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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O chafariz

Parece que saí de algum sonho, de alguma caverna
de algum lugar inóspito e aquecido
Imobilizado feito os corpos de Pompeia
virei uma estátua de cinza

Sou uma miragem entre os edifícios
mas tenho a realidade dos fantasmas
a errância dos bardos
a necessidade dos mendigos

Minha imobilidade é um artifício

A todo tempo oscilo
entre a inércia do meu corpo
e a fluidez do rio que abrigo

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A bruxa

                                                      La bruja, Cildo Meireles
                                              


Era tão brando ser bardo
antes da bruxa
Tão fácil memorar breves desígnios
e olhar-se no espelho junto com as bolhas
de sabão
e azul como elas dispersar-se
Havia um certo cuidado
uma sutileza compondo o rosto
As faces em tempo de estio e ensolaradas
as faces assim avarandadas
dóceis aos ventos e aos nadas
Era tão brando ser bruxa
antes do bardo
catar morcegos mortos e ervas malditas
e fazer o mal sem que nenhum arco se quebrasse
Sentir as febres, dormir sob o gume da faca
era tão fácil a maldade sem a arte
Mas tu não sabes, meu amigo,
a flor escura
de agora ser tão bardo e bruxa ao mesmo tempo
E sendo bardo querer cantar os dias
e sendo bruxa odiar o próprio canto

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ao pé do muro

                                                                   lamafértil 2014

E além do mais, eu também tenho uma
uma banda bichada onde um veneno fino
se destila
E esta outra banda que me salva
Pedra não é
e ao perecimento se castiga
Fruta no sereno
uma parte sã, outra perdida
o que me bicha e lixa e come seco
é o que em silêncio me espanta sem que eu saiba
Pode um bico de pássaro reter o meu destino
com a doçura própria de seu timbre
Posso secar ao sol com a casca empretecida
uma banda sã, outra maldita
Mundo, mundo, vasto mundo, estou aqui dividida
e nem rima nem solução seria
se eu me chamasse Aparecida

domingo, 9 de junho de 2013

A chegada de Mercúrio

Acendes espelhos por onde passo
e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes, fogueiras, viagens
tudo me trazes nos dias em que ancoras
tua ventania nos meus braços



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A paixão no espelho

                                                              Paul Delvaux




É como se eu cantasse sozinha dentro de uma gruta
e uma matéria nua me cercasse

Dentro em pouco serei uma mulher
de cabelos mais longos
estilhaços de alegria me atingindo por todos os lados
meus olhos, habitualmente pretos,
ficarão mais pretos ainda
Uma vontade sem medo de enfrentar os que chegam
e abençoar os que partem

É como se eu dançasse sozinha numa rua escura
e beijasse Lázaro
e me entregasse às feras
e aprendesse a dormir com as tempestades

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

As Vestes


TRAMAS  :  Recital de música e poesia com autores variados. Casa da Ribeira, Julho de 2012, Natal-RN. Interpretação teatral de Clotilde Tavares,  canções na voz de Heliana Pinheiro  e guitarra de Joca Costa.

domingo, 18 de março de 2012

A menina fantasma do internato

Diante das coisas mais óbvias
estanco
como se fossem abismos
Não aprendi a dar os passos decisivos
Tenho desejado corredores longos na penumbra
como nos antigos colégios
É noite, escuro
lá fora os fios da cidade não me alcançam
nem as profissões, nem o futuro
Quero ficar no colégio eterna interna
feito uma menina morta aos treze anos
feito Laura Vicunha, feito as velhas madres
Quero ficar guardada nos retratos para sempre
E com meu corpo de vento
descer e subir escadas
brincar no jardim
E à noite
quando todos partem
e as freiras dormem
ter um colégio
e um mundo todo para mim


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cais

                                                                    Ken Wong




Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro





sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Rito de Carmem

                                                                     Oriol Jolonch

Ela é uma forma de alucinação
de hino ao perigo
e ao furor
Perfuma-se com um poema
e se apronta
como quem vai ao cinema

Parece que não há riscos
em tudo que ela faz
mas ela acorda e dorme
sitiada
Mulher em que se atira facas
ela recebe os golpes um a um
Arremessos de perda, luxúria, ciúme

No centro do picadeiro
um homem de olhos vendados
ameaça matá-la
todas as noites
diante dos aplausos inocentes