Havia os cabelos de Eurídice incendiando a praia
e os homens com suas redes esperando
Orfandades arrastadas sobre a areia
era assim que vinham os peixes
era assim que as palavras vinham,
sem ar,
com olhos vitrificados
Havia os cabelos de Eurídice soltos
como velames
cortando os ventos
semeando bichos que se alastravam
Eram quase mãos, os cabelos de Eurídice,
tentando agarrar alguma coisa
buscando alcançar uma alegria, um êxtase,
uma dor que fosse
qualquer coisa quebrada,
algum resto, um destroço
ou algas e conchas dentro das ondas
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sábado, 9 de agosto de 2014
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Zila
Nessas águas que entrei a vida inteira
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar
Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo
Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar
E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar
Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo
Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar
E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Ariadne
Os túneis não te alcançam mais
nem rastros, nem restos
nem luzes
me arrasto entre novelos sujos
paredes escuras
labirintos
Há trilhos, muitos trilhos
Mas não são caminhos
e me prendem
Mesmo assim
vivo gerando fontes e jardins
E aguardo o dia
em que voltarás
silencioso e faminto
para perto de mim
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Clítia
Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz
Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,
liberta agora meus olhos dessa escravidão
Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo
Preciso de trevas para o meu desejo
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O poema de Laura
Gustav Klimt
Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais
Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo
Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse
Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo
Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste
Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas
Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo
Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...
Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais
Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo
Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse
Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo
Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste
Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas
Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo
Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...
domingo, 27 de novembro de 2011
As perdas
Hamilton, James. 1871
Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados
Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços
Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados
Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Calipso
Luís Phillipe. ArtRio,2011
Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias
Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo
Mas uma frágil canoa
foi mais forte
Eu conhecia feitiço, gozo, beleza
Nada que impedisse
um homem de um regresso
Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas
E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda
Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias
Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo
Mas uma frágil canoa
foi mais forte
Eu conhecia feitiço, gozo, beleza
Nada que impedisse
um homem de um regresso
Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas
E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda
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