É preciso ter a medida certa de febre
a dose certa de encanto
e fino tato
Aqui é tudo delicado e precioso
as cruzes ancoradas nas pontes
enfeitadas e coloridas com papel crepom
Na Páscoa fizemos coloridos tapetes com serragem
Não temos mar
mas um trem corta vivo as montanhas
como um peixe imenso
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A chegada de Mercúrio
Acendes espelhos por onde passo
e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes fogueiras viagens
tudo me trazes nos dias em que ancoras
tua ventania nos meus braços
e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes fogueiras viagens
tudo me trazes nos dias em que ancoras
tua ventania nos meus braços
Brinquedos
Os brinquedos eram vivos mas mutilados
Às vezes os rios levam os brinquedos da gente
e ficamos ali à beira das águas
esperando outros trazidos pelo tempo:
um porco-espinho sem pata
bonecos sem braços
carrinhos sem roda
As crianças se sobressaltam
em risos delicados
Telefonam para alguém que não existe
Dobram sem cuidado as próprias pernas
como as pernas dos bonecos tristes
e se perguntam espantados:
será que os brinquedos belos existem?
Às vezes os rios levam os brinquedos da gente
e ficamos ali à beira das águas
esperando outros trazidos pelo tempo:
um porco-espinho sem pata
bonecos sem braços
carrinhos sem roda
As crianças se sobressaltam
em risos delicados
Telefonam para alguém que não existe
Dobram sem cuidado as próprias pernas
como as pernas dos bonecos tristes
e se perguntam espantados:
será que os brinquedos belos existem?
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O espantalho
Ao meu redor cresce verde a lavoura
e eu sou de seca palha
Ao meu redor homens se movem e trabalham
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste
Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo
Meus braços estão abertos para o espanto
não para o trabalho ou o abraço
Meu corpo de palha seca
nunca sentiu a volúpia dos bichos
Vivo abismado e só
escancarado sob a luz dos astros
Ao meu redor homens se movem e trabalham
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste
Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo
Meus braços estão abertos para o espanto
não para o trabalho ou o abraço
Meu corpo de palha seca
nunca sentiu a volúpia dos bichos
Vivo abismado e só
escancarado sob a luz dos astros
![]() |
| http://anonimundo.blogspot.com/ |
Narcissism and Celebrities
Picasso" The thriving globalization is turning things into better situations for citizens.
That’s in-your-face and undeniable. In South Africa I can talk to an Asian keypal without difficulties. Furthermore, I could see the face of that friend.
As the world has become a “village”, everyone’s closer to each other, and people can reach their wishes out more efficient and frequently. For example, the fame, jobs, in short: values which are exposed and wanted like labels became easier to achieve. Anyone can get famous just in a blink by uploading any innovative video on YouTube, even if that one hasn’t studied or worked enough to accomplish the goals.
As a result, more people have gotten noticeable, but unfortunately the majority of them don’t know how to handle this sudden fame. So sooner or later they’ll see the failure knocking on their door, even more if they face the new reality with extreme narcissism.
A crucial point which can determine the destiny of those “new celebrities” is that narcissism. I mean, every celebrity is narcissistic and so we are because that’s a common sort of human characteristic. Which levels can vary according to each one.
People who talk back to everybody (don’t care about the others and are always looking for success, beauty and fame, without worry about who’s on their way) are too narcissistic and have great possibilities of losing what they want. Just because they want too much."
As the world has become a “village”, everyone’s closer to each other, and people can reach their wishes out more efficient and frequently. For example, the fame, jobs, in short: values which are exposed and wanted like labels became easier to achieve. Anyone can get famous just in a blink by uploading any innovative video on YouTube, even if that one hasn’t studied or worked enough to accomplish the goals.
As a result, more people have gotten noticeable, but unfortunately the majority of them don’t know how to handle this sudden fame. So sooner or later they’ll see the failure knocking on their door, even more if they face the new reality with extreme narcissism.
A crucial point which can determine the destiny of those “new celebrities” is that narcissism. I mean, every celebrity is narcissistic and so we are because that’s a common sort of human characteristic. Which levels can vary according to each one.
People who talk back to everybody (don’t care about the others and are always looking for success, beauty and fame, without worry about who’s on their way) are too narcissistic and have great possibilities of losing what they want. Just because they want too much."
Matheus de Simone Maciel
(16 anos) aluno do IFF-Cabo Frio
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Don Juan cansado e a Terceira Mulher
O livro “ A terceira mulher”, do filósofo francês Gilles Lipovetvsky, traz algumas ideias instigantes para pensar o feminino no século XXI. Esboço aqui pelo menos duas dessas ideias.
Encontramos um capítulo com um subtítulo intitulado “ Don Juan cansado”. O mote é que por mais que ainda possa ser interessante para os homens exibirem suas conquistas amorosas e aventureiras, esse modelo donjuanesco estaria se tornando muito repetitivo e esgotado. O ideal de coleção de aventuras e seduções estaria perdendo terreno, mesmo entre os homens, para um endereço diferente do desejo com o sentimento de vínculo, companheirismo, cumplicidade erótica, traduzindo assim, não a ruína da identidade viril, mas um certo avanço, um certo equílibrio entre os dois sexos na vida amorosa. As dúvidas sobre essa argumentação me parecem ser múltiplas, mas extremamente convidativas à reflexão. Ainda mais porque é bem difícil dizer o que é ser masculino e feminino hoje.
Outro asssunto que me chamou a atenção nessa primeira leitura é que, por mais complexos que ainda sejam os temas das relações e diferenças entre o trabalho masculino e feminino, o poder está passando, de alguma forma, por uma feminização, mesmo entre as mulheres que em algum tempo recusaram a identificação com caracteríscas femininas milenares como a busca por pequenos artíficios da beleza, pelas maquiagens, pelos vestidos coloridos, elegantes ou descolados.
Antes entendido apenas como um poder diabólico de feiticeiras, a mulher trabalhadora, passando por conflitos em suas múltiplas faces sexuais, amorosas e familiares, não parece, segundo o pensamento de Lipovetsky, desejar abrir mão de suas características milenares, buscando-as cada vez mais, em todas as idades, no modo como como se veste, como usa seus brincos e colares, e, a meu ver, até no detalhe da pintura das unhas. Dúvidas sobre essa argumentação também rendem muitas costuras e escritos e tentarei retomar essas ideias em outra oportunidade. É um prazer ler Gilles Lipovetsky.
Lipovetsky, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino.Trad. Maria Lúcia Machado. Companhia das Letras.2000.
Título original: La troisième femme: permanence et révolution du féminin.Paris: Gallimard, 1997
Encontramos um capítulo com um subtítulo intitulado “ Don Juan cansado”. O mote é que por mais que ainda possa ser interessante para os homens exibirem suas conquistas amorosas e aventureiras, esse modelo donjuanesco estaria se tornando muito repetitivo e esgotado. O ideal de coleção de aventuras e seduções estaria perdendo terreno, mesmo entre os homens, para um endereço diferente do desejo com o sentimento de vínculo, companheirismo, cumplicidade erótica, traduzindo assim, não a ruína da identidade viril, mas um certo avanço, um certo equílibrio entre os dois sexos na vida amorosa. As dúvidas sobre essa argumentação me parecem ser múltiplas, mas extremamente convidativas à reflexão. Ainda mais porque é bem difícil dizer o que é ser masculino e feminino hoje.
Outro asssunto que me chamou a atenção nessa primeira leitura é que, por mais complexos que ainda sejam os temas das relações e diferenças entre o trabalho masculino e feminino, o poder está passando, de alguma forma, por uma feminização, mesmo entre as mulheres que em algum tempo recusaram a identificação com caracteríscas femininas milenares como a busca por pequenos artíficios da beleza, pelas maquiagens, pelos vestidos coloridos, elegantes ou descolados.
Antes entendido apenas como um poder diabólico de feiticeiras, a mulher trabalhadora, passando por conflitos em suas múltiplas faces sexuais, amorosas e familiares, não parece, segundo o pensamento de Lipovetsky, desejar abrir mão de suas características milenares, buscando-as cada vez mais, em todas as idades, no modo como como se veste, como usa seus brincos e colares, e, a meu ver, até no detalhe da pintura das unhas. Dúvidas sobre essa argumentação também rendem muitas costuras e escritos e tentarei retomar essas ideias em outra oportunidade. É um prazer ler Gilles Lipovetsky.
Lipovetsky, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino.Trad. Maria Lúcia Machado. Companhia das Letras.2000.
Título original: La troisième femme: permanence et révolution du féminin.Paris: Gallimard, 1997
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A paixão no espelho
É como se eu cantasse sozinha dentro de uma gruta
e uma matéria nua me cercasse
Dentro em pouco serei uma mulher
de cabelos mais longos
estilhaços de alegria me atingindo por todos os lados
meus olhos, habitualmente pretos,
ficarão mais pretos ainda
Uma vontade sem medo de enfrentar os que chegam
e abençoar os que partem
É como se eu dançasse sozinha numa rua escura
e beijasse Lázaro
e me entregasse às feras
e aprendesse a dormir com as tempestades
e uma matéria nua me cercasse
Dentro em pouco serei uma mulher
de cabelos mais longos
estilhaços de alegria me atingindo por todos os lados
meus olhos, habitualmente pretos,
ficarão mais pretos ainda
Uma vontade sem medo de enfrentar os que chegam
e abençoar os que partem
É como se eu dançasse sozinha numa rua escura
e beijasse Lázaro
e me entregasse às feras
e aprendesse a dormir com as tempestades
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Rota do Fogo

" Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder."
Jorge Mautner
para os meninos e meninas do século XXI
Está escrito na estrada:
Nós cuidamos de você
Doe Sangue
Solidariedade
Sob neblina reduza
a intensidade
Velocidade controlada por radar
Mantenha a distância da segurança
Luz baixa ao cruzar veículos
Seja bem-vindo, precisando ligue:
Eu preciso de você
Está acabando a brevidade
a deliciosa brevidade
Viaje de bem com a vida
domingo, 21 de novembro de 2010
Canção para ninar bacantes
Com olhos bem abertos para a vida,
viram um reino em tudo:
no sapo, no mato alto,
na teia de aranha –a cornucópia, a abundância do tempo –
pendurada no teto
E mesmo que as mãos se queimassem
mesmo que houvesse vento
as musas se protegiam
rindo muito noite adentro
uma bebia cais, a outra bebia espuma,
a terceira bebia porto
uma era fé, outra luz
a terceira uma ira plena de cinzas
Estreladas em noite alta
eram três marias sanguíneas
de hábitos muito azuis
sábado, 20 de novembro de 2010
Os prazeres da chuva
cada dia um pouco de chuva
molha os muros, lava os becos,
banha nossas calçadas,
encharca nossas sandálias,
e mesmo que em nossa casa
falte a água encanada
para lavar os cabelos e
desanuviar nossas almas,
cada dia um pouco de chuva
vai desmanchando máscaras
desnudando nossos reinos
acendendo nossa calma
cada dia, pouco a pouco,
vamos baixando os escudos
nos rendendo, umedecendo,
convertendo o medo em asas
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Troia
e vamos nos preparando para as olimpíadas
com presságios gregos
nuvens claras, temporais
notícias digitais
presentes gregos podem trair nossas muralhas
troianos podem levar nossas mulheres
a guerra de Troia começou com uma hospedagem
por isso
ou tenha muito cuidado com quem você hospeda
em sua colmeia
ou viva para valer o risco
de uma Ilíada inteira e uma Odisseia
com presságios gregos
nuvens claras, temporais
notícias digitais
presentes gregos podem trair nossas muralhas
troianos podem levar nossas mulheres
a guerra de Troia começou com uma hospedagem
por isso
ou tenha muito cuidado com quem você hospeda
em sua colmeia
ou viva para valer o risco
de uma Ilíada inteira e uma Odisseia
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Descoberta no espelho
Tua pequena varize
se insinuando na perna
fino rio de sangue azul
onde as tristezas navegam
herança de tua avó, de tua bisavó
marca do teu trabalho
do trabalho delas
cicatriz do filho que esperaste
e das escadas que subiste
tua pequena varize
não é doença ou velhice
mas antes sinal de beleza
irmã dos rios, dos navios e da chuva
irmã de todas as coisas
que ultrapassaram limites
se insinuando na perna
fino rio de sangue azul
onde as tristezas navegam
herança de tua avó, de tua bisavó
marca do teu trabalho
do trabalho delas
cicatriz do filho que esperaste
e das escadas que subiste
tua pequena varize
não é doença ou velhice
mas antes sinal de beleza
irmã dos rios, dos navios e da chuva
irmã de todas as coisas
que ultrapassaram limites
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Carlos Drummond de Andrade

Gosto da água que bebo
em seu filtro de barro
límpida e sagrada
parece de mina
Que importa se a bebo
em um mero copo de plástico?
Não consigo olhar direto em seus olhos
brumas, neblina
onde até fumaça de cigarro fica pura
Acabamos de nos unir pela loucura
mas me apoio na lucidez que nos separa
Não posso ler seus livros
nem você os meus. É nosso pacto de cura
Respiro bem seu ar de São Francisco
sua voz tem gosto e cor
e me come em segredo
ou serei eu que como a sua voz
em seu filtro de barro
límpida e sagrada
parece de mina
Que importa se a bebo
em um mero copo de plástico?
Não consigo olhar direto em seus olhos
brumas, neblina
onde até fumaça de cigarro fica pura
Acabamos de nos unir pela loucura
mas me apoio na lucidez que nos separa
Não posso ler seus livros
nem você os meus. É nosso pacto de cura
Respiro bem seu ar de São Francisco
sua voz tem gosto e cor
e me come em segredo
ou serei eu que como a sua voz
- pão de palavras?
sábado, 23 de outubro de 2010
Raízes
“Para quem não tem mais pátria
talvez escrever seja a única morada”Theodor Adorno
E me perguntam onde estou
e me perguntam onde moro
tornaram-se enfim questões delicadas
Estou morando em minhas palavras
às vezes sede, às vezes navalha
às vezes também girassóis e asas
talvez escrever seja a única morada”Theodor Adorno
E me perguntam onde estou
e me perguntam onde moro
tornaram-se enfim questões delicadas
Estou morando em minhas palavras
às vezes sede, às vezes navalha
às vezes também girassóis e asas
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Bacante
Em meu ninho longínquo
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
tranformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
tranformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Santa Clara
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Dúvidas sobre Lipovetsky e o conceito de narcisismo

Recentemente, lendo o filósofo francês Gilles Lipovetsky, faço algumas breves reflexões a partir do capítulo “ Narciso ou a estratégia do vazio”, do livro “ A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo”.
Segundo o autor francês, o sujeito atual está, por assim dizer, vivendo em um bunker narcisista. Ele entende essa noção não apenas como uma vivência voltada exclusivamente ao culto ao corpo, à beleza padronizada, ao não envelhecimento, ao consumo, mas a um outro estilo de vida que ele denomina homo psychologicus :o indivíduo preocupado antes de tudo com seu bem-estar. E nessa busca pelo bem- estar, ele inclui tudo: yoga, acupuntura, medicinas alternativas, todos os orientalismos arrancados de suas raízes e transportados para o Ocidente, seitas religiosas, indústria farmacêutica, psicoterapias em geral etc.
Sem nenhum tipo de motivação essencial, o Narciso contemporâneo busca de toda forma sobreviver à sua própria apatia (em grego: ausência de paixões), tentando realizar-se apenas no seu próprio poder de consumo e na estabilidade de sua saúde. Sem grandes causas sociais, religiosas, artísticas, o que importa é cada um por si, refugiando-se no seu eu ou no seio de uma pequena família cada vez mais frágil. O eu como nossa única âncora, raiz, proteção , nosso bunker, um escafandro no mar.
Algo mais narcisista ainda seria a busca desses sujeitos por uma autossufiência afetiva, a fuga do arrebatamento, do embate amoroso, das relações densas com os outros. Tudo se passa em um meio muito “ climatizado”, sem grandes acirramentos de pontos de vistas, sem grandes hostilidades.
Claro que essa paisagem é hoje muito mais visível para os teóricos europeus, mas até que ponto também não começa a ser a nossa?
Outros autores acentuam a vivência de emoções de modo transferido, como no caso de filmes, esportes, espetáculos, exposição da intimidade das celebridades. Não estaríamos vivendo, estaríamos sendo vividos. É como se o que está na tela vivesse por nós, transferimos nossas necessidades de aventuras e paixões fortes para algo fora de nós e levamos uma existência indolor e sem riscos. Diagnóstico de uma sociedade altamente hedonística e esvaziada.
Minhas dúvidas são muitas. Se por acaso concordarmos com algumas ideias de Lipovetsky, como tornaríamos Narciso alguém que se abre para o corte, para o desconhecido, para o desafio? Se todos querem ser anestesiados, se ninguém tem mais tempo de sofrer, se sofrer se tornou algo extremamente antiquado e vergonhoso, quais seriam as paixões possíveis? É proibido sofrer, é proibido se entregar, é proibido se arriscar.
Em outras palavras, a ideia é: controle seus sentimentos acima de tudo, pratique hábitos saudáveis, não aparente envelhecer, alimente-se bem, faça check-up, cuide de si e não caia na armadilha das paixões, nem no perigo de nenhuma causa maior além da segurança da sua existência individual ou da pequena família da qual você faz parte. É o estilo de vida mais inofensivo que talvez possamos ver, uma vidinha consumada e consumida pelo consumo, dedicada à saúde e ao bem-estar. Será que nós também estamos condenados à essa apatia, será que algum fogo ainda acende nossos espelhos frios? A gente quer só isso?
Segundo o autor francês, o sujeito atual está, por assim dizer, vivendo em um bunker narcisista. Ele entende essa noção não apenas como uma vivência voltada exclusivamente ao culto ao corpo, à beleza padronizada, ao não envelhecimento, ao consumo, mas a um outro estilo de vida que ele denomina homo psychologicus :o indivíduo preocupado antes de tudo com seu bem-estar. E nessa busca pelo bem- estar, ele inclui tudo: yoga, acupuntura, medicinas alternativas, todos os orientalismos arrancados de suas raízes e transportados para o Ocidente, seitas religiosas, indústria farmacêutica, psicoterapias em geral etc.
Sem nenhum tipo de motivação essencial, o Narciso contemporâneo busca de toda forma sobreviver à sua própria apatia (em grego: ausência de paixões), tentando realizar-se apenas no seu próprio poder de consumo e na estabilidade de sua saúde. Sem grandes causas sociais, religiosas, artísticas, o que importa é cada um por si, refugiando-se no seu eu ou no seio de uma pequena família cada vez mais frágil. O eu como nossa única âncora, raiz, proteção , nosso bunker, um escafandro no mar.
Algo mais narcisista ainda seria a busca desses sujeitos por uma autossufiência afetiva, a fuga do arrebatamento, do embate amoroso, das relações densas com os outros. Tudo se passa em um meio muito “ climatizado”, sem grandes acirramentos de pontos de vistas, sem grandes hostilidades.
Claro que essa paisagem é hoje muito mais visível para os teóricos europeus, mas até que ponto também não começa a ser a nossa?
Outros autores acentuam a vivência de emoções de modo transferido, como no caso de filmes, esportes, espetáculos, exposição da intimidade das celebridades. Não estaríamos vivendo, estaríamos sendo vividos. É como se o que está na tela vivesse por nós, transferimos nossas necessidades de aventuras e paixões fortes para algo fora de nós e levamos uma existência indolor e sem riscos. Diagnóstico de uma sociedade altamente hedonística e esvaziada.
Minhas dúvidas são muitas. Se por acaso concordarmos com algumas ideias de Lipovetsky, como tornaríamos Narciso alguém que se abre para o corte, para o desconhecido, para o desafio? Se todos querem ser anestesiados, se ninguém tem mais tempo de sofrer, se sofrer se tornou algo extremamente antiquado e vergonhoso, quais seriam as paixões possíveis? É proibido sofrer, é proibido se entregar, é proibido se arriscar.
Em outras palavras, a ideia é: controle seus sentimentos acima de tudo, pratique hábitos saudáveis, não aparente envelhecer, alimente-se bem, faça check-up, cuide de si e não caia na armadilha das paixões, nem no perigo de nenhuma causa maior além da segurança da sua existência individual ou da pequena família da qual você faz parte. É o estilo de vida mais inofensivo que talvez possamos ver, uma vidinha consumada e consumida pelo consumo, dedicada à saúde e ao bem-estar. Será que nós também estamos condenados à essa apatia, será que algum fogo ainda acende nossos espelhos frios? A gente quer só isso?
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Praia de Ponta Negra
" Nada, nada, nadador...”
Jorge de Lima
Nadei tanto, tanto, tanto
fosse noite ou fosse dia
anfíbio eu era
metade água, outra terra
Sobrevivi porque contei tudo ao mar
ele sabe como respiro
guardei lá meus gritos
e misturei minhas lágrimas a seus sais
Fui queimada por algas
e, alentada pela espuma leve,
dei minha dor às ondas
Jorge de Lima
Nadei tanto, tanto, tanto
fosse noite ou fosse dia
anfíbio eu era
metade água, outra terra
Sobrevivi porque contei tudo ao mar
ele sabe como respiro
guardei lá meus gritos
e misturei minhas lágrimas a seus sais
Fui queimada por algas
e, alentada pela espuma leve,
dei minha dor às ondas
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Caio Fernando Abreu, o intenso educador
" Cuidamos das opiniões e do saber alheios e pronto; é preciso torná-los nossos."
Michel de Montaigne
por Karina Santos( 16 anos), aluna do IFF-Cabo Frio
"Intenso. Não poderia começar a falar dele com outra palavra. Nele há a coragem e a transparência da dor, a coragem de doar vazios a outros vazios. Dedico minha intensidade a quem me tornou intensa, um mestre chamado Caio Fernando Abreu.
Acho que nunca foi a intenção dele ser um educador, nem ensinar algo a alguém, mas foi isso que ele fez comigo, me apresentou outros mundos, dando valor a íntimas e pequenas coisas com a intensa forma de seus passos. Ainda aprendo, me encanto, me apaixono cada vez mais com suas palavras. Ele não era só um mestre literário, mas um mestre da vida."
Michel de Montaigne
por Karina Santos( 16 anos), aluna do IFF-Cabo Frio
"Intenso. Não poderia começar a falar dele com outra palavra. Nele há a coragem e a transparência da dor, a coragem de doar vazios a outros vazios. Dedico minha intensidade a quem me tornou intensa, um mestre chamado Caio Fernando Abreu.
Acho que nunca foi a intenção dele ser um educador, nem ensinar algo a alguém, mas foi isso que ele fez comigo, me apresentou outros mundos, dando valor a íntimas e pequenas coisas com a intensa forma de seus passos. Ainda aprendo, me encanto, me apaixono cada vez mais com suas palavras. Ele não era só um mestre literário, mas um mestre da vida."
Pedantismo

"Cumpre entretanto indagar quem sabe melhor e não quem sabe mais." - Michel de Montaigne
"Ao ter uma atitude pedante, o indivíduo não permite críticas nem aprendizado, já que acha que sabe tudo, porém sabe muito menos do que acha que sabe. Logo, o pedantismo cria uma barreira entre o pedante e o mundo ao seu redor, impedindo o conhecimento, um desenvolvimento. Ou seja, ao dizer que não precisa da sabedoria do outro, a pessoa pode até evoluir em alguns aspectos intelectuais por conta própria, mas não necessariamente essa evolução será sustentável. O indivíduo não se desenvolverá, pois em muitos outros aspectos ele estará errando, por exemplo, ao não ser modesto. Portanto, de nada vale a sabedoria estagnada, que não se move de forma recíproca, não é passada nem recebida. Então uma outra dimensão é construída pelo pedante, como um "autista", negando-se ao externo, entretanto, internamente se negando. Pois, a meu ver, é inerente ao ser a natureza social, a troca, o convívio, assim, este irá contra sua espécie, até chegar à desumanização do humano, ao animalesco. Mas era destinado a pensar, fazer pensar, já que existe, pois, para pensar. Será?"
Matheus Maciel (15 anos), aluno do IFF Cabo Frio
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