energia elétrica
fabricante faiscante
marca fêmea
modelo 1970
tipo de degelo fogo
tensão tesão vênus
mais eficiente
amar berrar
criar desejar
menos eficiente
consumir-se sem solidariedade
na energia adotada no clima tropical
220 00 110 wolts
voltas, revoltas, volutas, lutas
muitas volúpias o mundo dá
segunda-feira, 10 de março de 2014
domingo, 9 de março de 2014
cinema mudo
era a primeira vez na vida
que o menino tinha recebido
notícias daquela terra
na guerra fica tudo tão diferente
os trens, os navios,
os trilhos entre as chamas
Ele dizia: Você não acha que essas pontes
já queimaram o bastante?
é tanta fumaça
que a gente nem consegue respirar
e perguntaram ao menino:
mas o que você preferia
se alistar ou não se alistar?
- claro que eu preferia me alistar
como eu aceitaria uma guerra
sem que eu fosse para lá?
que o menino tinha recebido
notícias daquela terra
na guerra fica tudo tão diferente
os trens, os navios,
os trilhos entre as chamas
Ele dizia: Você não acha que essas pontes
já queimaram o bastante?
é tanta fumaça
que a gente nem consegue respirar
e perguntaram ao menino:
mas o que você preferia
se alistar ou não se alistar?
- claro que eu preferia me alistar
como eu aceitaria uma guerra
sem que eu fosse para lá?
sábado, 8 de março de 2014
Luísa
Não sou precisa
nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica
Não sou precisa,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento
nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica
Não sou precisa,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento
sexta-feira, 7 de março de 2014
Descoberta no espelho
Tua pequena varize
se insinuando na perna
fino rio de sangue azul
onde as tristezas navegam
herança de tua avó, de tua bisavó
marca do teu trabalho
do trabalho delas
cicatriz do filho que esperaste
e das escadas que subiste
tua pequena varize
não é doença ou velhice
mas antes sinal de beleza
irmã dos rios, dos navios e da chuva
irmã de todas as coisas
que ultrapassaram limites
se insinuando na perna
fino rio de sangue azul
onde as tristezas navegam
herança de tua avó, de tua bisavó
marca do teu trabalho
do trabalho delas
cicatriz do filho que esperaste
e das escadas que subiste
tua pequena varize
não é doença ou velhice
mas antes sinal de beleza
irmã dos rios, dos navios e da chuva
irmã de todas as coisas
que ultrapassaram limites
quinta-feira, 6 de março de 2014
A equilibrista
Quedas riscos matéria
tudo um jeito de iludir
A um perfume de incêndio
vou entregando meu corpo
deixando para trás edíficios
torres fragas
e todas as ameaças de cair
tudo um jeito de iludir
A um perfume de incêndio
vou entregando meu corpo
deixando para trás edíficios
torres fragas
e todas as ameaças de cair
quarta-feira, 5 de março de 2014
O espantalho
Ao meu redor cresce verde a lavoura
e eu sou de seca palha
Ao meu redor homens se movem e trabalham
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste
Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo
Meus braços estão abertos para o espanto
não para o trabalho ou o abraço
Meu corpo de palha seca
nunca sentiu a volúpia dos bichos
Vivo abismado e só
escancarado sob a luz dos astros
e eu sou de seca palha
Ao meu redor homens se movem e trabalham
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste
Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo
Meus braços estão abertos para o espanto
não para o trabalho ou o abraço
Meu corpo de palha seca
nunca sentiu a volúpia dos bichos
Vivo abismado e só
escancarado sob a luz dos astros
terça-feira, 4 de março de 2014
Oração a São Miguel Arcanjo
Se houver perigo esta noite,
preciso que me abrigues
Não te fies no delicado trato
que tenho com os monstros
Eles mentem
Nós mentimos, todos mentem
Se houver perigo esta noite,
não penses que sou forte
só porque vivo só
e conheço toda a ilha
e domino palavras e com elas
construo armas e escudos
Se houver perigo,
preciso que sejas meu pai,
forte, amigo,
afastando com a espada os inimigos
Preciso que pises sobre o meu terror
como pisarias mansamente
sobre um demônio adormecido
preciso que me abrigues
Não te fies no delicado trato
que tenho com os monstros
Eles mentem
Nós mentimos, todos mentem
Se houver perigo esta noite,
não penses que sou forte
só porque vivo só
e conheço toda a ilha
e domino palavras e com elas
construo armas e escudos
Se houver perigo,
preciso que sejas meu pai,
forte, amigo,
afastando com a espada os inimigos
Preciso que pises sobre o meu terror
como pisarias mansamente
sobre um demônio adormecido
segunda-feira, 3 de março de 2014
Morro da Forca
Minha coragem me deixará leve
suspenso entre olhares abismados
Pela última vez ouço o vento
Basta uma corda, basta um salto
E nunca mais as igrejas
e nunca mais essas ruas
e nunca mais a volúpia do sol
sobre minha carne
Talvez seja só um exílio
uma leveza erguida sobre as pedras
um modo desconhecido de ser pássaro
suspenso entre olhares abismados
Pela última vez ouço o vento
Basta uma corda, basta um salto
E nunca mais as igrejas
e nunca mais essas ruas
e nunca mais a volúpia do sol
sobre minha carne
Talvez seja só um exílio
uma leveza erguida sobre as pedras
um modo desconhecido de ser pássaro
domingo, 2 de março de 2014
Livres reflexões sobre Descartes e viagens
Assim como Sócrates, salvaguardadas as devidas diferenças, Descartes(1596-1650) busca a fundamentação para um saber autenticamente filosófico não entre os homens mais cultos de seu tempo, mas a partir de uma investigação de si mesmo e da conversa com homens e mulheres de múltiplos pontos de vista. Acrescentando à reflexão filosófica o conhecimento vivo de variados costumes, as viagens e a experimentação de si através das circunstâncias que a vida nos coloca. Nesse sentido, após ter estudado em uma das melhores escolas de sua época e de ter acesso a toda a cultura veiculada pelos livros de seu tempo, considerou que, em termos de aquisição de erudição, esses estudos já teriam sido suficientes e que seria preciso, sem negar obviamente a utilidade de uma boa erudição, dar um passo além dela e procurar algo constante e firme nas ciências, constância essa que não tinha encontrado na disputa dos filósofos da época com seus variados discursos a respeito de qualquer tema. Essa é uma das razões mais fortes para que tenha pensado que o caminho dos livros não é o único a ser traçado por quem busca o conhecimento. Nossa razão, no sentido cartesiano, é entendida como algo que pensa, duvida, nega, quer e não quer e é muito mais acessível ao conhecimento que a nossa realidade corporal. É também a faculdade de discernir o verdadeiro do falso. Analogamente ao pensamento socrático, ele pensa que basta julgar bem as coisas para proceder bem. Acrescentemos a isso uma outra afirmação cartesiana, assumida no texto Princípios da filosofia, em que a filosofia é entendida como o conhecimento de todas as coisas que o homem pode saber para a correta condução de sua vida, a conservação da saúde e a invenção de todas as artes...
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Antônio Francisco Lisboa
Mesmo sem querer
vou segurando em sombras
me agarro às adralvas das portas
me apoio na cantaria das casas
Que ando a querer nas torres altas?
Confio meu corpo aos pináculos
Sustento-me em arcos cruzeiros
Com o que resta dos meus braços
modelo a carne dos anjos
Que a ando a buscar nas madrugadas?
Por que insisto em iluminar
a noite desse jeito?
vou segurando em sombras
me agarro às adralvas das portas
me apoio na cantaria das casas
Que ando a querer nas torres altas?
Confio meu corpo aos pináculos
Sustento-me em arcos cruzeiros
Com o que resta dos meus braços
modelo a carne dos anjos
Que a ando a buscar nas madrugadas?
Por que insisto em iluminar
a noite desse jeito?
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Zarabatanas
Ninguém esperava mais
por esses cabelos imensos
por esses olhos de fera
esse meu ar de arco e flecha
Zarabatanas eu faço
com mãos de índio bravo
ponho o curare na ponta
paraliso os ventos errados
e só atraio belos raios
por esses cabelos imensos
por esses olhos de fera
esse meu ar de arco e flecha
Zarabatanas eu faço
com mãos de índio bravo
ponho o curare na ponta
paraliso os ventos errados
e só atraio belos raios
domingo, 23 de fevereiro de 2014
O lobo e a festa
O lobo aluga quartos em nosso corpo, em nossa ordem silenciosa e provisória. Ele se aloja lá como um crustáceo no seio de uma dama. É a estranheza com a qual precisamos conviver. Nossa própria dor, nosso exílio. Somos portadores do lobo, mas precisamos de algum tipo de verniz, por isso precisamos do cenário, mesmo que se ande por aí desastrado. O lobo da estepe se apaixona por sua própria juventude na personagem Hermínia, travestida de homem. Dialoga com o feminino como quem dialoga com o passado, com a festa, com a união que a festa proporciona. A ilusão de não ser solitário.Vai para o baile de máscaras onde todos podem ser quem desejam. Através das máscaras e dos nomes cifrados, muitos corpos se tocam sem se tocar, ou fingem muito bem que não se tocam. O desejo secreto da festa é o desejo do todo. Entre o lobo, a festa e a burguesia estamos atados e encantados. Às vezes malvados, às vezes delicados, fazemos com a vida pactos.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Nietzsche, o lobo da estepe e o burguês
Lembro-me de ter lido pela primeira vez "O Lobo da Estepe", de Hermann Hesse, numa idade da vida em que ainda me sentia uma tenra Chapeuzinho. Muitos e muitos anos depois, o livro está voltando às minhas mãos e aos meus olhos de loba e não sossego com as impressões que me causa. A primeira é a forte influência do estilo de vida de Nietzsche nesse personagem. O hóspede que costuma alugar quartos em quietos e tranquilos lares burgueses, onde ele pode se proteger secretamente do seu ódio contra a burguesia.
Era um estranho que, apesar da intensa experiência solitária e esquisita, precisava de um ar de família para sobreviver, precisava da sua memória, do seu passado, das suas raízes. Hermann Hesse nos diz que “convivemos sempre na burguesia com uma grande multidão de natureza fortes e selvagens”. Penso também no “povo de solitários”, de Cioran.
Nos quartos das casas ou hospedarias sossegadas, encontramos o lobo suspeito.
O hóspede desamparado e sem laços. O lobo que busca conforto no cheiro bom de um lar bem cuidado com os pequenos e delicados hábitos de limpeza e ordem, entre plantas tratadas com esmero e zelo femininos. Lá está o lobo. Não numa toca, não entre criminosos, mas no “pequeno espaço taqueado entre a escada, a janela e a porta de vidro”, fumando seus cigarros, lendo seus livros e já espantado e preocupado com o destino da música depois da invenção do gramofone e do rádio. O lobo selvagem, contrário a tudo, vivendo em meio ao odor da cera do assoalho, entre cortinas e móveis, respirando a “fidelidade às mínimas coisas”.Talvez seja um início. Comecei pelo cenário. Esse doce e desarranjado cenário...
Era um estranho que, apesar da intensa experiência solitária e esquisita, precisava de um ar de família para sobreviver, precisava da sua memória, do seu passado, das suas raízes. Hermann Hesse nos diz que “convivemos sempre na burguesia com uma grande multidão de natureza fortes e selvagens”. Penso também no “povo de solitários”, de Cioran.
Nos quartos das casas ou hospedarias sossegadas, encontramos o lobo suspeito.
O hóspede desamparado e sem laços. O lobo que busca conforto no cheiro bom de um lar bem cuidado com os pequenos e delicados hábitos de limpeza e ordem, entre plantas tratadas com esmero e zelo femininos. Lá está o lobo. Não numa toca, não entre criminosos, mas no “pequeno espaço taqueado entre a escada, a janela e a porta de vidro”, fumando seus cigarros, lendo seus livros e já espantado e preocupado com o destino da música depois da invenção do gramofone e do rádio. O lobo selvagem, contrário a tudo, vivendo em meio ao odor da cera do assoalho, entre cortinas e móveis, respirando a “fidelidade às mínimas coisas”.Talvez seja um início. Comecei pelo cenário. Esse doce e desarranjado cenário...
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Canção de amor para uma moça judia
por um único retrato de louça
que vive no cemitério
entre os túmulos judeus
Morreu em 1936 aos vinte anos de idade
e há sobre a lápide letras em hebraico
que não decifro
Talvez suicídio, talvez outra sorte
De qual morte morreu essa moça judia
que não morre?
De qual vida ela vive naquele retrato
de louça que mais parece de carne
E por que vem assim
semear-me no meio da tarde?
O que te devo, mulher, o que queres?
Viveste na minha cidade
e queres ainda viver por mim, por meus olhos
por minha carne de homem
boca lábios ouvidos
e queres ser uma música
Te vejo em muitas lugares
sempre dentro do retrato
presa e viva, branca e morta
Que queres, mulher,
tanto tempo depois do tempo
em que houve calor para ti no mundo?
Que queres na tua janela de vidro
com o teu corpo de cinzas?
Não me faças desejar-te assim
Tu que não tens mais carne
para o meu desejo
nem sequer seda de vestido que eu toque
nenhum corpo nem seios
só o retrato frio na lápide
Que amor terrível é este que me trazes?
domingo, 16 de fevereiro de 2014
O mapa do rosto
Uma face para sofrer e perecer
outra para resistir imóvel sob a chuva
uma face feliz outra pasma
uma face encantada
outra para oferecer às explosões
navalhas
aos rios que viriam envenenados
a todo tipo de bicho
a todo tipo de ódio
a todo tipo de amor que atravessar a vidraça
e vier me ferir com seus dardos
outra para resistir imóvel sob a chuva
uma face feliz outra pasma
uma face encantada
outra para oferecer às explosões
navalhas
aos rios que viriam envenenados
a todo tipo de bicho
a todo tipo de ódio
a todo tipo de amor que atravessar a vidraça
e vier me ferir com seus dardos
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
Praia de Ponta Negra
" Nada, nada, nadador...”
Jorge de Lima
Nadei tanto, tanto, tanto
fosse noite ou fosse dia
anfíbio eu era
metade água, outra terra
Sobrevivi porque contei tudo ao mar
ele sabe como respiro
guardei lá meus gritos
e misturei minhas lágrimas a seus sais
Fui queimada por algas
e, alentada pela espuma leve,
dei minha dor às ondas
Jorge de Lima
Nadei tanto, tanto, tanto
fosse noite ou fosse dia
anfíbio eu era
metade água, outra terra
Sobrevivi porque contei tudo ao mar
ele sabe como respiro
guardei lá meus gritos
e misturei minhas lágrimas a seus sais
Fui queimada por algas
e, alentada pela espuma leve,
dei minha dor às ondas
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
" The woman who rode away"
Vem visitar-me como sempre disfarçada
a amazona traiçoeira
nuvem, chuva, poeira, rastro
nunca chega de verdade
como a mulher mortal, carnal, corriqueira
maldita guerreira escondida em palavras
desenhos, sombras, peixes
Que irei fazer para vencê-la?
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