quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cidade submersa

Uma cidade submersa
amores submersos
uma luz marinha guiando
minha busca

o musgo tomou conta
das casas naufragadas

Entre polvos e arraias
nado e sonho
com a cidade que perdi

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Semente

A noite desce sobre mim
e me expele violentamente
não para um mundo de senhores calmos
não para pedras e cordeiros apascentados
mas para saltos rituais macabros
fortes gritos de mulher
partos gozos

A noite me atravessa
me arremessa,draga
enquanto uma delicada fera
me toma pelas mãos
para uma valsa

domingo, 1 de maio de 2011

O pedido da fonte

Se sabes que sou uma fonte
bebe logo dessa água

Tenho sede que me bebas
tenho sede que me leves

Na taça da tua boca
nos rumos da tua vida

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Horto

Juazeiro, Juazeiro,
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
Imagens estilhaçadas
cacos de virgens Marias
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
estilhaços de uma guerra
Mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Medusa

Deslizo entre tuas mãos
como um barco noturno
entre ilhas

Te apareço em sonhos
sangrando como uma ninfa
Na sombra do esquecimento
em que me alojaste
tornei-me um bicho que vive

Uma luz esquisita emana
de meus cabelos e te atormenta

Ofereço serpentes
e te assusto

Espelho o medo que sentes
do que não podes tocar
do que não podes possuir
do que a vida é pequena demais
para alcançar

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tear

Luta contra o silêncio
são os tecidos que vestes
o murmúrio dos teus passos
o taconeado dos sapatos

Luta contra a treva
são teus acenos, teu jeito ameno
de tomar chá à tarde

O passeio à padaria
onde buscas o pão
para mais um dia

em que iluminas
o mundo que pisas

sábado, 26 de março de 2011

Dioniso diante de Apolo

Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne

Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo

Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?

Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível

Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos

terça-feira, 8 de março de 2011

Oração

Agradeço esse dia e todas as suas sombras
e o que me tocou como foice
e a face delicada que mostrei

Agradeço esse dia e todas as suas marcas
e o que ficou na encosta e o que restou nos olhos

Agradeço essa febre
o riso que espelhei sobre as águas
a beleza que busquei
e a vida que desejei com tanta força

domingo, 6 de março de 2011

Lance de dardos

Como se fossem de mármore
os dardos duram dentro de mim
perfeitos
E aprendi com eles a lançar-me
e aprendi com eles a ter medo
a me esconder dos nomes
fugir das luzes fortes
e da insensatez dos automóveis
Aprendi com os dardos
uma espécie de vida iluminada
uma sutileza para arremessos
estratégias de ataque
fugas
um modo impecável de me abrigar da chuva
E aprendi também uma crueldade
e uma coragem toda feita de começos

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Penélope



Se me chegasses no fim desta tarde
eu queria ser outra
não essa estranha que sou em meio à chuva

Se me pudesses ver no fim da tarde
eu fugiria
com medo que minha tristeza te assustasse

Se soubesses o que passo
eu diria: não é verdade

Iria encontrar um jeito de enganar-te
e disfarçar-me

Mas jamais, jamais
deixaria que me visses
sem que a fascinação me abençoasse

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Anúncio de Antiquário

Aceito toda forma de dor
Guardo os cacos, os fracassos
Coleciono toda espécie de trapo
baús, lustres, quadros
bibelôs despedaçados

Até navios desaparecidos
guardo

Aceito cores de todos os retalhos
todas as roupas vividas
chapéus de gente antiga
relógios, violas, rádios

E os desejos perdidos
debaixo dos guarda-chuvas
risos que ficaram presos
dentro dos portarretratos

Aceito o que foi pisado
mutilado, abandonado
Aceito, como um oceano,
toda forma de naufrágio

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Canção da mulher que virou barco

Transgrido tantas leis
que já nem sinto
Entro em um mar de águas-vivas
que ardem, ardem, ardem
mas nem doem
parece que me alisam
com seus pelos frágeis

Cada vez me afoito mais
e não encontro margens
e não encontro porto
só encontro tempestades
onde atracar

Nesse excesso de sal
nesse mar escuro em que me perco
me iluminas com o teu desejo
me serves de farol quando anoiteço
e me guias me guias me guias
jorrando tua luz
sobre meus seios

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Chafariz

Parece que saí de algum sonho, de alguma caverna
de algum lugar inóspito e aquecido
Imobilizado feito os corpos de Pompeia
virei uma estátua de cinza

Sou uma miragem entre os edifícios
mas tenho a realidade dos fantasmas
a errância dos bardos
a necessidade dos mendigos

Minha imobilidade é um artifício

A todo tempo oscilo
entre a inércia do meu corpo
e a fluidez do rio que abrigo

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pequeno ensaio sobre dobras

                                                                    " Mulher é desdobrável, eu sou."
                                                                          Adélia Prado


Não mexo mais em feridas
Quero as dobras
das ondas, dos panos, dos calcários

Deixo lençóis fechados  no armário
Em vez de armas e espinhos,
guardei as dobras nos jarros

Em vez de farpas guerreiras,
desdobramentos delicados
transbordam por todos os lados                  




Poema publicado no livro " Um olhar para os detalhes". Org.da poeta e professora Maria Dolores Wanderley. Rio de Janeiro: Editora Interciência e Petrobras, 2010.p 67                                                  

O afogado

As mãos apertadas
os lábios roxos
o corpo declinando aos poucos

Agora um lago imenso me aguarda
e rogo aos deuses dessas águas
que não me deixem perder
o intenso encanto dos funâmbulos e das fadas

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Destino

Matei o gato, mamãe, matei o gato
mas o gato, mamãe, não morreu
passou o resto da vida
atravessando a sala
ensanguentado
Dona Chica não se espantou
e disse em tom muito sábio:
Esse bicho, Marília, não morre nunca
ou você foge ou finge suportá-lo

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Diana

Ele sabe os tons de esmalte que ela usa
os brincos e joias que ela tem
brincos de ouro fosco e círios raros
colar amarelo fervido em pérolas

Ele sabe por onde ela prende seus cabelos
escritos em todas as partes
Cabelos mais longos que as folhas da palmeira
longa cabeleira, juízo curto

Mas ela curte tanto ter juízo
curte os cabelos curtos dos homens que ama
curte paixões que alucinam
as paixões que fogem e voltam

Sacerdotisa de Tupã
abençoa tudo com licor
Lábios de mel para esse mundo às vezes sem cores e tão cru

Ele sabe os tons de esmalte que ela usa
por onde ela acende suas chamas
e os medos e coragens que ela tem

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vestidos

Os vestidos eram longos demais
estendidos no presídio
impossíveis, altos, inatingíveis
encasulados nas janelas do edifício
nunca os alcançaria

Mas o sol, esse sim, visível, possível,
estende seu reino
Luz que atinge os ossos, os pulmões, as veias
Clareza através da qual tudo se lava:
ruas, risos, palavras

sábado, 22 de janeiro de 2011

Dr. Fausto

                                            " Filosofia, leis e medicina
                                              Tudo, tudo estudei com vivo empenho!  
                                               Mas conheço que nada nós sabemos!
                                              (...)Por isso me entreguei todo à magia..."
                               Fausto, Goethe

Enigma que tento adivinhar com meu nariz e tranças
Vejo frascos de tinta sobre os livros
Sinto o cheiro do fogo
e a polidez dos seus gestos contra minha histeria

Meu desejo: nuvens fortes, temporais,
sandálias muito frágeis
para pisar esse chão de chumbo

Tento o equilíbrio da fantasia
contra essa realidade fria

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Estação

Grama que nasce em ferrovias que já terminaram
entre os trilhos e os dormentes
meu uivo instalo
Penso em trens grávidos de grãos
sitiando minha casa
Vidraças e cortinas se abrindo
para que eu possa envolvê-los
com minha força e dança
com minhas finas mãos