domingo, 3 de agosto de 2014
Diana
Ele sabe os tons de esmalte que ela usa
os brincos e joias que ela tem
brincos de ouro fosco e círios raros
colar amarelo fervido em pérolas
Ele sabe por onde ela prende seus cabelos
escritos em todas as partes
Cabelos mais longos que as folhas da palmeira
longa cabeleira, juízo curto
Mas ela curte tanto ter juízo
curte os cabelos curtos dos homens que ama
curte paixões que alucinam
as paixões que fogem e voltam
Sacerdotisa de Tupã
abençoa tudo com licor
Lábios de mel para esse mundo às vezes sem cores e tão cru
Ele sabe os tons de esmalte que ela usa
por onde ela acende suas chamas
e os medos e coragens que ela tem
sábado, 2 de agosto de 2014
Por trás da tenda
Sonho que você está por trás da tenda
oculto
e faz sinais para mim
com letras de fumaça
Ouço sua gargalhada
e vejo a sua sombra
Sonho que essa sombra toca a minha sombra
mas só as sombras se tocam, os corpos não
Sonho que um cavalo espera
ao lado do fogo
mas você não surge
Sonho que alguém esmaga uma aranha
no chão limpo
Sonho que vem uma menina entre as ondas
Sei que você está lá mas não vejo
Sonho que estamos sobre um trem parado
e há na rua cata-ventos e sismos
Parece que nem tudo está perdido
Sonho com facas, com palavras fortes
com meninos na rua carregando pedras
há uma casa muito velha onde os cães dormem
entre montes de capim seco e brita
Sonho que você está lá e me aguarda
Sonho que você tem uma ferida
velada pelos pássaros
Sonho que esta rua é minha e a ladrilho
com muitos rios
para que os peixes fluam tranquilos
oculto
e faz sinais para mim
com letras de fumaça
Ouço sua gargalhada
e vejo a sua sombra
Sonho que essa sombra toca a minha sombra
mas só as sombras se tocam, os corpos não
Sonho que um cavalo espera
ao lado do fogo
mas você não surge
Sonho que alguém esmaga uma aranha
no chão limpo
Sonho que vem uma menina entre as ondas
Sei que você está lá mas não vejo
Sonho que estamos sobre um trem parado
e há na rua cata-ventos e sismos
Parece que nem tudo está perdido
Sonho com facas, com palavras fortes
com meninos na rua carregando pedras
há uma casa muito velha onde os cães dormem
entre montes de capim seco e brita
Sonho que você está lá e me aguarda
Sonho que você tem uma ferida
velada pelos pássaros
Sonho que esta rua é minha e a ladrilho
com muitos rios
para que os peixes fluam tranquilos
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Ao pé do muro
lamafértil 2014
E além do mais, eu também tenho uma
uma banda bichada onde um veneno fino
se destila
E esta outra banda que me salva
Pedra não é
e ao perecimento se castiga
Fruta no sereno
uma parte sã, outra perdida
o que me bicha e lixa e come seco
é o que em silêncio me espanta sem que eu saiba
Pode um bico de pássaro reter o meu destino
com a doçura própria de seu timbre
Posso secar ao sol com a casca empretecida
uma banda sã, outra maldita
Mundo, mundo, vasto mundo, estou aqui dividida
e nem rima nem solução seria
se eu me chamasse Aparecida
E além do mais, eu também tenho uma
uma banda bichada onde um veneno fino
se destila
E esta outra banda que me salva
Pedra não é
e ao perecimento se castiga
Fruta no sereno
uma parte sã, outra perdida
o que me bicha e lixa e come seco
é o que em silêncio me espanta sem que eu saiba
Pode um bico de pássaro reter o meu destino
com a doçura própria de seu timbre
Posso secar ao sol com a casca empretecida
uma banda sã, outra maldita
Mundo, mundo, vasto mundo, estou aqui dividida
e nem rima nem solução seria
se eu me chamasse Aparecida
domingo, 27 de julho de 2014
correio elegante
entrego minha alma
na portaria do seu prédio
deixo lá as chaves, as senhas
os cadeados, os mistérios todos
para você me conhecer
entrego meus pés vermelhos
o que sobrou dos meus cabelos cortados
envio imagens, mensagens, massagens
coragem
seguem por navio, trem, avião
pombo correio, ônibus, bicicleta,
skate, mototáxi
todos levam minha alma
daqui para a Iugoslávia
quero ver você ter a ruindade
de não receber
na portaria do seu prédio
deixo lá as chaves, as senhas
os cadeados, os mistérios todos
para você me conhecer
entrego meus pés vermelhos
o que sobrou dos meus cabelos cortados
envio imagens, mensagens, massagens
coragem
seguem por navio, trem, avião
pombo correio, ônibus, bicicleta,
skate, mototáxi
todos levam minha alma
daqui para a Iugoslávia
quero ver você ter a ruindade
de não receber
sábado, 26 de julho de 2014
Jacy
Foto: Vlademir Alexandre
O Grupo Carmin realiza três apresentações do espetáculo JACY nos dias 08, 09 e 10 de agosto em Natal no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (TCP). Em seguida, a frasqueira será aberta no dia 10 de setembro no 21º Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga/CE, e no dia 17 do mesmo mês, na Mostra Internacional de Teatro em João Pessoa/PB. Texto: Pablo Capistrano, Iracema Macedo, Henrique Fontes. Atuação: Quitéria Kelly, Henrique Fontes e Pedro Fiúza. Direção: Henrique Fontes e Lenilton Teixeira.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Na enfermaria
dormiu livre
e acordou escrava
o vestido pelo avesso
rosa
o riso atrás das grades preso
a écharpe, em vez de charme,
corte
a beleza trancada sob facas, bisturis, uniformes
o parto, em vez de luz,
dor e má sorte
a tristeza esticada sobre a maca
e acordou escrava
o vestido pelo avesso
rosa
o riso atrás das grades preso
a écharpe, em vez de charme,
corte
a beleza trancada sob facas, bisturis, uniformes
o parto, em vez de luz,
dor e má sorte
a tristeza esticada sobre a maca
quinta-feira, 24 de julho de 2014
O retorno de Saturno
Saturno veio colher as romãs
brasas no pomar
Vivo nua pela casa
leio cartas, fecho as portas
Saturno me espia pelas frestas
me sussurra nomes feios
vivo cheia de varais
lampiões e pássaros acesos
Parece que estou esticada entre dois abismos
entre dois homens
entre dois vendavais
Abro a janela
encaro o deus
me vejo nos seus olhos
me vejo dentro dele
Quando é que esses olhos irão me acordar?
Quando é que irão me levar?
Quieto no seu canto
Saturno me estende a mão e um cálice
e é como se a vida chegasse
silenciosa e indolor
como os milagres
brasas no pomar
Vivo nua pela casa
leio cartas, fecho as portas
Saturno me espia pelas frestas
me sussurra nomes feios
vivo cheia de varais
lampiões e pássaros acesos
Parece que estou esticada entre dois abismos
entre dois homens
entre dois vendavais
Abro a janela
encaro o deus
me vejo nos seus olhos
me vejo dentro dele
Quando é que esses olhos irão me acordar?
Quando é que irão me levar?
Quieto no seu canto
Saturno me estende a mão e um cálice
e é como se a vida chegasse
silenciosa e indolor
como os milagres
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Branca de Neve e os sete anões
Os demônios brancos enlaçados aos postes
cantam e cospem
e o poço onde a louca dormia sossegada
foi medido
Os demônios brancos
esbarram em sombras enormes
e a louca canta e cospe
enlaçada aos demônios nos postes
No chão de noite tão clara
louca e demônios se abrasam
cantando cuspindo e rindo
( No meio da algazarra
acabam todos dormindo)
A bruxa vem de mansinho
transforma a louca em donzela
e os demônios em meninos
terça-feira, 22 de julho de 2014
A casa assaltada
cadeados quando quebrados
abrem caminhos, deixam entrar
os hóspedes, bandidos ou inimigos
sem lei nem vez
que ao invés de roubarem
trazem o presente do novo
mistérios, sustos, segredos
coragem para se desviar, migrar
assaltos às vezes são saltos
para um novo e belo lugar
segunda-feira, 21 de julho de 2014
celular
com esse gps chego até você
marco com uma estrela
meu hostel e a sua rua
gravo seus versos
onde você quiser
no ônibus, na mata
favela, elevador
sofá, cama, banco de praça
ouço música, vejo filmes, salvo tudo
sem esse celular
não sei viver
tô duro, inseguro, lascado, assaltado
pedindo dinheiro emprestado
mas esse celular é a única coisa
que não posso vender
porque sem ele posso te perder
marco com uma estrela
meu hostel e a sua rua
gravo seus versos
onde você quiser
no ônibus, na mata
favela, elevador
sofá, cama, banco de praça
ouço música, vejo filmes, salvo tudo
sem esse celular
não sei viver
tô duro, inseguro, lascado, assaltado
pedindo dinheiro emprestado
mas esse celular é a única coisa
que não posso vender
porque sem ele posso te perder
domingo, 20 de julho de 2014
Bacante
Em meu ninho longínquo
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
transformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
transformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Invasão ibérica
A Espanha e seu campo de girassóis
suas oliveiras, seus rios
seus árabes e catedrais
aportaram em mim e te querem
Todas as forças de sua arquitetura
suas casas mediterrâneas, suas torres medievais
as touradas sangrentas de Sevilha
os ciganos incríveis de Granada
por todo lado essa prece:
o meu amor é esse país inteiro te esperando
suas oliveiras, seus rios
seus árabes e catedrais
aportaram em mim e te querem
Todas as forças de sua arquitetura
suas casas mediterrâneas, suas torres medievais
as touradas sangrentas de Sevilha
os ciganos incríveis de Granada
por todo lado essa prece:
o meu amor é esse país inteiro te esperando
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Iniciação
Enquanto ele acalma os olhos com colírios
recito o poema de Laura
desfilo sem pudor
em sua frente
exerço meus ritos, meus mitos
meus vícios
Me atiro inteira
trapezista de circo
e meu salto deixa os marujos confusos
mancho os lençóis com meu sangue
me entrego
sinto o fulgor gelado do champanhe
Não tenho mais medo nem susto
por entre atalhos escuros e secretos
um homem belo me busca e me fareja
cegamente escravo dos meus versos
recito o poema de Laura
desfilo sem pudor
em sua frente
exerço meus ritos, meus mitos
meus vícios
Me atiro inteira
trapezista de circo
e meu salto deixa os marujos confusos
mancho os lençóis com meu sangue
me entrego
sinto o fulgor gelado do champanhe
Não tenho mais medo nem susto
por entre atalhos escuros e secretos
um homem belo me busca e me fareja
cegamente escravo dos meus versos
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Delicado recado
a raiz da cor de um raio trago
cor de vela, fumaça, orvalho
a raiz da cor de um porto
invento recrio e tento
sempre que caio
cor de vela, fumaça, orvalho
a raiz da cor de um porto
invento recrio e tento
sempre que caio
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Ice King
o rei do gelo
me encanta
com sua música
seu silêncio
seu ar
podem dizer
ah que lirismo tosco
que não fala em remédios
nem acidentes aéreos
nem produtos de limpeza
e beleza
estou dando linha
para a pipa voar
e não corda para o garoto se enforcar
o rei do gelo
me encanta
e sabe se cuidar
aprendi com ele que
sou eu mesmo sozinho
na primeira pessoa do singular
que hei de me salvar
me encanta
com sua música
seu silêncio
seu ar
podem dizer
ah que lirismo tosco
que não fala em remédios
nem acidentes aéreos
nem produtos de limpeza
e beleza
estou dando linha
para a pipa voar
e não corda para o garoto se enforcar
o rei do gelo
me encanta
e sabe se cuidar
aprendi com ele que
sou eu mesmo sozinho
na primeira pessoa do singular
que hei de me salvar
sábado, 28 de junho de 2014
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Carpe Diem
Não precisa ser um longa metragem
pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde
pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde
terça-feira, 27 de maio de 2014
Surpresas
desejei o tempo de um presságio
de um trem demorando a chegar
o tempo de um oráculo
e de uma espera
pelos enigmas, decifrações, saudades
um tempo com menos pressa
menos imprensa, menos notícias
mas todos os aparelhos estão ligados
raios, pneumáticos, telegramas
circulam por toda parte
tudo portátil, óbvio e comunicável
todos a postos
nenhum mistério
nenhuma posta restante
nenhuma estação à frente
nem segredo nem surpresa
ficou tudo tão urgente e incandescente
que ninguém pode mais escurecer
nem se esconder
de um trem demorando a chegar
o tempo de um oráculo
e de uma espera
pelos enigmas, decifrações, saudades
um tempo com menos pressa
menos imprensa, menos notícias
mas todos os aparelhos estão ligados
raios, pneumáticos, telegramas
circulam por toda parte
tudo portátil, óbvio e comunicável
todos a postos
nenhum mistério
nenhuma posta restante
nenhuma estação à frente
nem segredo nem surpresa
ficou tudo tão urgente e incandescente
que ninguém pode mais escurecer
nem se esconder
sexta-feira, 2 de maio de 2014
O Amor fati em Nietzsche
Do que andei estudando até hoje na obra de Nietzsche, encontrei a expressão Amor fati poucas vezes mencionada literalmente, mas, nessas poucas vezes em que aparece, é dita com tal força e com tal intensidade que não podemos deixar de compreendê-la como uma noção fundamental de seu pensamento, noção essa cuja compreensão contribui muito quando se deseja entender o que é uma filosofia trágica.
É em 1882, no início do livro IV de A Gaia ciência, no aforismo 276, que Nietzsche publica pela primeira vez algo sobre o conceito de Amor fati:
“Hoje cada um se permite exprimir seu desejo, seu mais caro pensamento; assim eu vou dizer o que desejo hoje de mim mesmo, e qual foi o primeiro pensamento que preencheu meu coração este ano, um pensamento que deve ser a razão, a graça e a suavidade de toda a minha vida! Eu quero aprender cada vez mais a considerar a necessidade das coisas como o belo em si – assim, eu serei um daqueles que tornam as coisas belas, amor fati: que seja este de agora em diante o meu amor! Eu não vou fazer guerra contra o feio, eu não o acusarei mais, eu não acusarei nem mesmo os acusadores. Suspender o olhar, que esta seja minha única forma de negar. Eu não quero, a partir desse momento, ser outra coisa senão pura afirmação.”
O que há de necessário nas coisas parece ser o fato de que essas coisas são simplesmente coisas, isto é, elementos pertencentes a um mundo que se transforma, que muda, que devém. Afirmação da própria transitoriedade. Amar o que há de necessário nas coisas é amar o que de certa forma não permanece, não pode ser previsto, amar mesmo o desconhecido, mesmo o incompreensível.
Lembremos que beleza para Nietzsche é o que seduz em favor da existência e arte é intensificação da vida e essa intensificação só será possível se a vida for assumida em sua plenitude, necessariamente, mesmo com seus males e dores, mesmo com sua finitude
Ainda a propósito do Amor fati, Nietzsche escreve no Ecce Homo: “Minha fórmula para a grandeza no homem é Amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário - mas amá-lo.”[1] Parece ser fundamental essa noção do idealismo entendido como falsidade perante a necessidade. Pode-se inclusive notar também nessa passagem uma certa dimensão ética do Amor fati. Amar a fatalidade é um modo de realizar a grandeza, o homem seria pequeno se sucumbisse diante dela, se resignando ou se tornando indiferente. Amar representa aqui uma condição da criação. O Amor fati é um sim, não é negação, nem indiferença, é um querer. Prefigura, portanto, uma intensa vontade de pertencimento ao mundo, uma vontade transfiguradora e criadora que deseja realizar a vida mesmo em suas possibilidades mais estranhas e difíceis.
[1] Nietzsche, F. Ecce Homo. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.p51
É em 1882, no início do livro IV de A Gaia ciência, no aforismo 276, que Nietzsche publica pela primeira vez algo sobre o conceito de Amor fati:
“Hoje cada um se permite exprimir seu desejo, seu mais caro pensamento; assim eu vou dizer o que desejo hoje de mim mesmo, e qual foi o primeiro pensamento que preencheu meu coração este ano, um pensamento que deve ser a razão, a graça e a suavidade de toda a minha vida! Eu quero aprender cada vez mais a considerar a necessidade das coisas como o belo em si – assim, eu serei um daqueles que tornam as coisas belas, amor fati: que seja este de agora em diante o meu amor! Eu não vou fazer guerra contra o feio, eu não o acusarei mais, eu não acusarei nem mesmo os acusadores. Suspender o olhar, que esta seja minha única forma de negar. Eu não quero, a partir desse momento, ser outra coisa senão pura afirmação.”
O que há de necessário nas coisas parece ser o fato de que essas coisas são simplesmente coisas, isto é, elementos pertencentes a um mundo que se transforma, que muda, que devém. Afirmação da própria transitoriedade. Amar o que há de necessário nas coisas é amar o que de certa forma não permanece, não pode ser previsto, amar mesmo o desconhecido, mesmo o incompreensível.
Lembremos que beleza para Nietzsche é o que seduz em favor da existência e arte é intensificação da vida e essa intensificação só será possível se a vida for assumida em sua plenitude, necessariamente, mesmo com seus males e dores, mesmo com sua finitude
Ainda a propósito do Amor fati, Nietzsche escreve no Ecce Homo: “Minha fórmula para a grandeza no homem é Amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário - mas amá-lo.”[1] Parece ser fundamental essa noção do idealismo entendido como falsidade perante a necessidade. Pode-se inclusive notar também nessa passagem uma certa dimensão ética do Amor fati. Amar a fatalidade é um modo de realizar a grandeza, o homem seria pequeno se sucumbisse diante dela, se resignando ou se tornando indiferente. Amar representa aqui uma condição da criação. O Amor fati é um sim, não é negação, nem indiferença, é um querer. Prefigura, portanto, uma intensa vontade de pertencimento ao mundo, uma vontade transfiguradora e criadora que deseja realizar a vida mesmo em suas possibilidades mais estranhas e difíceis.
[1] Nietzsche, F. Ecce Homo. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.p51
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Zila
Nessas águas que entrei a vida inteira
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar
Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo
Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar
E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar
Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo
Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar
E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar
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