton, James. 1871
Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados
Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços
Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados
Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços
sábado, 29 de outubro de 2011
Lira de Eurídice
Vem de dentro de mim
uma música
atravessando estradas, campos, lares
Quem pode cobrir de cinza
essa lira que arde?
Vem de dentro de mim
uma música
esbarrando em pedras
soterrando portas
destravando cidades
Dentro de mim
uma música
acesa
invade mares, rios, vales
Quem lhe ousa dar margens?
uma música
atravessando estradas, campos, lares
Quem pode cobrir de cinza
essa lira que arde?
Vem de dentro de mim
uma música
esbarrando em pedras
soterrando portas
destravando cidades
Dentro de mim
uma música
acesa
invade mares, rios, vales
Quem lhe ousa dar margens?
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Calipso
Luís Phillipe. ArtRio,2011
Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias
Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo
Mas uma frágil canoa
foi mais forte
Eu conhecia feitiço, gozo, beleza
Nada que impedisse
um homem de um regresso
Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas
E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda
Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias
Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo
Mas uma frágil canoa
foi mais forte
Eu conhecia feitiço, gozo, beleza
Nada que impedisse
um homem de um regresso
Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas
E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Beatriz
Como se me preparasse para a festa
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia
Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste
Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim
E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia
Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste
Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim
E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Clítia
Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz
Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,
liberta agora meus olhos dessa escravidão
Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo
Preciso de trevas para o meu desejo
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz
Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,
liberta agora meus olhos dessa escravidão
Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo
Preciso de trevas para o meu desejo
domingo, 5 de junho de 2011
Brasas
"La bruja", de Cildo Meireles
Há um desejo de chuva sobre brasas
e o invasor finalmente deixou esse país
Desejo de guardar as armas
e arrumar a casa
limpar armários, trancar arcas
A matéria escura dos meus cabelos
vai descendo com o vestido até os pés
Uma monja vai nascendo de mim
blindada sob véus e espadas
Ninguém se atreva a perturbar
esse silêncio de milênios
Ninguém ouse uma palavra
contra essa escuridão
Sou um submarino inacessível
sob muitas águas
Há um desejo de chuva sobre brasas
e o invasor finalmente deixou esse país
Desejo de guardar as armas
e arrumar a casa
limpar armários, trancar arcas
A matéria escura dos meus cabelos
vai descendo com o vestido até os pés
Uma monja vai nascendo de mim
blindada sob véus e espadas
Ninguém se atreva a perturbar
esse silêncio de milênios
Ninguém ouse uma palavra
contra essa escuridão
Sou um submarino inacessível
sob muitas águas
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Cidade submersa
Uma cidade submersa
amores submersos
uma luz marinha guiando
minha busca
o musgo tomou conta
das casas naufragadas
Entre polvos e arraias
nado e sonho
com a cidade que perdi
amores submersos
uma luz marinha guiando
minha busca
o musgo tomou conta
das casas naufragadas
Entre polvos e arraias
nado e sonho
com a cidade que perdi
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Medusa
Deslizo entre tuas mãos
como um barco noturno
entre ilhas
Te apareço em sonhos
sangrando como uma ninfa
Na sombra do esquecimento
em que me alojaste
tornei-me um bicho que vive
Uma luz esquisita emana
de meus cabelos e te atormenta
Ofereço serpentes
e te assusto
Espelho o medo que sentes
do que não podes tocar
do que não podes possuir
do que a vida é pequena demais
para alcançar
como um barco noturno
entre ilhas
Te apareço em sonhos
sangrando como uma ninfa
Na sombra do esquecimento
em que me alojaste
tornei-me um bicho que vive
Uma luz esquisita emana
de meus cabelos e te atormenta
Ofereço serpentes
e te assusto
Espelho o medo que sentes
do que não podes tocar
do que não podes possuir
do que a vida é pequena demais
para alcançar
sábado, 26 de março de 2011
Dioniso diante de Apolo
Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne
Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo
Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?
Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível
Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne
Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo
Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?
Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível
Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Penélope
eu queria ser outra
não essa estranha que sou em meio à chuva
Se me pudesses ver no fim da tarde
eu fugiria
com medo que minha tristeza te assustasse
Se soubesses o que passo
eu diria: não é verdade
Iria encontrar um jeito de enganar-te
e disfarçar-me
Mas jamais, jamais
deixaria que me visses
sem que a fascinação me abençoasse
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Anúncio de Antiquário
Aceito toda forma de dor
Guardo os cacos, os fracassos
Coleciono toda espécie de trapo
baús, lustres, quadros
bibelôs despedaçados
Até navios desaparecidos
guardo
Aceito cores de todos os retalhos
todas as roupas vividas
chapéus de gente antiga
relógios, violas, rádios
E os desejos perdidos
debaixo dos guarda-chuvas
risos que ficaram presos
dentro dos portarretratos
Aceito o que foi pisado
mutilado, abandonado
Aceito, como um oceano,
toda forma de naufrágio
Guardo os cacos, os fracassos
Coleciono toda espécie de trapo
baús, lustres, quadros
bibelôs despedaçados
Até navios desaparecidos
guardo
Aceito cores de todos os retalhos
todas as roupas vividas
chapéus de gente antiga
relógios, violas, rádios
E os desejos perdidos
debaixo dos guarda-chuvas
risos que ficaram presos
dentro dos portarretratos
Aceito o que foi pisado
mutilado, abandonado
Aceito, como um oceano,
toda forma de naufrágio
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Morro da Forca
Minha coragem me deixará leve
suspenso entre olhares abismados
Pela última vez ouço o vento
Basta uma corda, basta um salto
E nunca mais as igrejas
e nunca mais essas ruas
e nunca mais a volúpia do sol
sobre minha carne
Talvez seja só um exílio
uma leveza erguida sobre as pedras
um modo desconhecido de ser pássaro
suspenso entre olhares abismados
Pela última vez ouço o vento
Basta uma corda, basta um salto
E nunca mais as igrejas
e nunca mais essas ruas
e nunca mais a volúpia do sol
sobre minha carne
Talvez seja só um exílio
uma leveza erguida sobre as pedras
um modo desconhecido de ser pássaro
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Carta para Elizabeth Bishop
Há fantasmas, sim, cercando a casa
e bichos mortos e cães furiosos
Mas há também bons espíritos
aterrando o medo
e o desejo louco de viver feliz
numa cidade noturna acesa contra tudo
sábado, 15 de janeiro de 2011
Treliças
Acabei o namoro com teus olhos
O que esperar da luz entre treliças?
Chove a cântaros em Vila Rica
e a janela está fechada há séculos
De que adianta te encontrar nas ruas?
Terminei o namoro com tua alma
Cortei as cordas dessa lira
Havia pássaros entre nós dois
segredos escorriam sem paz
pelas águas perdidas
Mas agora há sossego afastando nossas vidas
Chove, chove a cântaros em Vila Rica
e nunca mais molharemos os sonhos
na mesma bica
O que esperar da luz entre treliças?
Chove a cântaros em Vila Rica
e a janela está fechada há séculos
De que adianta te encontrar nas ruas?
Terminei o namoro com tua alma
Cortei as cordas dessa lira
Havia pássaros entre nós dois
segredos escorriam sem paz
pelas águas perdidas
Mas agora há sossego afastando nossas vidas
Chove, chove a cântaros em Vila Rica
e nunca mais molharemos os sonhos
na mesma bica
domingo, 9 de janeiro de 2011
A fuga de Io
para Linda Nemer
Eu vinha tonta de mar
e desaguei aqui
entre varandas estreitas
e pontes de suicidas
Cheguei depois do ouro dos poetas
Bebo no cano de ferro do chafariz
Vim para amar o que ficou
sabendo que são restos
Eu vinha encandeada pelo sol
e desaguei aqui
porque a dor não escolhe
a escuridão com que vai se cobrir
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Santa Clara
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