domingo, 17 de junho de 2012

pequena prece das esculturas ao seu autor

                                                                          Rodin  

podemos ser de carvão
lâminas de gelo ou gesso
a qualquer hora
desfeitos pela mágoa

mas buscando o que não passa
nossas bocas de febre e rito
aterrissam em tuas mãos

e na inquietude do mármore
com hálito de punhal
nos salvas


segunda-feira, 28 de maio de 2012

atlas

                                                                   John Singer Sargent
                                                       


elevadores atlas nas cidades do sul
sustentam o mundo
as pessoas e seus sustos
erva mate madrugada pastoreio
tertúlia
pé sujo com ana júlia
trocando o salto alto com o baixo
pousando na rua da praia com sabrina
no fumódromo sem fumar
essa ave de estrela
compactuando e dividindo
batata frita com picanha
noite de quinta-feira
mulheres livres e tais
que as sombras de Mário Quintana
e seu fantasma
não assombram mais

sábado, 19 de maio de 2012

O Horto

Juazeiro, Juazeiro
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
imagens estilhaçadas
cacos de virgem Maria
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Poeta perdendo a prece

Que poderá o poema nesta noite pouca
em que muito frágil e antiga
tento em vão cobrir-me com uma túnica?

Que poderá o poema contra o frio
contra a nudez batendo sobre as coisas
e minha cara refletida sobre o vidro?

Que poderá ainda
contra o rigor habitual dos edifícios
contra pequenos abismos e misérias

Que poderá contra meu ódio
contra minha inveja
e a manhã que virá com luz fortíssima?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Pisciana


Ainda hoje o rádio alto da vizinhança no pátio
crimes soterrados sob a enxurrada de notícias

quebram-se arcos
alçam-se escarpas

e escamas mansas, temerárias, mudas
fazem com que nades e sobrevivas

maquiada e calma
peixe-mulher
solta  livre obstinada
bem no meio da Avenida Paulista

domingo, 1 de abril de 2012

A casa

                                                                          Bosch

Até os ratos abusam de nossa fraqueza
e começam a empestar a casa
De que vale sufocá-los nos buracos
se a brasa que nos resume é muito mais ligeira

Uma coisa enorme e insana
arrasta sua cauda dentro da gente
Nem os barquinhos de papel resistem
nem bonecos de pano nem peças de dominó

Círculos se fecham uns sob os outros
e ali mesmo se quebram
Bichos e anjos se iniciam por todos os lados
e devoram tudo

domingo, 18 de março de 2012

A menina fantasma do internato

Diante das coisas mais óbvias
estanco
como se fossem abismos
Não aprendi a dar os passos decisivos
Tenho desejado corredores longos na penumbra
como nos antigos colégios
É noite, escuro
lá fora os fios da cidade não me alcançam
nem as profissões, nem o futuro
Quero ficar no colégio eterna interna
feito uma menina morta aos treze anos
feito Laura Vicunha, feito as velhas madres
Quero ficar guardada nos retratos para sempre
E com meu corpo de vento
descer e subir escadas
brincar no jardim
E à noite
quando todos partem
e as freiras dormem
ter um colégio
e um mundo todo para mim


sábado, 3 de março de 2012

Um pomar no escuro

                                                              Marco Mazzoni  

                       
                     
                        Marimbondos estalando pelo corpo
                        cacos de vidro verde sobre o muro
                        mínimos guardiões desse desejo
                        de furtar teus frutos
                        e desabotoar essas paredes,
                        calhas, luzes, rochedos
                        que dividem e separam
                        minhas chamas das tuas



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cais

                                                                    Ken Wong




Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro





sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Rito de Carmem

                                                                     Oriol Jolonch

Ela é uma forma de alucinação
de hino ao perigo
e ao furor
Perfuma-se com um poema
e se apronta
como quem vai ao cinema

Parece que não há riscos
em tudo que ela faz
mas ela acorda e dorme
sitiada
Mulher em que se atira facas
ela recebe os golpes um a um
Arremessos de perda, luxúria, ciúme

No centro do picadeiro
um homem de olhos vendados
ameaça matá-la
todas as noites
diante dos aplausos inocentes




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Percurso do vento inundando a ilha

                                                           Shiori Matsumoto


Primeiro vem por mínimas frestas
baixas e estreitas
e se infiltra sob as portas dos cômodos

O extâse de sua viagem marítima
exala então uma inquietação
de dúvida e festa

Ondulando agora feito lâmina
corta novelos e ares
com que trançávamos
nossa vida calma

Clandestino e livre, o vento vem sem pausa
arrancando cercas, afundando barcas
Fulminados estamos
sob suas marcas

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O ciclista noturno

                                                       Henri Toulouse-Lautrec               

Está escuro na bicicleta veloz
E chove, chove, chove uma alegria
sobre o corpo, sobre o sangue
sobre o espanto do peito acelerado
contra o vento
E se quebram contra o calçamento
mentiras e reis
Granizo que se desfaz na travessia

Veias de vidro trincadas pela luz
que escoa dos postes da rua

Caminho, ciclovia,
rota iluminada
por pequenas e úmidas luas

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O poema de Laura

                                                           Gustav Klimt


Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais

Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo

Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse

Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo

Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste

Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas

Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo

Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Escudo de Aquiles

                                  "Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo."
                                                     Herberto Helder

Transcorrem estrelas nessa boca
banham-se nessa aura
expulsam o que antes
era treva adensada nesses olhos
É um céu se acendendo sobre as águas

Vulnerado estás, asseteado, ferido
Ternura e força, porém,
cobrem essas tristezas de ambrosia

E mesmo sendo feito de poeira, estrada, terra ,espanto
escuridão espessa e nuvens claras,
há lutas, batalhas, bodas e alegrias
lanças, taças e festas
no teu escudo celebradas

domingo, 27 de novembro de 2011

As perdas

                                                       Hamilton, James. 1871
                                  

Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados

Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços

sábado, 19 de novembro de 2011

Noturno sobre ponte na Baía de Guanabara

Eu ofereço
esse gosto pela forte chuva nas estradas
Naves, guindastes,
o ferro úmido de todas as coisas
que compõem a paisagem
Ofereço minha pele febril
minha estratégia de vida
Esse pequeno dilúvio
essas águas que vejo inundando tudo
Os mistérios todos à frente
dos faróis do automóvel
O sereno pacto de fazer parte do tráfego
entre grandes cidades
Ofereço a conversão desse desassossego
em trilhas iluminadas

sábado, 29 de outubro de 2011

Lira de Eurídice

Vem de dentro de mim
uma música
atravessando estradas, campos, lares

Quem pode cobrir de cinza
essa lira que arde?

Vem de dentro de mim
uma música
esbarrando em pedras
soterrando portas
destravando cidades

Dentro de mim
uma música
acesa
invade mares, rios, vales

Quem lhe ousa dar margens?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Herança

ArtRua,Rio 2011
                  

Ninguém sabe como reluz
teu silêncio sobre minha pele
sobre as asas ásperas
que arrasto pela rua

Mas quando falas
toda medida e ritmo que não tenho
mobiliam a sala
consertam minhas veias
inchadas pela chuva
trazem um ar sereno
à minha sede

Sou ainda aquela menina
levada pelo vento
num tempo em que eras o rei
e o senhor do mundo

E mesmo que estejas perdendo
todos os poderes
ainda sou filha de cada gesto seu
cada porto que encontraste pela vida
é também o meu