TRAMAS : Recital de música e poesia com autores variados. Casa da Ribeira, Julho de 2012, Natal-RN. Interpretação teatral de Clotilde Tavares, canções na voz de Heliana Pinheiro e guitarra de Joca Costa.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
As Vestes
TRAMAS : Recital de música e poesia com autores variados. Casa da Ribeira, Julho de 2012, Natal-RN. Interpretação teatral de Clotilde Tavares, canções na voz de Heliana Pinheiro e guitarra de Joca Costa.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Prisões
Antes eu era o incêndio
agora faço seguro contra fogo
contra roubos
Eu mesma era furacão
eu mesma roubava
agora apaziguo tudo e tranco
Antes eu era as perdas
agora sou vista pelo bairro, precavida,
comprando cadeados sob medida
agora faço seguro contra fogo
contra roubos
Eu mesma era furacão
eu mesma roubava
agora apaziguo tudo e tranco
Antes eu era as perdas
agora sou vista pelo bairro, precavida,
comprando cadeados sob medida
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Vestuário de Sísifo
Nino Cais
estou repetindo as roupas
como se fossem farda
como se fossem fardo
estou refazendo a família
o álbum de atos ratos
e retratos
e todos os demais
hábitos e fracassos
estou repetindo as roupas
como se fossem farda
como se fossem fardo
estou refazendo a família
o álbum de atos ratos
e retratos
e todos os demais
hábitos e fracassos
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Amar, verbo atemporal
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sábado, 8 de setembro de 2012
Corveta
Bispo do Rosário (Veleiro)
para Arthur Bispo do Rosário
No estaleiro
consertando presságios,
crianças guardadas e briquedos,
estacionei com âncoras e garras
pousei com ossos frágeis, radiografias
plumas inchadas pela chuva
esperando voltar aos mares
sanguíneo
voraz
refeito de todo dano
respirando de novo pelos panos
para Arthur Bispo do Rosário
No estaleiro
consertando presságios,
crianças guardadas e briquedos,
estacionei com âncoras e garras
pousei com ossos frágeis, radiografias
plumas inchadas pela chuva
esperando voltar aos mares
sanguíneo
voraz
refeito de todo dano
respirando de novo pelos panos
domingo, 2 de setembro de 2012
paixão no muro
domingo, 22 de julho de 2012
hidráulicos
a infiltração no gesso
gota a gota no ritmo
sossegado do peito
sangue cristalino
se esvaindo no corredor
a vida transbordando de tal jeito
que nem os canos de ferro, os cadeados
gavetas, armários
nem chaves nem senhas
poderão voltar a rasgar
eis-nos todos infiltrados
enredados
ligados de tal forma
que nenhuma tesoura ou navio
voltará a trancar nem desatar
sábado, 21 de julho de 2012
mosaico de roupas, cores e forças
Se sairmos bem cedo de bicicleta, enquanto o trânsito da cidade do Rio de Janeiro está mais ameno, podemos nos deparar com uma indagação artística a céu aberto. Flanar pelo Rio hoje é dialogar com essas imagens que estão por vários bairros da cidade, pela Av. Presidente Vargas, pela Lapa, pela Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Pedra do Sal, Tijuca, Andaraí, Grajaú, Morro dos prazeres, Morro da Providência. Nenhum lugar popular ou de elite está imune a esse febre das cores e formas que está sendo trazida para a cidade. Saindo de bicicleta, de metrô, de trem, de ônibus, de carro, pessoas com suas mochilas e escadas, seus bonés para enfrentar a luz forte do dia, ou munidos de sua própria luz , para dialogar com a noite e com a chuva, estão humanizando as paredes, desvirginando os muros, lutando contra a pureza de um mundo sem cor debaixo dos viadutos, em tapumes, em barcos vivos ou destinados ao cemitério de navios, casas e prédios previstos para a demolição, pintando as ruínas, os restos, o que ainda há no porto, o que ainda pode haver de vida numa cidade que rebeldemente não quer se submeter ao choque de ordem do imperialismo capitalista com seus prédios vitrificados e metálicos, organizados, administrados, mas sem vida, sem imprevisibilidade, sem o risco da beleza marcadamente humana, lírica, das figuras e rostos de mulheres e homens que habitam nosso cenário visual atual.
No processo de criação, a arte é interpelada pelos habitantes, uns acham maneiro, outros querem denunciar à polícia ou a quem quer que seja aquilo que, na cabeça deles, não deveria estar ali. Uns se sentem os donos do espaço público e fazem cara feia, outros param e contemplam como crianças, sempre dispostas ao lúdico e ao inesperado, fazem sugestões e interagem, pedem coisas, conversam, contam suas vidas, querem que pintem também suas caixas-de-água, suas casas, seus traillers de cachorro quente. Momento em que o artista dialoga autenticamente com seus espectadores e com o ambiente porque às vezes há lixo, há lama, há esgoto por perto e a mania de limpeza contemporânea , bem representada pelo símbolo do álcool gel, não pode entender o que é isso.
A história da arte na rua, nas praças, nas cavernas, nos vasos antigos, em lugares permitidos ou não permitidos, ganhou definitivamente muros que não são mais puros nem submissos à arquitetura vitrificada, limpa e padronizada dos prédios urbanos. Por toda parte pode se ver rostos e corpos pintados de homens e mulheres, formas híbridas, mosaico de roupas, cores e forças. Como se a cidade estivesse se vestindo com outros trajes, como se as roupas que nos envernizam e cobrem nossa condição humana, demasiado humana, tivessem explodido em varais, em tecidos, homens com formas longilíneas e inusitadas mostrando que as possibilidades de um corpo são múltiplas e não se restringem às formas banais da realidade. Espaço virtual onde sambistas, ídolos, pessoas comuns são desenhadas para se reconhecerem em seu próprio bairro, em seu próprio lugar, para ganhar com seu rosto na parede uma nova raiz, um novo teto sob o céu livre, uma nova morada.
Pode ser a própria alegria e o grito de angústia da condição humana que esteja por trás de um tão intenso movimento, de uma tão colorida febre e imprevisibilidade.Como dizem, a arte aumenta o mundo , potencializa o mundo, provoca transbordamentos e cria sempre novas possibilidades, abre caminhos, inicia árvores, cria pontes.
Cores, roupas inéditas e tintas, sejam cada vez mais bem-vindas.
domingo, 17 de junho de 2012
pequena prece das esculturas ao seu autor
Rodin
podemos ser de carvão
lâminas de gelo ou gesso
a qualquer hora
desfeitos pela mágoa
mas buscando o que não passa
nossas bocas de febre e rito
aterrissam em tuas mãos
e na inquietude do mármore
com hálito de punhal
nos salvas
podemos ser de carvão
lâminas de gelo ou gesso
a qualquer hora
desfeitos pela mágoa
mas buscando o que não passa
nossas bocas de febre e rito
aterrissam em tuas mãos
e na inquietude do mármore
com hálito de punhal
nos salvas
segunda-feira, 28 de maio de 2012
atlas
John Singer Sargent
elevadores atlas nas cidades do sul
sustentam o mundo
as pessoas e seus sustos
erva mate madrugada pastoreio
tertúlia
pé sujo com ana júlia
trocando o salto alto com o baixo
pousando na rua da praia com sabrina
no fumódromo sem fumar
essa ave de estrela
compactuando e dividindo
batata frita com picanha
noite de quinta-feira
mulheres livres e tais
que as sombras de Mário Quintana
e seu fantasma
não assombram mais
elevadores atlas nas cidades do sul
sustentam o mundo
as pessoas e seus sustos
erva mate madrugada pastoreio
tertúlia
pé sujo com ana júlia
trocando o salto alto com o baixo
pousando na rua da praia com sabrina
no fumódromo sem fumar
essa ave de estrela
compactuando e dividindo
batata frita com picanha
noite de quinta-feira
mulheres livres e tais
que as sombras de Mário Quintana
e seu fantasma
não assombram mais
sábado, 19 de maio de 2012
O Horto
Juazeiro, Juazeiro
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
imagens estilhaçadas
cacos de virgem Maria
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
imagens estilhaçadas
cacos de virgem Maria
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Poeta perdendo a prece
Que poderá o poema nesta noite pouca
em que muito frágil e antiga
tento em vão cobrir-me com uma túnica?
Que poderá o poema contra o frio
contra a nudez batendo sobre as coisas
e minha cara refletida sobre o vidro?
Que poderá ainda
contra o rigor habitual dos edifícios
contra pequenos abismos e misérias
Que poderá contra meu ódio
contra minha inveja
e a manhã que virá com luz fortíssima?
em que muito frágil e antiga
tento em vão cobrir-me com uma túnica?
Que poderá o poema contra o frio
contra a nudez batendo sobre as coisas
e minha cara refletida sobre o vidro?
Que poderá ainda
contra o rigor habitual dos edifícios
contra pequenos abismos e misérias
Que poderá contra meu ódio
contra minha inveja
e a manhã que virá com luz fortíssima?
terça-feira, 17 de abril de 2012
Pisciana
Ainda hoje o rádio alto da vizinhança no pátio
crimes soterrados sob a enxurrada de notícias
quebram-se arcos
alçam-se escarpas
e escamas mansas, temerárias, mudas
fazem com que nades e sobrevivas
maquiada e calma
peixe-mulher
solta livre obstinada
bem no meio da Avenida Paulista
domingo, 1 de abril de 2012
A casa
Bosch
Até os ratos abusam de nossa fraqueza
e começam a empestar a casa
De que vale sufocá-los nos buracos
se a brasa que nos resume é muito mais ligeira
Uma coisa enorme e insana
arrasta sua cauda dentro da gente
Nem os barquinhos de papel resistem
nem bonecos de pano nem peças de dominó
Círculos se fecham uns sob os outros
e ali mesmo se quebram
Bichos e anjos se iniciam por todos os lados
e devoram tudo
Até os ratos abusam de nossa fraqueza
e começam a empestar a casa
De que vale sufocá-los nos buracos
se a brasa que nos resume é muito mais ligeira
Uma coisa enorme e insana
arrasta sua cauda dentro da gente
Nem os barquinhos de papel resistem
nem bonecos de pano nem peças de dominó
Círculos se fecham uns sob os outros
e ali mesmo se quebram
Bichos e anjos se iniciam por todos os lados
e devoram tudo
domingo, 18 de março de 2012
A menina fantasma do internato
Diante das coisas mais óbvias
estanco
como se fossem abismos
Não aprendi a dar os passos decisivos
Tenho desejado corredores longos na penumbra
como nos antigos colégios
É noite, escuro
lá fora os fios da cidade não me alcançam
nem as profissões, nem o futuro
Quero ficar no colégio eterna interna
feito uma menina morta aos treze anos
feito Laura Vicunha, feito as velhas madres
Quero ficar guardada nos retratos para sempre
E com meu corpo de vento
descer e subir escadas
brincar no jardim
E à noite
quando todos partem
e as freiras dormem
ter um colégio
e um mundo todo para mim
estanco
como se fossem abismos
Não aprendi a dar os passos decisivos
Tenho desejado corredores longos na penumbra
como nos antigos colégios
É noite, escuro
lá fora os fios da cidade não me alcançam
nem as profissões, nem o futuro
Quero ficar no colégio eterna interna
feito uma menina morta aos treze anos
feito Laura Vicunha, feito as velhas madres
Quero ficar guardada nos retratos para sempre
E com meu corpo de vento
descer e subir escadas
brincar no jardim
E à noite
quando todos partem
e as freiras dormem
ter um colégio
e um mundo todo para mim
sábado, 3 de março de 2012
Um pomar no escuro
Marco Mazzoni
Marimbondos estalando pelo corpo
cacos de vidro verde sobre o muro
mínimos guardiões desse desejo
de furtar teus frutos
e desabotoar essas paredes,
calhas, luzes, rochedos
que dividem e separam
minhas chamas das tuas
Marimbondos estalando pelo corpo
cacos de vidro verde sobre o muro
mínimos guardiões desse desejo
de furtar teus frutos
e desabotoar essas paredes,
calhas, luzes, rochedos
que dividem e separam
minhas chamas das tuas
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Cais
Ken Wong
Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro
Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro
sábado, 4 de fevereiro de 2012
O Rito de Carmem
Oriol Jolonch
Ela é uma forma de alucinação
de hino ao perigo
e ao furor
Perfuma-se com um poema
e se apronta
como quem vai ao cinema
Parece que não há riscos
em tudo que ela faz
mas ela acorda e dorme
sitiada
Mulher em que se atira facas
ela recebe os golpes um a um
Arremessos de perda, luxúria, ciúme
No centro do picadeiro
um homem de olhos vendados
ameaça matá-la
todas as noites
diante dos aplausos inocentes
Ela é uma forma de alucinação
de hino ao perigo
e ao furor
Perfuma-se com um poema
e se apronta
como quem vai ao cinema
Parece que não há riscos
em tudo que ela faz
mas ela acorda e dorme
sitiada
Mulher em que se atira facas
ela recebe os golpes um a um
Arremessos de perda, luxúria, ciúme
No centro do picadeiro
um homem de olhos vendados
ameaça matá-la
todas as noites
diante dos aplausos inocentes
sábado, 7 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Percurso do vento inundando a ilha
Shiori Matsumoto
Primeiro vem por mínimas frestas
baixas e estreitas
e se infiltra sob as portas dos cômodos
O extâse de sua viagem marítima
exala então uma inquietação
de dúvida e festa
Ondulando agora feito lâmina
corta novelos e ares
com que trançávamos
nossa vida calma
Clandestino e livre, o vento vem sem pausa
arrancando cercas, afundando barcas
Fulminados estamos
sob suas marcas
Primeiro vem por mínimas frestas
baixas e estreitas
e se infiltra sob as portas dos cômodos
O extâse de sua viagem marítima
exala então uma inquietação
de dúvida e festa
Ondulando agora feito lâmina
corta novelos e ares
com que trançávamos
nossa vida calma
Clandestino e livre, o vento vem sem pausa
arrancando cercas, afundando barcas
Fulminados estamos
sob suas marcas
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