segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cais

                                                                    Ken Wong




Tem sido a mesma obsessão pelos navios
não basta querer que eles venham
é preciso sonhá-los
ancorados em mim
feito jardins de ferro





sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Rito de Carmem

                                                                     Oriol Jolonch

Ela é uma forma de alucinação
de hino ao perigo
e ao furor
Perfuma-se com um poema
e se apronta
como quem vai ao cinema

Parece que não há riscos
em tudo que ela faz
mas ela acorda e dorme
sitiada
Mulher em que se atira facas
ela recebe os golpes um a um
Arremessos de perda, luxúria, ciúme

No centro do picadeiro
um homem de olhos vendados
ameaça matá-la
todas as noites
diante dos aplausos inocentes




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Percurso do vento inundando a ilha

                                                           Shiori Matsumoto


Primeiro vem por mínimas frestas
baixas e estreitas
e se infiltra sob as portas dos cômodos

O extâse de sua viagem marítima
exala então uma inquietação
de dúvida e festa

Ondulando agora feito lâmina
corta novelos e ares
com que trançávamos
nossa vida calma

Clandestino e livre, o vento vem sem pausa
arrancando cercas, afundando barcas
Fulminados estamos
sob suas marcas

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O ciclista noturno

                                                       Henri Toulouse-Lautrec               

Está escuro na bicicleta veloz
E chove, chove, chove uma alegria
sobre o corpo, sobre o sangue
sobre o espanto do peito acelerado
contra o vento
E se quebram contra o calçamento
mentiras e reis
Granizo que se desfaz na travessia

Veias de vidro trincadas pela luz
que escoa dos postes da rua

Caminho, ciclovia,
rota iluminada
por pequenas e úmidas luas

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O poema de Laura

                                                           Gustav Klimt


Essa moça que amei
na tarde fria
não a amo mais

Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo

Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse

Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo

Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste

Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas

Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo

Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Escudo de Aquiles

                                  "Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo."
                                                     Herberto Helder

Transcorrem estrelas nessa boca
banham-se nessa aura
expulsam o que antes
era treva adensada nesses olhos
É um céu se acendendo sobre as águas

Vulnerado estás, asseteado, ferido
Ternura e força, porém,
cobrem essas tristezas de ambrosia

E mesmo sendo feito de poeira, estrada, terra ,espanto
escuridão espessa e nuvens claras,
há lutas, batalhas, bodas e alegrias
lanças, taças e festas
no teu escudo celebradas

domingo, 27 de novembro de 2011

As perdas

                                                       Hamilton, James. 1871
                                  

Perdi o jogo de novo
o vencedor me acena vitorioso
rindo de meus gestos fracassados

Com a crueldade de todos os vencedores
ele me entrega um xadrez de pedra
estilhaçado
e alegria de rainha que eu tinha
as torres os bispos os cavalos
estão caindo a galope dos meus braços

sábado, 19 de novembro de 2011

Noturno sobre ponte na Baía de Guanabara

Eu ofereço
esse gosto pela forte chuva nas estradas
Naves, guindastes,
o ferro úmido de todas as coisas
que compõem a paisagem
Ofereço minha pele febril
minha estratégia de vida
Esse pequeno dilúvio
essas águas que vejo inundando tudo
Os mistérios todos à frente
dos faróis do automóvel
O sereno pacto de fazer parte do tráfego
entre grandes cidades
Ofereço a conversão desse desassossego
em trilhas iluminadas

sábado, 29 de outubro de 2011

Lira de Eurídice

Vem de dentro de mim
uma música
atravessando estradas, campos, lares

Quem pode cobrir de cinza
essa lira que arde?

Vem de dentro de mim
uma música
esbarrando em pedras
soterrando portas
destravando cidades

Dentro de mim
uma música
acesa
invade mares, rios, vales

Quem lhe ousa dar margens?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Herança

ArtRua,Rio 2011
                  

Ninguém sabe como reluz
teu silêncio sobre minha pele
sobre as asas ásperas
que arrasto pela rua

Mas quando falas
toda medida e ritmo que não tenho
mobiliam a sala
consertam minhas veias
inchadas pela chuva
trazem um ar sereno
à minha sede

Sou ainda aquela menina
levada pelo vento
num tempo em que eras o rei
e o senhor do mundo

E mesmo que estejas perdendo
todos os poderes
ainda sou filha de cada gesto seu
cada porto que encontraste pela vida
é também o meu

domingo, 16 de outubro de 2011

Poema do lobo do mar

Como proteger-me desse lobo que vem vindo
Em que ilhas poderei me ocultar
em que barcos ousarei fugir
desse lobo que domina os barcos e as ilhas?

Reúno roupas negras  faca  escudo
De que adianta enfrentá-lo do meu jeito
se ele me despe do jeito que ele quer?

Como proteger-me dessas ondas
de prazer que ele traz em suas brisas
De que vale feri-lo com meus versos
De que vale me lançar ao mar

Se não há como esconder-me de mim mesma
do exílio que sinto quando fujo
da vontade que tenho de ficar?

sábado, 15 de outubro de 2011

Valquíria

Romã Fernandes (gravura)

Tua alegria está rondando meus mistérios
na penumbra em que estamos
escuto teus passos docemente

Pisas sonhos escuros
vences os fogos noturnos
e um pai te desafia com uma lança

Finjo que estou ferida, adormecida
aguardo que ouses tocar-me e que me acordes

Para que eu possa cavalgar
dentro da tua vida

sábado, 8 de outubro de 2011

A voz da noite sem trégua

Não mais o vapor dos navios
nem o container guardando um piano
nem o cômodo cheio de assombros
nem voos, nem bondes
nem vagões empestados de abelhas

Azulejos ornados de rosas
agora protegeriam, enfim,
a vida que se leva e lava
e se estende no varal

Gestos pousariam sobre xícaras delicadas
e ferrolhos rangeriam quietos

Mas não há sossego nos canos, nos registros hidráulicos,
nas caixas d'água
Os insetos e os fios elétricos insistem na estranheza

A voz da noite está por toda parte

Não mais o vapor dos navios
nem vagões empestados de abelhas
nem mesmo crimes, nem mesmo tréguas

As paixões não dizem onde moram
nem quando chegam
nem sabemos que forma assumem
nem como ardem

A vendedora de açaí




Mais uma sandália se partiu
na ida à feira para comprar caquis

retornas segurando uma penca de bananas
e a sandália quebrada na outra mão
o  pé no chão
torto anjo de Drummond
descalça parceira de Carlito

e mesmo assim desajeitada
tens ventania bastante para o dia

os feirantes estão lá a postos
tentadores
mas flertas é com o brilho súbito
da risonha vendedora de açaí

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

No salão de beleza

Não satisfeita em acolher sozinha sua dor
ela despejava com luz a dor nos outros
ferindo-os nos calcanhares, nos pulsos, nos joelhos
em vão se corria aos salões onde se tratam e pintam
mãos delicadas
em vão se escovavam os cabelos
inútil arrancar com cera e pinça
o excesso de pelos
Era soturna a dor, viscosa, escura
mas se servia com chá para os desavisados
que, diante da inofensiva senhora,
tombavam envenenados

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Luísa

Não sou precisa
nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
Não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Bilhetinho

Quando eu morrer,
mesmo em tristeza devastada,
morrerei da alegria de terem sido possíveis:
o amor, a tristeza e a aventura de ser carne
em meio a tantas pedras