sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A bruxa

                                                      La bruja, Cildo Meireles
                                              


Era tão brando ser bardo
antes da bruxa
Tão fácil memorar breves desígnios
e olhar-se no espelho junto com as bolhas
de sabão
e azul como elas dispersar-se
Havia um certo cuidado
uma sutileza compondo o rosto
As faces em tempo de estio e ensolaradas
as faces assim avarandadas
dóceis aos ventos e aos nadas
Era tão brando ser bruxa
antes do bardo
catar morcegos mortos e ervas malditas
e fazer o mal sem que nenhum arco se quebrasse
Sentir as febres, dormir sob o gume da faca
era tão fácil a maldade sem a arte
Mas tu não sabes, meu amigo,
a flor escura
de agora ser tão bardo e bruxa ao mesmo tempo
E sendo bardo querer cantar os dias
e sendo bruxa odiar o próprio canto

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Alcíone

                                                                      Renata Dorea



Ando à procura de um espelho
que te traga
de alguém que anuncie tua chegada
um presságio, um aviso
alguma mensagem que se abre
com navalha

Se ao menos eu sonhasse
se tua imagem me desafiasse
e me seguisse
se houvesse uma urna, uma ilha
uma prisão qualquer onde estivesse retida

Se as aves te anunciassem
se tivesses um anel
se deixasses uma pista

Mas não há nada, nada
só meu silêncio
em busca de teu nome
e deuses marinhos me turvando a vista



terça-feira, 30 de setembro de 2014

Dioniso diante de Apolo

Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne

Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo

Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?

Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível

Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos




sábado, 20 de setembro de 2014

rústicos

cercas de arame farpado sob a chuva
alegria nas pedras do lajedo e nos alpendres
fogueira mítica acesa entre escritos rupestres
meninos e meninas nus dançando ao redor
coice de cavalo, vela acesa dentro da geladeira a gás,
açudes de água morna, cactos, carroças
estávamos todos lá antes da luz elétrica
preparados para perdas e recomeços


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

nômades tuaregs

estranheza feroz nas cores desse povo
pequenos roubos, hóspedes estrangeiros
noites geladas e escuras
bandos inteiros comendo
arroz puro no deserto
gente querendo fugir para algum outro país
sem perceber que a água estava ali mesmo
era só cavar um poço e encontrar a própria sede

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Memórias de uma puta poeta

Vou-me embora pra Pasárgada
lá sou amiga da rainha
e tenho o homem que quero
na cama que escolherei
sou amiga das medeias, das medusas e das bacantes
Vou-me embora pra Pasárgada
lá as mulheres são livres
tanto as mães quanto as sem filhos
tanto as que amam  mulheres
quanto as que amam rapazes
tanto as que amam os dois
lá os musos são de verdade e descem de Marte
para a terra, lá nem amor platônico tem
é tudo mesmo na sacanagem
Vou- me embora pra Pasárgada
lá as putas não são tristes
como as de Gabriel García Marquez
lá maria transa mesmo com o anjo gabriel
e josé assume tudo
lá existem os josés, psicanalistas e pais incríveis,
vou me embora pra Pasárgada
lá sou amante até da rainha
e  posso voar de parapente
me desculpem Manuel Bandeira e Gabriel  García Marquez
adoro ler vocês
mas amo mesmo é essa nova Pasárgada que inventei

Um poema de Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Desenhos e teletransportes

eram cidades costeiras
mas seus habitantes nem precisavam de mar
podiam ir com navios inventados
fictícios barcos

eram cidades costeiras, costumeiras
de maresia e brisa
trilhas, rios, portos rascunhados

e seus moradores sonhavam
e iam assim a todo lugar

domingo, 7 de setembro de 2014

Ouro Preto em chamas


abrigar-se nessa briga
entre pedaços e cacos
de telhas, janelas, vidraças
desabrigar-se nessa casa imensa
cremada, incendiada
sem voz nem gente
madeiras ardendo
pedras preciosas perdidas
bombeiros vieram de Mariana e BH
movidos a terra, água, fogo e ar
fogueira imensa acesa na praça
dores, mágoas,
escravos, escravas, correntes,
crimes, senhores,
senhoras, perversidades
maldades,
vidas passadas
há séculos
almas queimadas
em labaredas altas




(em memória do incêndio de 2003 no Casarão do Pilão)

sábado, 6 de setembro de 2014

Loja de Mulheres

labirinto que sigo nessa cidade
plena de tantas outras
tecidos e mais tecidos entrelaçados
becos, mercados
lojas de chapéus, botas, saias, brechós
O meu desejo de ancorar ali
na vitrine como um manequim
e esperar por todos os que passam
amá-los todos disfarçada
nesse corpo de medusa sem cabeça nem braços
nesse vestido exposto com seu preço
metade estátua, metade mulher
metade blusa, metade sandália
sou essa fêmea de acrílico lírico na calçada

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Escolha

" Derrubando palavras se chega ao silêncio:
  à terceira solidão, a escolhida."
                  Pablo Neruda



Sem filhos viveram
Lota e Bishop
livres, viajantes, soltas
permitidas uma à outra
num amor de poucas
Solidão vivida, inteira, escolhida
moças raras, voos rasantes,
intensas, amantes, revoltas       

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

L'amour entre tours et tous

Invadi seus passos na calçada
entre a liberdade e a calma
no caminho que fiz até você
o que se ilumina é breve, leve
aceita torres como mirantes
não como calabouços
nem quedas nem prisões
mora comigo uma noite só
e vai embora
certo de que o amor não é uma pessoa, não se prende, não é anel nem arame
nem tem nome próprio, nem fome de um único  soldado civil ou trapezista
nem  muro, nem cerca, nem furo de reportagem, nem filhas, nem família
mas está em toda parte, solto,
raio que vem por dentro e por fora e atinge todos
para além de quaisquer dois e nós,
obsessões,  arranhões
e paranoias
não precisa de bagagens nem de escola
aceita ser miragem entre  faróis, ilhas, milhas
mil vezes sem dor quando decola, não cola, descola
sem amarrações, não gruda, não controla
amor: miragem e saudade entre antenas parabólicas
astros, satélites, cartas de tarot, rainha de copas
jogo, fogo: onde pouco já é muito
e onde às vezes muito é muito pouco

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Blue Moon

Roberto Carlos, é o seguinte:
você está salvo
agora sou eu que preciso me salvar
passo a tarde inteira ouvindo
esse programa Roberto Carlos Especial
na rádio Nordeste
Se eu não ficar em casa,
saio na rua e beijo a Ribeira inteira
homem, mulher, esposa, rameira
todas as criaturas humanas e desumanas
pedra, carvalho, fogueira, geleira, geladeira
fico pedindo para a lua
desce, desce, desce
Eu sou da terra
e só na terra me sinto bem
sei que garota igual a você
na lua não tem

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

New Game: Afrodite virou prostituta de jornal

Verso é enigma
nada tem de descarado
nada tem de fácil
nem de geográfico
é esfinge, é mito
nele posso ser puta, vadia
bruta e real
cada programa mil reais
com o direito a tudo que sei
e não sei há dez mil anos atrás
encontro loucos, doidos, degradados
degenerados, homens, mulheres, travestis
não faço distinção de idade
sexo, carruagem ou carroça
com o verso: pluma, nuvem, incêndio e gás
se goza muito mais

domingo, 17 de agosto de 2014

"Desencanto"

                      " Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e  o    camelo,  leão e o leão, por fim, criança. " Assim Falou Zaratustra. Friedrich Nietzsche

                                                    poema dedicado a Manuel Bandeira

Sou uma mulher vulgar
e faço versos como quem fode
sentindo prazer e dores
Eu faço versos como quem cospe
no bicho morto no meio-fio
sentindo nojo sentindo encanto
Eu rezo terços
e chupo lâminas
E faço versos como quem goza
e gozo como quem glosa




                                                             

sábado, 16 de agosto de 2014

Um poema de Manuel Bandeira

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O carteiro e a poeta

Não quero deixar de conhecer
Pasárgada, Shangri-lá e Atlântida
ainda bem que daqui de casa
posso ir até lá com asas
ou a nado
vou pela rota contrária
oceano pacífico e feroz
ouço todo dia sua voz
antiga e total
nem preciso de satélite
lá mesmo não preciso chegar
e são tantas cartas, contas, telegramas
há mil anos e séculos
e esperei tanto, tanto, tanto
aqui nesse Rio de Janeiro
que acabei me apaixonando pelo carteiro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Agosto

Como um hiato às voltas com escuro
pulsa o meu poema
e vibra frio vidro estilhaçado
numa ameaça de espanto que me ronda
Como uma espécie de arma, como um músculo
o meu poema me cerca
com gargalhadas de doido
com esperanças de cura
Ele me assusta me segura me defende
com uma mão de fantasma
contra a morte
O meu poema é um cio, uma dor que me cuida
um cão, uma mãe que canta
um corpo moreno e luta

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

lucila

a palavra ama
a palavra cora
a palavra lama
a palavra chora
a palavra goza
a palavra cama,
lucila,
luz que oscila
a palavra te chama

sábado, 9 de agosto de 2014

Invenção de Eurídice

Havia os cabelos de  Eurídice incendiando a praia
e os homens com suas redes esperando

Orfandades arrastadas sobre a areia
era assim que vinham os peixes
era assim que as palavras vinham,
sem ar,
com olhos vitrificados

Havia os cabelos de Eurídice soltos
como velames
cortando os ventos
semeando bichos que se alastravam

Eram quase mãos, os cabelos de Eurídice,
tentando agarrar alguma coisa
buscando alcançar uma alegria, um êxtase,
uma dor que fosse
qualquer coisa quebrada,
algum resto, um destroço

ou algas e conchas dentro das ondas

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Mickey

                                                                     " Dieu parle dans la calme  plus haut
                                                                                                              que dans la  tempête"
                                                                           Adam Mickiewirkcz( 1734-1855)
                                                  
Que o Mickey era feiticeiro
só depois eu fui saber
Jodorowsky
lhe ensinou
que ratos e ratazanas,
que temos dentro da gente ,
podem ser curados com sal, lápis e cal
Que a Minnie enfeitiçava
eu também desconhecia
encontrei em sua casa uma placa:
se for preciso tome melhoral
mas consulte a senhora Minnie
se quiser melhorar o seu astral
                                                  Cosmogonias distopicas: Marcelo Gandhi  

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Mariposas

segundo estamira
a pessoa pode estar em vários lugares
e tempos
e falar várias línguas de uma vez
estou levando alfajor para a turquia
queijo de caicó para a bahia
schieben  lieben  leben
no daña las superficies
elimina olores
somos productos de la naturaleza
the crowning glory
everest is climbed
capito, capitu, amigo?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Festa de São João

Isso não é invasão é olhação

sua noite começa melhor

depois que alguém  te olha

Se eu ficar na barraca do beijo

vou dar prejuízo

ninguém vai querer me beijar

mas se eu ficar na barraca do olhar

quem sabe, talvez,

São João

acenda a fogueira do meu coração

e aí vou continuar

não é urgente, não é para casar

é só para olhar

Isso não é invasão, São João,  é só

olhar,  luz,  câmera,  ação

meu nome é Suellen

maria chuteira

superem

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Na lavanderia

Estou ouvindo a música da máquina de lavar
lavando os trapos, os farrapos, os sapos
todos que tenho que engolir do chefe do setor
que acha que só tem gente saudável e gostosa
nesse mundo

Estou ouvindo a música da máquina de lavar
a rádio fm feminina mulher furor
e uma adolescente entrevistada dizendo: eu sou nescau
recalque bate em mim e volta radical


vou passar roupa, cozinhar e voltar para casa
às quatro, de quatro, com o corpo todo doído
de estafa e ainda trabalhar para esse marido
chinês 
ex-presidiário, criminoso, safado
os quatro filhos e tudo
mas dizem que foi eu que escolhi,  colhi,
encolhi feito coelha
com essa colheita de filhos , esse tanto de trabalho
esse caralho, essa porra, essas crianças chorando

e por toda parte essa placa dizendo que é proibido fumar,
fumar, fumar, não posso fumar no trabalho, não posso fumar
em casa, não posso mais fumar em lugar nenhum
vou acender um cigarro no banheiro
tocar fogo no papel higiênico, na lixeira, incendiar tudo
também no aeroporto onde faço faxina terceirizada aos sábados

na rádio está tocando agora Belchior
não vou deixar meu cigarro se apagar pela tristeza
acho que foi por isso que ele fugiu para o Uruguai

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Marisa

apedrejo vidraças, sou da pichação
rompo os tratos, os  contratos

destruo calendários, lojas da marisa
plantações de alfaces, pepinos, hortas orgânicas falsas

vadia sou eu, que faço hot dog pra moçada
moradora de prédio ocupado, manicure
cabeleireira e ladra nas horas vagas
sonhando todo dia em atacar o shopping center

eu e a máquina de lavar, a pia, o pano de chão
os filhos, a solidão e aquele amante pilantra que visito na prisão,
momentinho no parlatório, fila para entrada,
dez minutos de love e mais nada

eu sou a própria manifestação, a pombagira total
boderline, bipolar,  tudo uma farsa
que papanicolau que nada
e  essa história de cândida ?

pureza?
meu lance mesmo é o cigarro e a cachaça

domingo, 3 de agosto de 2014

Diana



Ele sabe os tons de esmalte que ela usa
os brincos e joias que ela tem
brincos de ouro fosco e círios raros
colar amarelo fervido em pérolas

Ele sabe por onde ela prende seus cabelos
escritos em todas as partes
Cabelos mais longos que as folhas da palmeira
longa cabeleira, juízo curto

Mas ela curte tanto ter juízo
curte os cabelos curtos dos homens que ama
curte paixões que alucinam
as paixões que fogem e voltam

Sacerdotisa de Tupã
abençoa tudo com licor
Lábios de mel para esse mundo às vezes sem cores e tão cru

Ele sabe os tons de esmalte que ela usa
por onde ela acende suas chamas
e os medos e coragens que ela tem












sábado, 2 de agosto de 2014

Por trás da tenda

Sonho que você está por trás da tenda
oculto
e faz sinais para mim
com letras de fumaça
Ouço sua gargalhada
e vejo a sua sombra
Sonho que essa sombra toca a minha sombra
mas só as sombras se tocam, os corpos não
Sonho que um cavalo espera
ao lado do fogo
mas você não surge
Sonho que alguém esmaga uma aranha
no chão limpo
Sonho que vem uma menina entre as ondas
Sei que você está lá mas não vejo
Sonho que estamos sobre um trem parado
e há na rua cata-ventos e sismos
Parece que nem tudo está perdido
Sonho com facas, com palavras fortes
com meninos na rua carregando pedras
há uma casa muito velha onde os cães dormem
entre montes de capim seco e brita
Sonho que você está lá e me aguarda
Sonho que você tem uma ferida
velada pelos pássaros
Sonho que esta rua é minha e a ladrilho
com muitos rios
para que os peixes fluam tranquilos

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ao pé do muro

                                                                   lamafértil 2014

E além do mais, eu também tenho uma
uma banda bichada onde um veneno fino
se destila
E esta outra banda que me salva
Pedra não é
e ao perecimento se castiga
Fruta no sereno
uma parte sã, outra perdida
o que me bicha e lixa e come seco
é o que em silêncio me espanta sem que eu saiba
Pode um bico de pássaro reter o meu destino
com a doçura própria de seu timbre
Posso secar ao sol com a casca empretecida
uma banda sã, outra maldita
Mundo, mundo, vasto mundo, estou aqui dividida
e nem rima nem solução seria
se eu me chamasse Aparecida

domingo, 27 de julho de 2014

correio elegante

entrego minha alma
na portaria do seu prédio
deixo lá as chaves, as senhas
os cadeados, os mistérios todos
 para você me conhecer
entrego meus pés vermelhos
o que sobrou dos meus cabelos cortados
envio imagens, mensagens, massagens
coragem
seguem por navio, trem, avião
pombo correio, ônibus, bicicleta,
skate, mototáxi
todos levam minha alma
daqui para a Iugoslávia
quero ver você ter a ruindade
de não receber

sábado, 26 de julho de 2014

Jacy



                                                              Foto: Vlademir Alexandre

       O Grupo Carmin realiza três apresentações do espetáculo JACY nos dias 08, 09 e 10 de agosto em Natal no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (TCP). Em seguida, a frasqueira será aberta no dia 10 de setembro no 21º Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga/CE, e no dia 17 do mesmo mês, na Mostra Internacional de Teatro em João Pessoa/PB. Texto: Pablo Capistrano, Iracema Macedo, Henrique Fontes. Atuação: Quitéria Kelly, Henrique Fontes e Pedro Fiúza. Direção: Henrique Fontes e Lenilton Teixeira.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Na enfermaria

dormiu livre
e acordou escrava
o vestido pelo avesso
rosa
o riso atrás das grades preso
a écharpe, em vez de charme,
corte
a beleza trancada sob facas, bisturis, uniformes
o parto, em vez de luz,
dor e má sorte
a tristeza esticada sobre a maca

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O retorno de Saturno

Saturno veio colher as romãs
brasas no pomar
Vivo nua pela casa
leio cartas, fecho as portas
Saturno me espia pelas frestas
me sussurra nomes feios
vivo cheia de varais
lampiões e pássaros acesos
Parece que estou esticada entre dois abismos
entre dois homens
entre dois vendavais
Abro a janela
encaro o deus
me vejo nos seus olhos
me vejo dentro dele
Quando é que esses olhos irão me acordar?
Quando é que irão me levar?
Quieto no seu canto
Saturno me estende a mão e um cálice
e é como se a vida chegasse
silenciosa e indolor
como os milagres


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Branca de Neve e os sete anões


Os demônios brancos enlaçados aos postes
cantam e cospem
e o poço onde a louca dormia sossegada
foi medido

Os demônios brancos
esbarram em sombras enormes
e a louca canta e cospe
enlaçada aos demônios nos postes

No chão de noite tão clara
louca e demônios se abrasam
cantando cuspindo e rindo

( No meio da algazarra
acabam todos dormindo)

A bruxa vem de mansinho
transforma a louca em donzela
e os demônios em meninos

terça-feira, 22 de julho de 2014

A casa assaltada


cadeados quando quebrados
abrem caminhos, deixam entrar
os hóspedes, bandidos ou inimigos
sem lei nem vez
que ao invés de roubarem
trazem o presente do novo
mistérios, sustos, segredos
coragem para se desviar, migrar
assaltos às vezes são saltos
para um novo e belo lugar


segunda-feira, 21 de julho de 2014

celular

com esse gps chego até você
marco com uma estrela
meu hostel e a sua rua
gravo seus versos
onde você quiser
no ônibus, na mata
favela, elevador
sofá, cama, banco de praça
ouço música, vejo filmes, salvo tudo

sem esse celular
não sei viver
tô duro, inseguro, lascado, assaltado
pedindo dinheiro emprestado
mas esse celular é a única coisa
que não posso vender
porque sem ele posso te perder

domingo, 20 de julho de 2014

Bacante

Em meu ninho longínquo
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
transformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Invasão ibérica

A Espanha e seu campo de girassóis
suas oliveiras, seus rios
seus árabes e catedrais
aportaram em mim e te querem

Todas as forças de sua arquitetura
suas casas mediterrâneas, suas torres medievais
as touradas sangrentas de Sevilha
os ciganos incríveis de Granada

por todo lado essa prece:
o meu amor é esse país inteiro te esperando

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Iniciação

Enquanto ele acalma os olhos com colírios
recito o poema de Laura
desfilo sem pudor
em sua frente
exerço meus ritos, meus mitos
meus vícios
Me atiro inteira
trapezista de circo
e meu salto deixa os marujos confusos
mancho os lençóis com meu sangue
me entrego
sinto o fulgor gelado do champanhe
Não tenho mais medo nem susto
por entre atalhos escuros e secretos
um homem belo me busca e me fareja
cegamente escravo dos meus versos

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Delicado recado

a raiz da cor de um raio trago
cor de vela, fumaça, orvalho
a raiz da cor de um porto
invento recrio e tento
sempre que caio

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Ice King

o rei do gelo
me encanta
com sua música
seu silêncio
seu ar
podem dizer
ah que lirismo tosco
que não fala em remédios
nem acidentes aéreos
nem produtos de limpeza
e beleza
estou dando linha
para a pipa voar
e não corda para o garoto se enforcar
o rei do gelo
me encanta
e sabe se cuidar
aprendi com ele que
sou eu mesmo sozinho
na primeira pessoa do singular
que hei de me salvar

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Carpe Diem

Não precisa ser um longa metragem
pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde

terça-feira, 27 de maio de 2014

Surpresas

desejei o tempo de um presságio
de um trem demorando a chegar
o tempo de um oráculo
e de uma espera
pelos enigmas, decifrações, saudades
um tempo com menos pressa
menos imprensa, menos notícias

mas todos os aparelhos estão ligados
raios, pneumáticos, telegramas
circulam por toda parte
tudo portátil, óbvio e comunicável

todos a postos
nenhum mistério
nenhuma posta restante
nenhuma estação à frente
nem segredo nem surpresa

ficou tudo tão urgente e incandescente
que ninguém pode mais escurecer
nem se esconder

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Amor fati em Nietzsche

Do que andei estudando até hoje na obra de Nietzsche, encontrei a expressão Amor fati poucas vezes mencionada literalmente, mas, nessas poucas vezes em que aparece, é dita com tal força e com tal intensidade que não podemos deixar de compreendê-la como uma noção fundamental de seu pensamento, noção essa cuja compreensão contribui muito quando se deseja entender o que é uma filosofia trágica.
É em 1882, no início do livro IV de A Gaia ciência, no aforismo 276, que Nietzsche publica pela primeira vez algo sobre o conceito de Amor fati:

“Hoje cada um se permite exprimir seu desejo, seu mais caro pensamento; assim eu vou dizer o que desejo hoje de mim mesmo, e qual foi o primeiro pensamento que preencheu meu coração este ano, um pensamento que deve ser a razão, a graça e a suavidade de toda a minha vida! Eu quero aprender cada vez mais a considerar a necessidade das coisas como o belo em si – assim, eu serei um daqueles que tornam as coisas belas, amor fati: que seja este de agora em diante o meu amor! Eu não vou fazer guerra contra o feio, eu não o acusarei mais, eu não acusarei nem mesmo os acusadores. Suspender o olhar, que esta seja minha única forma de negar. Eu não quero, a partir desse momento, ser outra coisa senão pura afirmação.”

O que há de necessário nas coisas parece ser o fato de que essas coisas são simplesmente coisas, isto é, elementos pertencentes a um mundo que se transforma, que muda, que devém. Afirmação da própria transitoriedade. Amar o que há de necessário nas coisas é amar o que de certa forma não permanece, não pode ser previsto, amar mesmo o desconhecido, mesmo o incompreensível.
Lembremos que beleza para Nietzsche é o que seduz em favor da existência e arte é intensificação da vida e essa intensificação só será possível se a vida for assumida em sua plenitude, necessariamente, mesmo com seus males e dores, mesmo com sua finitude
Ainda a propósito do Amor fati, Nietzsche escreve no Ecce Homo: “Minha fórmula para a grandeza no homem é Amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário - mas amá-lo.”[1] Parece ser fundamental essa noção do idealismo entendido como falsidade perante a necessidade. Pode-se inclusive notar também nessa passagem uma certa dimensão ética do Amor fati. Amar a fatalidade é um modo de realizar a grandeza, o homem seria pequeno se sucumbisse diante dela, se resignando ou se tornando indiferente. Amar representa aqui uma condição da criação. O Amor fati é um sim, não é negação, nem indiferença, é um querer. Prefigura, portanto, uma intensa vontade de pertencimento ao mundo, uma vontade transfiguradora e criadora que deseja realizar a vida mesmo em suas possibilidades mais estranhas e difíceis.
[1] Nietzsche, F. Ecce Homo. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.p51

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Zila

Nessas águas que entrei a vida inteira
Não busquei nem arcas, nem peixes, nem tesouros
Só quis a branda viração das ondas
E a branca luz dispersa sobre o mar

Tentei achar um abrigo
Me queimei em caravelas
Senti dor, medo, frio
Esqueci todo perigo

Nessas águas que entrei
Aprendi a ser espuma
Aprendi com as ondas a perder e a perdoar

E quem aprendeu assim a navegar
Quem se apartou da terra desse jeito
Não sabe mais como voltar

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Malinche

                                                      Foto: Tiago Mota

Malinche: idealização Rosana Reategui
Direção: Warley Goulart
Atuação: Rosana Reategui
Texto: Iracema Macedo e Warley Goulart
Esteve em cartaz no Sesc Copacabana por um mês em 2013 e esperamos que volte em breve.
Trecho de Malinche:

Ninguém sabe quem atirou a pedra que matou Montezuma, se foi índio ou se foi branco. Mas da cabeça do imperador jorrava um sangue lento, a lentidão de quem aceita a própria morte. A pedra atingiu a fina e frágil  vidraça que tinha se tornado o seu império. Se pudesse ilustrar uma festa de escombros, foi isto o que aconteceu. Aquele mundo escureceu. Apagou-se vencido por espelhos, espadas, vidros, santos e livros. Sob a morte ainda úmida daquela gente, Hernan plantou seus cavalos.

sábado, 19 de abril de 2014

Jacy

                                                  Foto:Wlademir Alexandre
                                         Espetáculo: Jacy
                                         Datas: 11,12,19 e 20 de abril de 2014
                                         Local: Casa da Ribeira - Natal-RN
                                         Hora: 20 horas
                                         Reservas: (84) 9638-8426
                      Textos de Pablo Capistrano, Iracema Macedo e Henrique Fontes.
                       Com Quitéria Kelly, Henrique Fontes e Pedro Fiúza.


Mais trechos de Jacy:


Agora temos  blecaute, todo mundo tem que ficar no escuro à noite para evitar um bombardeio. E quando podemos ter luz de novo,   vamos ao cine Polytheama, assistir aos  filmes e eu me sinto lá na tela. Parece que agora sou atriz de alguma coisa, estou mais alegre, eu me vejo no espelho quando vou ao cinema.  Estou iluminada, escolho com mais gosto os meus vestidos. Vejo mais cor em tudo. (...) Escrevo para você porque estou transbordando, você não vai acreditar, mas estou amando a guerra.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Uma tradução de Valéry *

Teus passos, filhos do silêncio,
voltam-se lentos e sagrados
para o leito da minha vigília
passos mudos e gelados

Pessoa pura, sombra divina
como se detêm doces esses passos
Deuses! Todos os dons que adivinho
vêm a mim sobre teus pés nus

Se teus lábios se adiantam
e se preparam
para apaziguar meus pensamentos
com o conforto de um beijo

Digo: não te apresses nesse gesto terno
doçura de ser e não ser
pois eu vivi de te esperar
e meu coração precisa dos teus passos


* Tradução livre a partir do poema “Les pas”( Os passos), de Paul Valéry(1871-1945)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Casarão da poesia

Transportes Currais Novos
está patrocinando e formando
indivíduos de alto calibre
versáteis, versados em todo tipo de contemporaneidade
e antiguidade
inscrições abertas:
literatura de cordel e vanguarda
cinema na rua, desenho animado, gravura
violino, guitarra, sanfona
teatro e todas as outras artes
estamos dando continuidade
ao programa cultural da cidade
nosso lema:
para além da seca somos chuva
para além dos incêndios somos calma
tungstênio é nossa alma

segunda-feira, 17 de março de 2014

A astrônoma e a lua

Viagem à lua tá fora de moda
pois para lá viajo todo dia
acompanho a lua minguante
a nova, a crescente,
a cheia
tô uivando dentro do telescópio
e envio meu grito para lá
a lua é dos lobos, dos poetas,
das naves e das aeronaves
a lua sim é que o lugar

sexta-feira, 14 de março de 2014

me travesti de poesia

meu amado
onde estou não existe geografia
e não está finda a minha sorte
estou a fim é de sorte
meu leito é do mundo inteiro
não estou perto nem longe
não estou tardando querido
onde estou não existe tempo
mas aceito ir aí como o vento
com os teus cabelos brincar
aceito ser sua musa fugaz
por uma noite apenas
e nada mais

quinta-feira, 13 de março de 2014

Um poema de Castro Alves

                                Onde estás?

É meia-noite...e rugindo
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
" Vento frio do deserto,
"Onde ela está ? Longe ou perto?"
Mas, como um hálito incerto,
Responde-me o eco ao longe:
" On! minh'amante, onde estás?..."

Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono!...
'Stá vazio nosso leito...
'Stá vazio o mundo inteiro;

E tu não queres qu' eu fique
Solitário nesta vida...
Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa que eu deliro
Oh! minh'amante, onde estás?...

Estrela - na tempestade,
Rosa - nos ermos da vida,
Íris - do náufrago errante,
Ilusão - d'alma descrida,
Tu foste, mulher formosa!
Tu  foste, ó filha do céu!...
...E hoje que o meu passado
Para sempre morto jaz...
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do Norte...
" Oh! minh'amante, onde estás?"


                                                      Bahia
                                                    
                                             Antônio Frederico de Castro Alves
                                              em " Espumas Flutuantes"

































quarta-feira, 12 de março de 2014

Anúncio de Antiquário

Adaptação delicada, com lírica nordestina,  presença e voz de Ademilde Alencar em Macaíba-RN
Poema do livro Invenção de Eurídice.

terça-feira, 11 de março de 2014

O amor nos tempos da Segunda Guerra

                                                                                 dedicado à minha mãe Francisca

                                                                        " A vida sem música seria um erro"
                                                                Nietzsche

                               
Há quem tenha medo de olhar os astros, quem tenha medo dessa real grandeza, mas os astros não são perigosos, ou  será que são? Alguns astros estão mais desprotegidos como a lua,  sem atmosfera, tudo que nela esbarra vira cratera e dor.
Fico lembrando de alguns dos meus amores, o sabor dos nossos beijos era uma mistura de manga com morango, strawberry and mango,  e eu amava um outro que fumava  cigarros Lucky Streit, o gosto de cigarro na boca. Fumar já foi muito glamouroso, meus cabelos tinham cheiro de cigarro, eu cheirava à fumaça e pérola, vivia toda  esfumaçada, toda perolizada, era uma delícia... tudo muito Pearl Habor,  como eu queria usar um perfume Pearl Habor...E tinha um outro que adorava me trazer passas Sun-Maid, eu me sentia a moça ensolarada da embalagem, Sun-maid growers of california, just grapes and sunshine...

 

E o leite moça, essa última latinha que  comprei...será que é de desde 1921 mesmo? Se for, é do ano que nasceu minha avó, portanto,  sou neta de uma senhora de respeito já posso até ser mumificada e enlatada. As três últimas gerações de mulheres da minha família têm a idade da  lata de leite moça, sou neta  da senhora leite moça lunar. A primeira vez que minha avó provou desse leite foi justamente na Segunda Guerra e até hoje eu e minha mãe gostamos e nos deliciamos. Os médicos e os homens dizem não. Não tomem leite moça, olhem as taxas, que taxas gente que nada, eu adoro leite moça, a vida sem leite moça seria um erro, um ermo, uma tristeza sem fim.   Há dias que amanheço meio amarga, dias em que se diz adeus aos agrados sagrados, e haja leite moça para me adoçar, é preciso me embriagar, tomar um pequeno porre de leite moça, leite moça rejuvenesce, faz a gente ser criança de novo e um beijo com sabor de leite moça salva qualquer um. Ainda mais olhando para essa paisagem do Cristo Redentor. Cristo lunar de braços abertos sobre a cidade, assistindo a tudo que está acontecendo, branco como a lua e como a paz. Distante como um astro aceso sobre o Corcovado. Banho de lua, banda da lua, lua dos poetas e amantes que, de um jeito ou de outro, descobrem de onde é que o amor vem. Vai nascendo das palavras, das mais banais às mais altas, sejam frascos de perfume, sandálias de camurça, trem, avião, navio, tudo isso a gente tem, viajando dentro do corpo, quando a paixão fulminante bate à porta, quando ela finalmente vem.

segunda-feira, 10 de março de 2014

love center

energia elétrica
fabricante faiscante
marca fêmea
modelo 1970
tipo de degelo fogo
tensão tesão vênus
mais eficiente
amar berrar
criar desejar
menos eficiente
consumir-se sem solidariedade
na energia adotada no clima tropical
220 00 110 wolts
voltas, revoltas, volutas, lutas
muitas volúpias o mundo dá


domingo, 9 de março de 2014

cinema mudo

era a primeira vez na vida
que o menino tinha recebido
notícias daquela terra
na guerra fica tudo tão diferente
os trens, os navios,
os trilhos entre as chamas

Ele dizia: Você não acha que essas pontes
já queimaram o bastante?
é tanta fumaça
que a gente nem consegue respirar

e perguntaram ao menino:
mas o que você preferia
se alistar ou não se alistar?

- claro que eu preferia me alistar
como eu aceitaria uma guerra
sem que eu fosse para lá?


sábado, 8 de março de 2014

Luísa

Não sou precisa
nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica
Não sou precisa,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento

sexta-feira, 7 de março de 2014

Descoberta no espelho

Tua pequena varize
se insinuando na perna
fino rio de sangue azul
onde as tristezas navegam

herança de tua avó, de tua bisavó
marca do teu trabalho
do trabalho delas
cicatriz do filho que esperaste
e das escadas que subiste

tua pequena varize
não é doença ou velhice
mas antes sinal de beleza
irmã dos rios, dos navios e da chuva
irmã de todas as coisas
que ultrapassaram limites

quinta-feira, 6 de março de 2014

A equilibrista

Quedas riscos matéria
tudo um jeito de iludir

A um perfume de incêndio
vou entregando meu corpo
deixando para trás edíficios
torres fragas
e todas as ameaças de cair

quarta-feira, 5 de março de 2014

O espantalho

Ao meu redor cresce verde a lavoura
e eu sou de seca palha

Ao  meu redor homens se movem e trabalham
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste

Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo

Meus braços estão abertos para o espanto
não para o trabalho ou o abraço

Meu corpo de palha seca
nunca sentiu a volúpia dos bichos

Vivo abismado e só
escancarado sob a luz dos astros