até o sal elogiaram
e não louvaram o amor
mesmo que viesse com geadas e granizos
mesmo que perturbasse as plantações
e inquietasse as órbitas dos astros
o amor e até o ódio nos salvariam
e mesmo que fosse doença
também seria cura
e mesmo que não tivesse a quem se dar
também seria amor
mesmo que não fosse por pessoa alguma
e fosse só memória, promessa ou guerra
também seria amor
e se fosse passageiro também seria duradouro
e se fosse duradouro também seria passageiro
e se fosse solidão também seria companhia
se fosse mutilado também seria o todo
e mesmo se estivesse errado também seria certo
e se fosse feio também seria belo
e se fosse violento também seria delicado
e mesmo se estivesse perto também seria distante
e se estivesse distante também seria perto
porque ninguém pode entender o amor nem o ódio
nem a solidão nem outros mistérios
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
astrônoma autodidata
Te contei que recebi meu exame de sangue?
Estou toda contaminada de alumínio
e disseram que Michael Jackson desceu
só para cantar para a gente:
eu não confio em quem não toma café
não quero sair ileso dessa vida
quero cicatrizes no rosto, na face, no jeito
dessa vez desceu sem máscaras
Eu nem sabia que isso ia acontecer
a lua tava vênus
a lua trespassou vênus
Isso só acontece de quantos em quantos anos?
Não tem uma bandeira de um país que é assim?
Que país é esse, é lá Arábia?
eu só pensava no telescópio e nesse país
e em um maneira de estar lá mesmo sem estar
Estou toda contaminada de alumínio
e disseram que Michael Jackson desceu
só para cantar para a gente:
eu não confio em quem não toma café
não quero sair ileso dessa vida
quero cicatrizes no rosto, na face, no jeito
dessa vez desceu sem máscaras
Eu nem sabia que isso ia acontecer
a lua tava vênus
a lua trespassou vênus
Isso só acontece de quantos em quantos anos?
Não tem uma bandeira de um país que é assim?
Que país é esse, é lá Arábia?
eu só pensava no telescópio e nesse país
e em um maneira de estar lá mesmo sem estar
sábado, 7 de setembro de 2013
O teu demônio
O teu demônio me segue
anos a fio
Tece flores para mim
divide meu corpo em partes
Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
aparo suas bordas seu rabo seus chifres
O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado
O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre
O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
e vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda
Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma
anos a fio
Tece flores para mim
divide meu corpo em partes
Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
aparo suas bordas seu rabo seus chifres
O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado
O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre
O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
e vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda
Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Orfeu despedaçado
Há não sei quantas armas
apontadas contra minha cabeça
e ameaçam me esquartejar depois
primeiro um braço, depois uma perna
todos os meus pedaços cortados
como cactos para o gado
e ainda querem dar meus ossos aos cães
há não sei quantos revólveres
apontados contra minha cabeça
não sei quantos pássaros mutilados
uivando
o piloto já saiu baleado com a mão no peito
a aeromoça de olhos vendados foi feita refém
muitos gritam, outros calam
e eu estou desesperado
sem saber como fugir daqui
apontadas contra minha cabeça
e ameaçam me esquartejar depois
primeiro um braço, depois uma perna
todos os meus pedaços cortados
como cactos para o gado
e ainda querem dar meus ossos aos cães
há não sei quantos revólveres
apontados contra minha cabeça
não sei quantos pássaros mutilados
uivando
o piloto já saiu baleado com a mão no peito
a aeromoça de olhos vendados foi feita refém
muitos gritam, outros calam
e eu estou desesperado
sem saber como fugir daqui
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Contaminação
era para ser um bálsamo
e foi uma facada
era para ser de riso
e foi de lágrima
deixei minha arma no carro
para não matar ninguém
quem sabe se possa reverter:
era para ser uma facada
e foi um bálsamo
era para ser só corte e corpo
e foi de alma
e foi uma facada
era para ser de riso
e foi de lágrima
deixei minha arma no carro
para não matar ninguém
quem sabe se possa reverter:
era para ser uma facada
e foi um bálsamo
era para ser só corte e corpo
e foi de alma
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Cotidiano
se você perdesse o estojo e
o caderno, o que você faria?
procuraria
nos achados e perdidos
da estação
colocaria avisos nos postes
perguntaria a todos:
vocês não viram meu caderno?
nele foram rabiscados
a tempestade de hoje à tarde
o trem que perdi para a capital
a vontade inteira que tenho de ser real
o caderno, o que você faria?
procuraria
nos achados e perdidos
da estação
colocaria avisos nos postes
perguntaria a todos:
vocês não viram meu caderno?
nele foram rabiscados
a tempestade de hoje à tarde
o trem que perdi para a capital
a vontade inteira que tenho de ser real
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
búzios
me feri com a caneta
navalha que não falha
me cortou a mão
as unhas os ossos
os cabelos os joelhos
me deixou metade sangue
metade asa
estou ferido nos olhos
na nuca no peito
tatuei-me uma casa
aonde eu pudesse ir
desenhei ruas, livros
praias, filmes
um lugar qualquer
para onde eu pudesse
voar
e desabar
navalha que não falha
me cortou a mão
as unhas os ossos
os cabelos os joelhos
me deixou metade sangue
metade asa
estou ferido nos olhos
na nuca no peito
tatuei-me uma casa
aonde eu pudesse ir
desenhei ruas, livros
praias, filmes
um lugar qualquer
para onde eu pudesse
voar
e desabar
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
meteorologia
há quase um ano consultando os serviços meteorológicos
e nada
nunca iria nevar nessa cidade
mesmo assim sonhou que esculpia
em gelo um beijo
como não nevava
a moça hidratou os cabelos
tomou sorvete de amora
e se banhou no mar
como não nevava
ela se deleitou com a chuva
com a represa, os vizinhos
e a horta
como não nevava
resolveu abrigar-se em outro luar
sábado, 17 de agosto de 2013
pequeno vento de agosto
de qual cidade você vem agora
de qual viagem você volta?
para atravessar minha vida de vermelho
para arrancar de vez minha tristeza
de que havia um coração com um só sentido?
de qual lugar você nunca me chama
de qual saudade você sangra
de qual espanto você cala
sem entender minha brisa e onde me rompo?
por que o vento se escondeu do meu vestido
não bate mais à porta, não me banha
com a distância dos que nunca chegam
de qual labirinto você canta
de quais areias você sopra?
de qual viagem você volta?
para atravessar minha vida de vermelho
para arrancar de vez minha tristeza
de que havia um coração com um só sentido?
de qual lugar você nunca me chama
de qual saudade você sangra
de qual espanto você cala
sem entender minha brisa e onde me rompo?
por que o vento se escondeu do meu vestido
não bate mais à porta, não me banha
com a distância dos que nunca chegam
de qual labirinto você canta
de quais areias você sopra?
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
torpedo cósmico
nem sei em que país você mora
só quero escrever, escrever, escrever
não sei
se catas guimbas de cigarro nas pedras portuguesas
do Egito, de Israel, da Jordândia
se estás perdido em Tokio sem mapa nem estrelas
fingindo que está só
nem sei se você se escuta, se me escuta
se os versos das canções se escutam mútuas
se cruzam, se trespassam no espaço nu entre nós e a medialuna
nem sei quem você é, nem de que século, nem década, nem nada
se é verão, inverno, outono, primavera
se é humano, pedra, animal,
homem, mulher, árvore
mas busco, procuro, canto tanto
e atrevo-me a uma ciranda de palavras
na onda que me leva para mais longe
voz que atravessa mares, astros , lares
viajo como um torpedo para Júpiter, Netuno, Marte
nave, nave , nave
música, música, música
só quero escrever, escrever, escrever
não sei
se catas guimbas de cigarro nas pedras portuguesas
do Egito, de Israel, da Jordândia
se estás perdido em Tokio sem mapa nem estrelas
fingindo que está só
nem sei se você se escuta, se me escuta
se os versos das canções se escutam mútuas
se cruzam, se trespassam no espaço nu entre nós e a medialuna
nem sei quem você é, nem de que século, nem década, nem nada
se é verão, inverno, outono, primavera
se é humano, pedra, animal,
homem, mulher, árvore
mas busco, procuro, canto tanto
e atrevo-me a uma ciranda de palavras
na onda que me leva para mais longe
voz que atravessa mares, astros , lares
viajo como um torpedo para Júpiter, Netuno, Marte
nave, nave , nave
música, música, música
sábado, 10 de agosto de 2013
Canção do homem que saiu a cavalo
procurou alguém de além mar
para sonhar
não para ver, tocar, falar
só para imaginar
buscou alguém de além mar
para estar sempre distante e com saudades
e com ciúmes e com novidades
não foi para receber cartas
foi para ouvir música
não foi para ser correspondido
foi para ser abandonado
para sonhar
não para ver, tocar, falar
só para imaginar
buscou alguém de além mar
para estar sempre distante e com saudades
e com ciúmes e com novidades
não foi para receber cartas
foi para ouvir música
não foi para ser correspondido
foi para ser abandonado
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Matafuegos
musos e musas
de todas as cidades me salvem
sou uma força em um plural terrível
atenção Lisboa, Berlim, Buenos Aires
arrombei a porta de casa
larguei os filhos
os sapatos, as máscaras
estou com um incêndio
na boca, na voz, no riso
matei toda essa vida
calculista
roubei
e estou fugindo para o poema
de todas as cidades me salvem
sou uma força em um plural terrível
atenção Lisboa, Berlim, Buenos Aires
arrombei a porta de casa
larguei os filhos
os sapatos, as máscaras
estou com um incêndio
na boca, na voz, no riso
matei toda essa vida
calculista
roubei
e estou fugindo para o poema
domingo, 28 de julho de 2013
Festa de São João
Isso não é invasão é olhação
sua noite começa melhor
depois que alguém te olha
Se eu ficar na barraca do beijo
vou dar prejuízo
ninguém vai querer me beijar
mas se eu ficar na barraca do olhar
quem sabe, talvez,
São João
acenda a fogueira do meu coração
e aí vou continuar
não é urgente, não é para casar
é só para olhar
Isso não é invasão, São João, é só
olhar, luz, câmera, ação
meu nome é Suellen
maria chuteira
superem
sexta-feira, 26 de julho de 2013
uso e desuso
muse-me e abuse-me
cante-me
escreva-me
leia-me
curta-me
adoce-me
roube-me
use-me
mas meu coração não é de pelúcia,
baby:
é de carne
cante-me
escreva-me
leia-me
curta-me
adoce-me
roube-me
use-me
mas meu coração não é de pelúcia,
baby:
é de carne
quinta-feira, 18 de julho de 2013
mensagem de uma Helena estrelada
depois acho que vou fazer um poema
mulher curiosa, mulher dos furos, do furô
das fendas, das peixeiras,
mulheres rendeiras
das navalhas, etc e tal
se quiser ainda me dar um alô
tô aqui
na luz natural do pacífico
fuso horário trocado
datas alteradas
programada e libertada
garota de programa
lâmpada acesa
entre o tear e o fuso
entre o fuso e o tear
de frente para o mar
mulher curiosa, mulher dos furos, do furô
das fendas, das peixeiras,
mulheres rendeiras
das navalhas, etc e tal
se quiser ainda me dar um alô
tô aqui
na luz natural do pacífico
fuso horário trocado
datas alteradas
programada e libertada
garota de programa
lâmpada acesa
entre o tear e o fuso
entre o fuso e o tear
de frente para o mar
sábado, 13 de julho de 2013
Resposta ao Anjo Gabriel
Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua
George Segal, Girl putting on mascara, 1968
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Ariadne
Os túneis não te alcançam mais
nem rastros, nem restos
nem luzes
me arrasto entre novelos sujos
paredes escuras
labirintos
Há trilhos, muitos trilhos
Mas não são caminhos
e me prendem
Mesmo assim
vivo gerando fontes e jardins
E aguardo o dia
em que voltarás
silencioso e faminto
para perto de mim
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Clítia
Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz
Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,
liberta agora meus olhos dessa escravidão
Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo
Preciso de trevas para o meu desejo
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