sábado, 7 de setembro de 2013

O teu demônio

O teu demônio me segue
anos a fio
Tece flores para mim
divide meu corpo em partes

Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
aparo suas bordas seu rabo seus chifres

O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado

O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre

O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
e vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda

Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Orfeu despedaçado

Há não sei quantas armas
apontadas contra minha cabeça
e ameaçam me esquartejar depois
primeiro um braço, depois uma perna
todos os meus pedaços cortados
como cactos para o gado
e ainda querem dar meus ossos aos cães
há não sei quantos revólveres
apontados contra minha cabeça
não sei quantos pássaros  mutilados
uivando
o piloto já saiu baleado com a mão no peito
a aeromoça de olhos vendados foi feita refém
muitos gritam, outros calam
e eu estou desesperado
sem saber como fugir daqui

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Contaminação

era para ser um bálsamo
e foi uma facada
era para ser de riso
e foi de lágrima
deixei minha arma no carro
para não matar ninguém
quem sabe se possa reverter:
era para ser uma facada
e foi um bálsamo
era para ser só corte e corpo
e foi de alma

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cotidiano

se você perdesse o estojo e
o caderno, o que você faria?
procuraria
nos achados e perdidos
da estação
colocaria avisos nos postes
perguntaria a todos:
vocês não viram meu caderno?
nele foram rabiscados
a tempestade de hoje à tarde
o trem que perdi para a capital
a vontade inteira que tenho de ser real

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

búzios

me feri com a caneta
navalha que não falha
me cortou a mão
as unhas os ossos
os cabelos os joelhos
me deixou metade sangue
metade asa
estou ferido nos olhos
na nuca no peito
tatuei-me uma casa
aonde eu pudesse ir
desenhei ruas, livros
praias, filmes
um lugar qualquer
para onde eu pudesse
voar
e desabar

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

meteorologia


há quase um ano consultando os serviços meteorológicos
e nada
nunca iria nevar nessa cidade
mesmo assim sonhou que esculpia
em gelo um beijo

como não nevava
a moça hidratou os cabelos
tomou sorvete de amora
e se banhou no mar

como não nevava
ela se deleitou com a chuva
com a represa, os vizinhos
e a horta

como não nevava
resolveu abrigar-se em outro luar

sábado, 17 de agosto de 2013

pequeno vento de agosto

de qual cidade você vem agora
de qual viagem  você volta?

para atravessar minha vida de vermelho
para arrancar de vez minha tristeza
de que havia um coração com um só sentido?

de qual lugar você nunca me chama
de qual saudade você sangra
de qual espanto você cala
sem entender minha brisa e onde me rompo?


por que o vento se escondeu do meu vestido
não bate mais à porta, não me banha
com  a distância dos que nunca chegam
de qual labirinto você canta
de quais areias você sopra?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

torpedo cósmico

nem sei em que país você mora
só quero escrever, escrever, escrever
não sei
se catas guimbas de cigarro nas pedras portuguesas
do Egito, de Israel, da Jordândia
se estás perdido em Tokio sem mapa nem estrelas
fingindo que está só
nem sei se você se escuta, se me escuta
se os versos das canções se escutam mútuas
se cruzam, se trespassam no espaço nu entre  nós e a medialuna
nem sei quem você é, nem de que século, nem década, nem nada
se é verão, inverno, outono, primavera
se é humano, pedra, animal,
homem, mulher, árvore
mas busco, procuro, canto tanto
e atrevo-me a uma ciranda de palavras
na onda  que me leva para mais longe
voz que atravessa mares, astros , lares
viajo como um torpedo para Júpiter, Netuno, Marte
nave, nave , nave
música, música, música

sábado, 10 de agosto de 2013

Canção do homem que saiu a cavalo

procurou alguém de além mar
para sonhar
não para ver, tocar, falar
só para imaginar
buscou alguém de além mar
para estar sempre distante e com saudades
e com ciúmes e com novidades
não foi para receber cartas
foi para ouvir música
não foi para ser correspondido
foi para ser abandonado

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Matafuegos

musos e musas
de todas as cidades me salvem
sou uma força em um plural terrível
atenção Lisboa, Berlim, Buenos Aires
arrombei a porta de casa
larguei os filhos
os sapatos, as máscaras
estou com um incêndio
na boca, na voz, no riso
matei toda essa vida
calculista
roubei
e estou fugindo para o poema

domingo, 28 de julho de 2013

Festa de São João




Isso não é invasão é olhação

sua noite começa melhor

depois que alguém  te olha

Se eu ficar na barraca do beijo

vou dar prejuízo

ninguém vai querer me beijar

mas se eu ficar na barraca do olhar

quem sabe, talvez,

São João

acenda a fogueira do meu coração

e aí vou continuar

não é urgente, não é para casar

é só para olhar

Isso não é invasão, São João,  é só

olhar,  luz,  câmera,  ação

meu nome é Suellen

maria chuteira

superem

sexta-feira, 26 de julho de 2013

uso e desuso

muse-me e abuse-me
cante-me
escreva-me
leia-me
curta-me
adoce-me
roube-me
use-me
mas meu coração não é de pelúcia,
baby:
é de carne

quinta-feira, 18 de julho de 2013

mensagem de uma Helena estrelada

depois acho que vou fazer um poema
mulher curiosa, mulher dos furos, do furô
das fendas, das peixeiras,
mulheres rendeiras
das navalhas, etc e tal
se quiser ainda me dar um alô
tô aqui
na luz natural do pacífico
fuso horário trocado
datas alteradas
programada e libertada
garota de programa
lâmpada acesa
entre o tear e o fuso
entre o fuso e o tear
de frente para o mar

sábado, 13 de julho de 2013

Resposta ao Anjo Gabriel

Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua 
 
                                                   George Segal, Girl putting on mascara, 1968

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ariadne

                                                     J.W. Waterhouse 1898

Os túneis não te alcançam mais
nem rastros, nem restos
nem luzes
me arrasto entre novelos sujos
paredes escuras
labirintos
Há trilhos, muitos trilhos
Mas não são caminhos
e me prendem
Mesmo assim
vivo gerando fontes e jardins
E aguardo o dia
em que voltarás
silencioso e faminto
para perto de mim

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Clítia


Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz

Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,

liberta agora meus olhos dessa escravidão

Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo

Preciso de trevas para o meu desejo

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dias de reflexão geral


Vejam só, como já virou um lema, não são apenas os vinte centavos. A questão é que não somos da realeza global. Não vivemos da boniteza midiática. A jornada dos nossos jornais não nos  pensa. A  Copa do Mundo não nos reflete.  A polícia não nos defende. Nenhum governo nos governa com ética e respeito,  talvez  a grande maioria dos políticos  não nos represente nesse momento atual em que estamos abrindo nossas feridas sociais e econômicas e mostrando a nós mesmos  e ao mundo que não somos apenas  um país de futebol e festa.

 Não é a ausência de causas, há   brasileiros, tenho visto mais de um, dizendo que é a falta de causas.  Todo mundo sabe o tanto de causas sociais que temos, as lutas desse país em vários sentidos.

 Quem disse que estamos apenas acordando agora? Sempre fomos acordados. De Palmares a Pinheirinho. De vez em quando a gente dorme, esquece, se anestesia. Mas uma  certa vigília  é aliada do pensamento. E contra esse pensamento estão disparando balas de borracha, e a gente precisando se defender com  óculos de natação e de mergulho contra o gás lacrimogêneo e  spray de pimenta.  Óculos para submersão servem agora para a subversão. As insurreições até podem ser debeladas de forma covarde com essas armas, mas o pensamento não. Ao contrário, quanto mais jogam gás, mais a gente pensa, com os olhos inchados de choro e dor. As lágrimas são de vergonha e de coragem. Vergonha porque tem gente machucada pela polícia que devia ser nossa proteção. E uma coragem diferente porque não estamos lutando com armas, estamos lutando com palavras, com reflexão .

Quem disse que não há pensamento nessa rebelião? Só não é o pensamento de nenhum líder carismático salvador da pátria, é o pensamento de muita gente se unindo, muita gente pensando de modo coletivo. A cada dia os acontecimentos estão nos fazendo pensar mais, a inflação nos fazendo pensar, a inflamação das gargantas nos gritos e nos choques com os repressores. Tudo isso faz pensar e pensar muito.  São dias de reflexão geral, dias em que a  intelligentia está vacilando porque não sabe de que lado fica. Dias em que os torcedores de futebol também estão vacilando porque precisamos pensar criticamente o futebol . Bom que esteja todo mundo atordoado, perturbado, incomodado. Precisamos incomodar, sim, vamos incomodar. Precisamos nos espantar  e levantar a cabeça e o pensamento contra a ignorância, contra o comodismo.  E como diz Sartre, somos condenados à liberdade e somos responsáveis por isso, somos responsáveis por cada um dos nossos atos e escolhas. E o que estamos escolhendo agora?  Lutar contra a imposição,  contra o retrocesso, lutar pelo direito de  ter ideias e de manifestá-las livremente sem opressão. O  pensamento crítico é isso:  o espanto com responsabilidade e criatividade.

sábado, 15 de junho de 2013

A fiandeira

                                                          fábrica de tecidos século XIX

Eu fiaria um manto inteiro hoje
enquanto você dorme
Há lembranças que não tenho onde guardar
e que só depositaria bem numa fogueira

Não há memória, nem nomes,
nem arcas, nem caixas
que possam conter tanto furor

Eu fiaria um manto inteiro
mas um manto não serve
Poderia inventar lendas
narrar um sonho aos marinheiros
mas nem lendas, nem sonhos,
nem marinheiros poderiam exprimir
o que vivi

Eu fiaria um manto inteiro hoje
mas não serve um manto
não serve enterrar segredos numa ilha
e esperar o temporal passar

Há dias em que os raios são a única saída