sábado, 17 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Calipso
Luís Phillipe. ArtRio,2011
Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias
Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo
Mas uma frágil canoa
foi mais forte
Eu conhecia feitiço, gozo, beleza
Nada que impedisse
um homem de um regresso
Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas
E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda
Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias
Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo
Mas uma frágil canoa
foi mais forte
Eu conhecia feitiço, gozo, beleza
Nada que impedisse
um homem de um regresso
Virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas
E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Retratos dos ancestrais
Não idolatro rostos que abandonam
Deixarei que partam
Encherei um navio de emigrantes
os que negaram, os que fugiram
os que sufocaram e calaram
Todos, todos convocados
para o navio fantasma
Todos, todos vão embora
Velhos desde o império
Gordos homens sobre cavalos
e mulheres muito tristes
Odeio loucamente essa parede
onde eles jazem
Muros contra minha liberdade
Deixarei que partam
Encherei um navio de emigrantes
os que negaram, os que fugiram
os que sufocaram e calaram
Todos, todos convocados
para o navio fantasma
Todos, todos vão embora
Velhos desde o império
Gordos homens sobre cavalos
e mulheres muito tristes
Odeio loucamente essa parede
onde eles jazem
Muros contra minha liberdade
domingo, 21 de agosto de 2011
Invasão ibérica
A Espanha e seus campos de girassóis
suas oliveiras, seus rios
seus árabes e catedrais
aportaram em mim e te querem
Todas as forças de sua arquitetura
suas casas mediterrâneas, suas torres medievais
as touradas sangrentas de Sevilha
os ciganos incríveis de Granada
Por todo lado essa prece:
O meu amor é esse país inteiro te esperando
suas oliveiras, seus rios
seus árabes e catedrais
aportaram em mim e te querem
Todas as forças de sua arquitetura
suas casas mediterrâneas, suas torres medievais
as touradas sangrentas de Sevilha
os ciganos incríveis de Granada
Por todo lado essa prece:
O meu amor é esse país inteiro te esperando
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Burka
Cecília Costa, ArtRio/2011
Essa estrangeira sem nome, sem rosto, sem riso
disfarça, mas me olha, de dentro do seu abismo
Ela viaja comigo: sombra calada, monja
meio fantasma, meio ferida
Sobrevivente de nada, queimada, ardida
Sob véus calcada, sob véus contida
Me prendendo também
em sua cripta
Essa estrangeira sem nome, sem rosto, sem riso
disfarça, mas me olha, de dentro do seu abismo
Ela viaja comigo: sombra calada, monja
meio fantasma, meio ferida
Sobrevivente de nada, queimada, ardida
Sob véus calcada, sob véus contida
Me prendendo também
em sua cripta
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
Oráculo
O pássaro no seu voo encontrará o infortúnio
Será ferido por um raio
seu coração de ave trespassado
por setas de ilusão e de beleza
Querendo o temível
e o transgressivo
o pássaro assim tão desmedido
poderá espatifar-se no rochedo
ou despencar no mar
atordoado
no voo proibido do desejo
Será ferido por um raio
seu coração de ave trespassado
por setas de ilusão e de beleza
Querendo o temível
e o transgressivo
o pássaro assim tão desmedido
poderá espatifar-se no rochedo
ou despencar no mar
atordoado
no voo proibido do desejo
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Canção de brisa e espanto
Ninguém conseguiu segurar tua vida,
menina vestida de bailarina.
Desenhos fortes nos olhos
Cabelos pretos demais,
erguidos para o alto,
góticos.
Nenhuma mão nem voz humana
conseguiu reter tuas canções
de brisa e espanto.
E não gostavas do odor dos peixes mortos
e estavas a esquecer as letras dos teus blues.
Não querias que fosse exatamente assim
mas era.
Era teu retorno de Saturno:
Te encantaste.
E seduzida pelo teu encanto,
eu canto
menina vestida de bailarina.
Desenhos fortes nos olhos
Cabelos pretos demais,
erguidos para o alto,
góticos.
Nenhuma mão nem voz humana
conseguiu reter tuas canções
de brisa e espanto.
E não gostavas do odor dos peixes mortos
e estavas a esquecer as letras dos teus blues.
Não querias que fosse exatamente assim
mas era.
Era teu retorno de Saturno:
Te encantaste.
E seduzida pelo teu encanto,
eu canto
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Arthur Bispo do Rosário
( Poema dedicado a João Marcelino)
Me prendam que estou
me transformando
em rei em verso em canto
Que venham as virgens em cardumes
Que venham moinhos e gigantes
Por onde passo as coisas
hesitam por seus nomes
tal a minha fúria
Vestem-me de louco
mas sou apenas
um arquiteto de retalhos
Enquanto outros acendem
lampiões estradas pontes
acendo reinos dulcinéias cartas
Bordo delírios em panos
De tudo que acho perdido
teço um manto e um sonho
Chamam-me de louco
Que venham as virgens em cardumes
Sou apenas
um arquiteto de miragens
Me prendam que estou
me transformando
em rei em verso em canto
Que venham as virgens em cardumes
Que venham moinhos e gigantes
Por onde passo as coisas
hesitam por seus nomes
tal a minha fúria
Vestem-me de louco
mas sou apenas
um arquiteto de retalhos
Enquanto outros acendem
lampiões estradas pontes
acendo reinos dulcinéias cartas
Bordo delírios em panos
De tudo que acho perdido
teço um manto e um sonho
Chamam-me de louco
Que venham as virgens em cardumes
Sou apenas
um arquiteto de miragens
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Sala de visitas
Essas fotografias esticadas com zelo
atadas umas às outras
na banca de revistas
ou penduradas com pregos em nossa casa
são máscaras, fios, arcas
paredes descascadas
onde buscamos espelhos, marcas
rochedos onde aninhar as águias
E como todos posam assim sempre sorrindo
tem-se a impressão
falsa e às vezes quase intacta
de que ninguém está feroz nem triste
e de que nesse reino de retratos
não há mágoas
atadas umas às outras
na banca de revistas
ou penduradas com pregos em nossa casa
são máscaras, fios, arcas
paredes descascadas
onde buscamos espelhos, marcas
rochedos onde aninhar as águias
E como todos posam assim sempre sorrindo
tem-se a impressão
falsa e às vezes quase intacta
de que ninguém está feroz nem triste
e de que nesse reino de retratos
não há mágoas
sábado, 9 de julho de 2011
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Grafite
Banksy
Preciso cobrir com gestos essas ruas
pintar, escavar, tornear
abrandar as paredes do meu jeito
Preciso dizer-lhes algo
assaltá-las
transformar o que sobra
traduzir as sombras em desejos
Preciso cobrir com gestos essas ruas
pintar, escavar, tornear
abrandar as paredes do meu jeito
Preciso dizer-lhes algo
assaltá-las
transformar o que sobra
traduzir as sombras em desejos
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Ariadne
I
Foi exatamente isso que ela fez
Fugiu com o trapezista do circo
Largou terras, pratarias,
todos os bens da família
todos os deveres leais
Por isso agora vive numa tenda
e é errante, fumante, amante
pobre, pobre, pobre de marré, marré marré
e rica, rica, rica de muitas marés
Mas quem te ancora, mulher,
quando o vendaval vem solto sobre as águas?
Quem pode te proteger?
Foi nisso que deu
Quem mandou fugir com o trapezista de circo, menina?
E a moça fugitiva canta tentando esquecer:
Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré
e sou rica, rica, rica de muitas marés
II
Mas quem disse que o trapezista de circo
queria mesmo essa moça de família, seda e mimos?
Quem disse que não era mais uma forma de poder?
De querer vencer os ares e desafiar os lares?
Exibi-la pelos bares
como conquista circense
bicho doméstico domado
pela força de mil artes?
Que será dessa mocinha na mão desse saltimbanco?
Será que será trapezista
ou lavará o chão que ele pisa?
O restante dessa estória
só o destino vai dizer
III
Alguém por aí versado em mitologia
pode até dar um palpite:
Talvez seja um destino de Ariadne,
largada por Teseu,
resgatada por Dioniso...
Mas pode ser que não seja
e para dizer a verdade
talvez essa Ariadne
não queira nem circo, nem pátria
talvez ela mesma se salve
Isso só o diabo sabe
Foi exatamente isso que ela fez
Fugiu com o trapezista do circo
Largou terras, pratarias,
todos os bens da família
todos os deveres leais
Por isso agora vive numa tenda
e é errante, fumante, amante
pobre, pobre, pobre de marré, marré marré
e rica, rica, rica de muitas marés
Mas quem te ancora, mulher,
quando o vendaval vem solto sobre as águas?
Quem pode te proteger?
Foi nisso que deu
Quem mandou fugir com o trapezista de circo, menina?
E a moça fugitiva canta tentando esquecer:
Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré
e sou rica, rica, rica de muitas marés
II
Mas quem disse que o trapezista de circo
queria mesmo essa moça de família, seda e mimos?
Quem disse que não era mais uma forma de poder?
De querer vencer os ares e desafiar os lares?
Exibi-la pelos bares
como conquista circense
bicho doméstico domado
pela força de mil artes?
Que será dessa mocinha na mão desse saltimbanco?
Será que será trapezista
ou lavará o chão que ele pisa?
O restante dessa estória
só o destino vai dizer
III
Alguém por aí versado em mitologia
pode até dar um palpite:
Talvez seja um destino de Ariadne,
largada por Teseu,
resgatada por Dioniso...
Mas pode ser que não seja
e para dizer a verdade
talvez essa Ariadne
não queira nem circo, nem pátria
talvez ela mesma se salve
Isso só o diabo sabe
sexta-feira, 1 de julho de 2011
A musa
“Uma predisposição musical
antecede em mim a palavra poética.”
Schiller
Posso ouvi-la com voz de demônio ou deusa
em canções de desespero ou leve melancolia
Posso ouvi-la do alambrado das casas
da zona portuária ou de montanhas bem altas
Ouso guardá-la em meu desassossego
dentro dos espelhos
no que restou nos cinzeiros
dos amores que tive e queimei
Meus pulmões em brasa precisam do seu ar
Só por ela respiro
por ela entro nas águas
Fico boa de tudo e nunca mais vou tossir
Por ela invento bruxedos
Faço fogo, amor e guerra
Largo todos os meus vícios
Troco todos os meus reinos
antecede em mim a palavra poética.”
Schiller
Posso ouvi-la com voz de demônio ou deusa
em canções de desespero ou leve melancolia
Posso ouvi-la do alambrado das casas
da zona portuária ou de montanhas bem altas
Ouso guardá-la em meu desassossego
dentro dos espelhos
no que restou nos cinzeiros
dos amores que tive e queimei
Meus pulmões em brasa precisam do seu ar
Só por ela respiro
por ela entro nas águas
Fico boa de tudo e nunca mais vou tossir
Por ela invento bruxedos
Faço fogo, amor e guerra
Largo todos os meus vícios
Troco todos os meus reinos
terça-feira, 28 de junho de 2011
Morro da Conceição
Travessa do Sereno
Rua do Jogo da Bola
São Francisco da Prainha
Esses nomes me queimam
Rumor que amanhece cedo
e nunca deixa de arder
Os nomes das padarias,
mercearias, lavanderias
Nomes dos becos e pretos
Estrelas que avançam soltas
contra minha boca
Casas apinhadas
onde as mulheres oxigenadas
cercam a estátua de Camões
E a língua lusitana,
no doce gozo da tarde brasileira,
não deixa mais nada doer
Rua do Jogo da Bola
São Francisco da Prainha
Esses nomes me queimam
Rumor que amanhece cedo
e nunca deixa de arder
Os nomes das padarias,
mercearias, lavanderias
Nomes dos becos e pretos
Estrelas que avançam soltas
contra minha boca
Casas apinhadas
onde as mulheres oxigenadas
cercam a estátua de Camões
E a língua lusitana,
no doce gozo da tarde brasileira,
não deixa mais nada doer
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Chicletes de hortelã
Um porto faiscando em teus cabelos
Tua alegria inteira vindo para mim
mascando chicletes de hortelã
Com o céu da boca estrelado
me feres, me cuidas, me envenenas
e o cheiro forte que incensas
incendeia tudo e parte
Mas me voltas como mulher
mais uma vez
Terna música que escuto
Ritmo, verso, foice
com que arranco raízes
e canto
Tua alegria inteira vindo para mim
mascando chicletes de hortelã
Com o céu da boca estrelado
me feres, me cuidas, me envenenas
e o cheiro forte que incensas
incendeia tudo e parte
Mas me voltas como mulher
mais uma vez
Terna música que escuto
Ritmo, verso, foice
com que arranco raízes
e canto
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Beatriz
Como se me preparasse para a festa
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia
Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste
Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim
E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia
Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste
Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim
E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade
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