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domingo, 20 de setembro de 2015

O Horto

                                                  Até 27 de setembro.
                                                 Museu da Língua Portuguesa,
                                                 São Paulo.
Juazeiro, Juazeiro,
o peso de tanta gente
vou levando na  ladeira
imagens estilhaçadas
cacos de virgens Marias
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de uma guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O espantalho

Ao meu redor cresce verde a lavoura
e eu sou de seca palha

Ao meu redor homens se movem e trabalham
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste

Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo

Meus braços estão abertos para o espanto
não para o trabalho ou abraço

Meu corpo de palha seca
nunca sentiu a volúpia dos bichos

Vivo abismado e só
escancarado sob a luz dos astros

domingo, 17 de agosto de 2014

"Desencanto"

                      " Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e  o    camelo,  leão e o leão, por fim, criança. " Assim Falou Zaratustra. Friedrich Nietzsche

                                                    poema dedicado a Manuel Bandeira

Sou uma mulher vulgar
e faço versos como quem fode
sentindo prazer e dores
Eu faço versos como quem cospe
no bicho morto no meio-fio
sentindo nojo sentindo encanto
Eu rezo terços
e chupo lâminas
E faço versos como quem goza
e gozo como quem glosa




                                                             

sábado, 2 de agosto de 2014

Por trás da tenda

Sonho que você está por trás da tenda
oculto
e faz sinais para mim
com letras de fumaça
Ouço sua gargalhada
e vejo a sua sombra
Sonho que essa sombra toca a minha sombra
mas só as sombras se tocam, os corpos não
Sonho que um cavalo espera
ao lado do fogo
mas você não surge
Sonho que alguém esmaga uma aranha
no chão limpo
Sonho que vem uma menina entre as ondas
Sei que você está lá mas não vejo
Sonho que estamos sobre um trem parado
e há na rua cata-ventos e sismos
Parece que nem tudo está perdido
Sonho com facas, com palavras fortes
com meninos na rua carregando pedras
há uma casa muito velha onde os cães dormem
entre montes de capim seco e brita
Sonho que você está lá e me aguarda
Sonho que você tem uma ferida
velada pelos pássaros
Sonho que esta rua é minha e a ladrilho
com muitos rios
para que os peixes fluam tranquilos

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O retorno de Saturno

Saturno veio colher as romãs
brasas no pomar
Vivo nua pela casa
leio cartas, fecho as portas
Saturno me espia pelas frestas
me sussurra nomes feios
vivo cheia de varais
lampiões e pássaros acesos
Parece que estou esticada entre dois abismos
entre dois homens
entre dois vendavais
Abro a janela
encaro o deus
me vejo nos seus olhos
me vejo dentro dele
Quando é que esses olhos irão me acordar?
Quando é que irão me levar?
Quieto no seu canto
Saturno me estende a mão e um cálice
e é como se a vida chegasse
silenciosa e indolor
como os milagres


sexta-feira, 7 de março de 2014

Descoberta no espelho

Tua pequena varize
se insinuando na perna
fino rio de sangue azul
onde as tristezas navegam

herança de tua avó, de tua bisavó
marca do teu trabalho
do trabalho delas
cicatriz do filho que esperaste
e das escadas que subiste

tua pequena varize
não é doença ou velhice
mas antes sinal de beleza
irmã dos rios, dos navios e da chuva
irmã de todas as coisas
que ultrapassaram limites

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O mapa do rosto

Uma face para sofrer e perecer
outra para resistir imóvel sob a chuva
uma face feliz outra pasma
uma face encantada
outra para oferecer às explosões
navalhas
aos rios que viriam envenenados
a todo tipo de bicho
a todo tipo de ódio
a todo tipo de amor que atravessar a vidraça
e vier me ferir com seus dardos

sábado, 7 de setembro de 2013

O teu demônio

O teu demônio me segue
anos a fio
Tece flores para mim
divide meu corpo em partes

Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
aparo suas bordas seu rabo seus chifres

O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado

O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre

O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
e vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda

Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma

sábado, 13 de julho de 2013

Resposta ao Anjo Gabriel

Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua 
 
                                                   George Segal, Girl putting on mascara, 1968