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domingo, 9 de junho de 2013

A chegada de Mercúrio

Acendes espelhos por onde passo
e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes, fogueiras, viagens
tudo me trazes nos dias em que ancoras
tua ventania nos meus braços



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Oráculo

                              
O pássaro no seu voo encontrará o infortúnio
Será ferido por um raio
seu coração de ave trespassado
por setas de ilusão e de beleza
Querendo o temível
e o transgressivo
o pássaro assim tão desmedido
poderá espatifar-se no rochedo
ou despencar no mar
atordoado
no voo proibido do desejo

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A paixão no espelho

                                                              Paul Delvaux




É como se eu cantasse sozinha dentro de uma gruta
e uma matéria nua me cercasse

Dentro em pouco serei uma mulher
de cabelos mais longos
estilhaços de alegria me atingindo por todos os lados
meus olhos, habitualmente pretos,
ficarão mais pretos ainda
Uma vontade sem medo de enfrentar os que chegam
e abençoar os que partem

É como se eu dançasse sozinha numa rua escura
e beijasse Lázaro
e me entregasse às feras
e aprendesse a dormir com as tempestades

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Baía Formosa

A mulher doida me aponta a faca
e me fala
Me chamem da pior rapariga mas
não me chamem de tira-gosto
O burro pertinho comia melancias
Não sei por onde começar essa mulher
com saia vermelha e vassoura
Viver não tem início
A mulher escreve o nome na areia
é Anelita é doida
Estamos no alto da duna
Eu e a doida
eu que também sou Anelita agora e tanto
pois que o mar que nos cerca nos ajunta
Estamos dentro da onda
Eu e Anelita
Ela com sua faca, eu com aquele chapéu da Bolívia
Eu e ela emboloadas
Eu e ela vamos ser queimadas juntas?
A lâmina de sua faca e a lhama do meu chapéu?
Ninguém viu
Nós não rimos, mas no fundo rimos
a mulher doida e eu
a doida e a moça descompassadas
Rimos assim dos nossos rumos incertos
dos remos que nós não temos
para atravessar essa baía tão vasta
Rimos dos nossos crimes
enquanto o sol ia arder do outro lado do mundo
enquanto o menino veio e levou o burro
nós ficamos ali amedrontadas e francas
Há um silêncio nas ruas,
Anelita doida,
um silêncio como a falta de dentes em tua boca
eu vi meninas brincando
fingindo que um bolo de barro
era um bolo de aniversário
vi sacos de carvão empilhados
e pombos no telhado
E tu, Anelita, és mera como isso tudo
e apaixonante como essa chuva
à noitinha
molhando as hortas
Este foi o encontro da mulher doida e eu
sobre a duna
era novembro em Baía Formosa
eu e Anelita, para sempre juntas

sábado, 13 de outubro de 2012

Luísa




                                                                       Combone
                                      

Não sou precisa
nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
Não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Arthur Bispo do Rosário

                                                                                                                  
                                                                         a João Marcelino




Me prendam que estou
me transformando
em rei em verso em canto
Que venham as virgens em cardumes
Que venham moinhos e gigantes
Por onde passo as coisas
hesitam por seus nomes
tal a minha fúria
Vestem-me de louco
mas sou apenas
um arquiteto de retalhos

Enquanto outros acendem
lampiões   estradas   pontes
acendo reinos  dulcineias  cartas
Bordo delírios em panos
De tudo que acho perdido
teço um manto e um sonho
Chamam-me de louco
Quem venham as virgens em cardumes
Sou apenas
um arquiteto de miragens

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

As Vestes


TRAMAS  :  Recital de música e poesia com autores variados. Casa da Ribeira, Julho de 2012, Natal-RN. Interpretação teatral de Clotilde Tavares,  canções na voz de Heliana Pinheiro  e guitarra de Joca Costa.

sábado, 19 de maio de 2012

O Horto

Juazeiro, Juazeiro
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
imagens estilhaçadas
cacos de virgem Maria
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Poeta perdendo a prece

Que poderá o poema nesta noite pouca
em que muito frágil e antiga
tento em vão cobrir-me com uma túnica?

Que poderá o poema contra o frio
contra a nudez batendo sobre as coisas
e minha cara refletida sobre o vidro?

Que poderá ainda
contra o rigor habitual dos edifícios
contra pequenos abismos e misérias

Que poderá contra meu ódio
contra minha inveja
e a manhã que virá com luz fortíssima?

domingo, 18 de março de 2012

A menina fantasma do internato

Diante das coisas mais óbvias
estanco
como se fossem abismos
Não aprendi a dar os passos decisivos
Tenho desejado corredores longos na penumbra
como nos antigos colégios
É noite, escuro
lá fora os fios da cidade não me alcançam
nem as profissões, nem o futuro
Quero ficar no colégio eterna interna
feito uma menina morta aos treze anos
feito Laura Vicunha, feito as velhas madres
Quero ficar guardada nos retratos para sempre
E com meu corpo de vento
descer e subir escadas
brincar no jardim
E à noite
quando todos partem
e as freiras dormem
ter um colégio
e um mundo todo para mim


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cais

                                                                    Ken Wong




Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro