sábado, 13 de julho de 2013

Resposta ao Anjo Gabriel

Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua 
 
                                                   George Segal, Girl putting on mascara, 1968

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ariadne

                                                     J.W. Waterhouse 1898

Os túneis não te alcançam mais
nem rastros, nem restos
nem luzes
me arrasto entre novelos sujos
paredes escuras
labirintos
Há trilhos, muitos trilhos
Mas não são caminhos
e me prendem
Mesmo assim
vivo gerando fontes e jardins
E aguardo o dia
em que voltarás
silencioso e faminto
para perto de mim

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Clítia


Estou atada a um destino
como a um rochedo
Por séculos serei um girassol
acorrentado à luz

Amigo Prometeu, tu que roubaste
o fogo dos deuses para colocá-lo
no coração dos homens,

liberta agora meus olhos dessa escravidão

Preciso curar-me, amigo,
dessa claridade
Quero sombras para drenar
essa luz que não me dá sossego
Ensina-me um jeito de abrandar
o fogo e de expulsá-lo

Preciso de trevas para o meu desejo

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dias de reflexão geral


Vejam só, como já virou um lema, não são apenas os vinte centavos. A questão é que não somos da realeza global. Não vivemos da boniteza midiática. A jornada dos nossos jornais não nos  pensa. A  Copa do Mundo não nos reflete.  A polícia não nos defende. Nenhum governo nos governa com ética e respeito,  talvez  a grande maioria dos políticos  não nos represente nesse momento atual em que estamos abrindo nossas feridas sociais e econômicas e mostrando a nós mesmos  e ao mundo que não somos apenas  um país de futebol e festa.

 Não é a ausência de causas, há   brasileiros, tenho visto mais de um, dizendo que é a falta de causas.  Todo mundo sabe o tanto de causas sociais que temos, as lutas desse país em vários sentidos.

 Quem disse que estamos apenas acordando agora? Sempre fomos acordados. De Palmares a Pinheirinho. De vez em quando a gente dorme, esquece, se anestesia. Mas uma  certa vigília  é aliada do pensamento. E contra esse pensamento estão disparando balas de borracha, e a gente precisando se defender com  óculos de natação e de mergulho contra o gás lacrimogêneo e  spray de pimenta.  Óculos para submersão servem agora para a subversão. As insurreições até podem ser debeladas de forma covarde com essas armas, mas o pensamento não. Ao contrário, quanto mais jogam gás, mais a gente pensa, com os olhos inchados de choro e dor. As lágrimas são de vergonha e de coragem. Vergonha porque tem gente machucada pela polícia que devia ser nossa proteção. E uma coragem diferente porque não estamos lutando com armas, estamos lutando com palavras, com reflexão .

Quem disse que não há pensamento nessa rebelião? Só não é o pensamento de nenhum líder carismático salvador da pátria, é o pensamento de muita gente se unindo, muita gente pensando de modo coletivo. A cada dia os acontecimentos estão nos fazendo pensar mais, a inflação nos fazendo pensar, a inflamação das gargantas nos gritos e nos choques com os repressores. Tudo isso faz pensar e pensar muito.  São dias de reflexão geral, dias em que a  intelligentia está vacilando porque não sabe de que lado fica. Dias em que os torcedores de futebol também estão vacilando porque precisamos pensar criticamente o futebol . Bom que esteja todo mundo atordoado, perturbado, incomodado. Precisamos incomodar, sim, vamos incomodar. Precisamos nos espantar  e levantar a cabeça e o pensamento contra a ignorância, contra o comodismo.  E como diz Sartre, somos condenados à liberdade e somos responsáveis por isso, somos responsáveis por cada um dos nossos atos e escolhas. E o que estamos escolhendo agora?  Lutar contra a imposição,  contra o retrocesso, lutar pelo direito de  ter ideias e de manifestá-las livremente sem opressão. O  pensamento crítico é isso:  o espanto com responsabilidade e criatividade.

sábado, 15 de junho de 2013

A fiandeira

                                                          fábrica de tecidos século XIX

Eu fiaria um manto inteiro hoje
enquanto você dorme
Há lembranças que não tenho onde guardar
e que só depositaria bem numa fogueira

Não há memória, nem nomes,
nem arcas, nem caixas
que possam conter tanto furor

Eu fiaria um manto inteiro
mas um manto não serve
Poderia inventar lendas
narrar um sonho aos marinheiros
mas nem lendas, nem sonhos,
nem marinheiros poderiam exprimir
o que vivi

Eu fiaria um manto inteiro hoje
mas não serve um manto
não serve enterrar segredos numa ilha
e esperar o temporal passar

Há dias em que os raios são a única saída

domingo, 9 de junho de 2013

A chegada de Mercúrio

Acendes espelhos por onde passo
e mesmo em tua fúria
inventas silêncios que me acalmam
mirantes, fogueiras, viagens
tudo me trazes nos dias em que ancoras
tua ventania nos meus braços



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Oráculo

                              
O pássaro no seu voo encontrará o infortúnio
Será ferido por um raio
seu coração de ave trespassado
por setas de ilusão e de beleza
Querendo o temível
e o transgressivo
o pássaro assim tão desmedido
poderá espatifar-se no rochedo
ou despencar no mar
atordoado
no voo proibido do desejo

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Filosofia e Romance Policial

     Há quem afirme que o romance policial é um gênero controverso,  acusado de não evocar questões inquietantes de uma literatura mais elaborada intelectualmente. Sendo assim considerado inferior aos outros gêneros literários.

     Um dos exemplos dessa controvérsia é a obra do escritor belga George Simenon (1903-1989), autor com habilidade jornalística para a escrita rápida e cujas vendas mundiais são indício de um sucesso literário respaldado também por vários artistas, intelectuais e escritores que foram seus contemporâneos.

    Humanista, cético, com uma aguda visão psicológica da sociedade, através da observação de crimes,  invejas, dores, humilhações e sofrimentos, o inspetor parisiense, Jules Maigret, seu  mais famoso personagem, atua como um autêntico investigador dos " labirintos da alma" humana. Desvendando, muito mais que crimes, o que há de " humano, demasiado humano" em cada um de nós.

   A referência a expressões de Nietzsche não vem por acaso. O filósofo alemão descobriu  em autores da literatura do século XVII,  como La Rochefoucauld (1613-1680), e em alguns outros escritores considerados frívolos por muitos intelectuais renomados,  uma fonte generosa para observações perspicazes sobre a condição humana e denuncia, além disso, que  os textos grandiloquentes negligenciam observações mais agudas sobre nossas ações, motivos, maldades e mesquinharias.
   
     Os enredos policiais dos romances de George Simenon podem ser, sim, potentes catalisadores para uma compreensão mais apurada de nós mesmos. Suspense filosófico e existencial. Literatura de entretenimento aliada à aventura do autoconhecimento.  Hitchcock, como nos aponta o filósofo e psicanalista Zizek, é também uma possibilidade para essa aventura.
                                              Recriação fotográfica de Vanity Fair

sábado, 20 de abril de 2013

Marisa

apedrejo vidraças, sou da pichação
rompo os tratos, os trapos

destruo calendários, lojas da marisa
plantações de alfaces, pepinos, hortas orgânicas falsas

vadia sou eu que faço hot dog pra moçada
moradora de prédio ocupado, manicure
cabelereira e ladra nas horas vagas
sonhando todo dia em atacar o shopping center

eu e a máquina de lavar, a pia, o pano de chão
os filhos, a solidão e aquele amante pilantra que visito na prisão,
momentinho no parlatório, fila para entrada,
dez minutos de love e mais nada

eu sou a própria manifestação, a pombajira total
boderline, bipolar,  tudo uma farsa
que papanicolau que nada
e  essa história de cândida ?

pureza?
meu lance mesmo é o cigarro e a cachaça

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sexta-feira do desmanche total

por aqui tudo pacificado,
apaziguado, dominado
virei dono de farmácia
quero ver o povo vir
comprar a bonitinha na minha loja
com receitinha de fitoterapeuta natureba
em doses homeopáticas
dá tudo na mesma:
cachaça, fumacinha, coca-cola
florais e cápsulas de alho
todo mundo igual
na sexta-feira do desmanche total
se você vê vozes, ouve vultos
sente-se vítima de feitiço ou maldição
venha para os filhos da luz
funk de jesus
cartomantes, políticos, sifíliticos
só jesus na causa
dentistas de todos os credos, uni-vos
porque só jesus salva

quinta-feira, 28 de março de 2013

O nascimento das aves

                                                     Creación de las aves- Remedios Varo



                              Estão nascendo de minhas mãos feridas
                              essas aves
                              nuvens condensadas
                              pequenos faróis
                              desejos que acendo no ar marinho
                              as flechas que procuro ser
                              estão camufladas no voo
                              e acertam o alvo noturno
                              de tudo que em mim é ausência inquieta
                              ou ritmada música

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A paixão no espelho

                                                              Paul Delvaux




É como se eu cantasse sozinha dentro de uma gruta
e uma matéria nua me cercasse

Dentro em pouco serei uma mulher
de cabelos mais longos
estilhaços de alegria me atingindo por todos os lados
meus olhos, habitualmente pretos,
ficarão mais pretos ainda
Uma vontade sem medo de enfrentar os que chegam
e abençoar os que partem

É como se eu dançasse sozinha numa rua escura
e beijasse Lázaro
e me entregasse às feras
e aprendesse a dormir com as tempestades

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Baía Formosa

A mulher doida me aponta a faca
e me fala
Me chamem da pior rapariga mas
não me chamem de tira-gosto
O burro pertinho comia melancias
Não sei por onde começar essa mulher
com saia vermelha e vassoura
Viver não tem início
A mulher escreve o nome na areia
é Anelita é doida
Estamos no alto da duna
Eu e a doida
eu que também sou Anelita agora e tanto
pois que o mar que nos cerca nos ajunta
Estamos dentro da onda
Eu e Anelita
Ela com sua faca, eu com aquele chapéu da Bolívia
Eu e ela emboloadas
Eu e ela vamos ser queimadas juntas?
A lâmina de sua faca e a lhama do meu chapéu?
Ninguém viu
Nós não rimos, mas no fundo rimos
a mulher doida e eu
a doida e a moça descompassadas
Rimos assim dos nossos rumos incertos
dos remos que nós não temos
para atravessar essa baía tão vasta
Rimos dos nossos crimes
enquanto o sol ia arder do outro lado do mundo
enquanto o menino veio e levou o burro
nós ficamos ali amedrontadas e francas
Há um silêncio nas ruas,
Anelita doida,
um silêncio como a falta de dentes em tua boca
eu vi meninas brincando
fingindo que um bolo de barro
era um bolo de aniversário
vi sacos de carvão empilhados
e pombos no telhado
E tu, Anelita, és mera como isso tudo
e apaixonante como essa chuva
à noitinha
molhando as hortas
Este foi o encontro da mulher doida e eu
sobre a duna
era novembro em Baía Formosa
eu e Anelita, para sempre juntas

domingo, 2 de dezembro de 2012

Dezembro

Mulher, mulher
não vê que eu tô na paz
vamos sambar um pouquinho
vamos descer comigo
solta esse cabelo, põe uma flor
pegamos o teleférico e depois o metrô
Chama a galera toda
todo mundo no liquidificador
Vamos sambar na praça São Salvador
quem sabe a gente se salva
com o samba na causa

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A beleza má



                                                                       



    Após algumas leituras do filósofo francês Gilles Lipovetsky,  autor de livros  como A terceira Mulher,  A era do vazio, Sociedade da decepção,  sugiro alguns pontos de conversação  sobre o pensamento da feminilidade no cenário do pensamento  a respeito do sujeito contemporâneo.

    Lipovetsky insinua algumas imagens para pensar o feminino. Na fantasia elaborada pelos homens e seus mitos, a  primeira mulher aparece na antiguidade associada ao caos, ao funesto, ao trágico, ao terrível. Força que amedronta os homens, celebrada pela fecundidade mas com uma beleza associada à maldade, não é ainda de  modo algum o belo sexo, a imagem de ternura e bondade que se consolida no Ocidente, segundo ele, a partir das pinturas renascentistas.

      Essa seria a “segunda mulher” sagrada, cantada pelos poetas, celebrada pela arte na fantasia masculina. Além dessas duas imagens do feminino que, de alguma maneira, ainda podem perdurar na cultura atual, hoje teríamos uma terceira mulher, cada vez mais inventada por si mesma, mais distante da criação masculina e mais criadora de si própria. No entanto, envolvida no cenário da subjetividade contemporânea cujos desafios partilha igualmente com os homens.

    Apesar  dos louvores aos encantos femininos, nas representações da Grécia antiga a beleza viril teria uma marca superior  à beleza feminina, inclusive a famosa Vênus de Milo tem algo de andrógino. Mas  sendo essa beleza entendida como beleza má,  a mulher está longe de se colocar no alto das representações de excelência da cultura. Helena enseja a guerra de Troia, Pandora  solta todos os males para a humanidade. As artimanhas de Afrodite, os ciúmes terríveis de Hera, a maldição da Medusa, o caos apaixonado representado por outras figuras como as bacantes e Medeia. Tudo isso nos mostra a mulher ,em geral, representada como astuciosa, mentirosa, um perigo que se insinua e se oculta sob aspecto sedutor, portadora da desordem, sua única dignidade é a procriação, nada de grandioso  ela traz à civilização. Essa beleza não poderia ser cultuada com a mesma ênfase que a beleza viril, pois é pérfida, nefasta, ardilosa. E, posteriormente, na representação cristã, Eva é a autêntica porta do diabo.

                                                                 Botticelli                                        

     Na cristantade, só a virgem Maria cujo culto e cujas representações iconográficas se intensificaram a partir do século XII possui a inocência da beleza, mas ela é cultuada como virgem e mãe de Cristo muito mais do que como mulher. A mulher na arte medieval continuaria sendo representada como raiz do mal, como “ arma do diabo”. Para se  emancipar dessa  tradição de maldição seria preciso que a própria arte tivesse uma finalidade não mais religiosa e que a beleza feminina ganhasse outro significado.

      Segundo Lipovetski, é a partir da Renascença que a mulher ganhou efetivamente os contornos do que poderíamos então chamar o belo sexo associado à perfeição moral. Beleza e bondade feminina se conjugam então como aspectos gêmeos de uma mesma realidade. Ainda que a primeira mulher portadora da malignidade e da desordem selvagem não tenha deixado de habitar o imaginário cultural, inicia-se o reino da prioridade da beleza feminina. Basicamente na criação dos poetas e dos pintores sem que isso significasse efetivamente uma promoção social e intelectual.

                                                                    Tiziano
     
  Nos séculos XV  e XVI , marcados pelo humanismo, a beleza das mulheres passa a ser estimada e admirada como elevação espiritual , a vênus de Boticelli ilustra de modo exemplar essa nova  afirmação da beleza feminina. Lipovetsky escreve:

 “ Vênus substitui a virgem. Com a ressalva de que lhe toma emprestados os traços específicos, a pureza, a doçura celestial. Aérea, de uma graça linear e fluida, a Vênus do pintor florentino está impregnada de pudor, de vida eterna, de uma expressividade comovente,  seu rosto se assemelha mais a uma Madona do que ao das deusas antigas.”

       Em outras pinturas, as Vênus deitadas nos fazem pensar em uma mulher cujas forças terríveis foram apaziguadas,  diferentemente da beleza meduseia e das deusas que se vingavam de quem via sua nudez, como Atena se vingou de Tirésias cegando-o,  a mulher deitada e adormecida pode ser contemplada na pintura, é a representação da tranquilidade, da passividade  e brandura. Maneira de torná-la acessível aos sonhos dos homens. Exaltada nos círculos cultivados e ricos, a cultura do belo sexo se instalou mas não se universalizou. Para o pensador francês, durante cinco séculos, essa cultura permaneceu elitista e aristocrática.

                                                                    Manet
                                                        
     
    No século XIX, com a literatura decadentista volta a ter relevo a mulher maldita, funesta, bela  e impura. Personagens como a cigana Carmen ou a beleza do mal em Baudelaire voltam a acentuar a beleza demoníaca da mulher associada ao trágico, à perversidade e à morte, levando o homem à perdição e ao caos. Assim como a beleza celeste a beleza maldita de vez em quando reaparece no cinema com o estilo das vilãs  e da beleza vamp. Mas o que sobretudo passa a ter vigência  e nas representações culturais do século XX., segundo Lipovetsky, a partir das décadas de 40 e 50 é um novo estilo: A beleza pin-up muito mais lúdica que tenebrosa, muito mais destinada aos amores sem conseqüência que às paixões devastadoras, presentes nos calendários, nos painéis publicitários, no cinema. Esbelta, elegante, saudável, sorridente se parece mais com uma boneca brincalhona, cheia de vitalidade jovial, afastou-se de qualquer vínculo com o terrível e o trágico. Beleza  cuja visão mais eloquente é Marylin Monroe, embora ela mesma entrecortada por seus próprios dramas. Como se o poder terrível da beleza feminina tivesse se interiorizado e se voltado contra as próprias mulheres.    
 
  E agora nos vemos diante do boom da beleza, o culto do belo sexo entrou na era das massas, perdeu sua raridade e invadiu a vida cotidiana, democratizou-se e tomou conta da vida das mulheres em geral. Vivemos a febre de um ideal de beleza-magreza-juventude e algumas feministas chegam a pensar em um contragolpe: no momento em que as mulheres se libertaram de coerções sexuais, religiosas, sociais, domésticas, estariam de novo aprisionadas. Após a prisão doméstica, a prisão estética seria nossa condição. Porém, segundo Lipovetski mais que uma desforra estética machista, a nova situação da beleza exprime mais que tudo a tecnização do real, o triunfo da razão que caracteriza a modernidade tomou conta também da aparência, tornando-a passível de controle e posse, atingindo embora em escala menor, também os homens.

    Como já mencionei,  ele analisa que a beleza arcaica que amedrontava os homens hoje pode ter se tornado uma forma fantasma de amedrontar as próprias mulheres. Vivida hoje mais como coerção ela se instalaria numa espécie de totalitarismo, de biopolítica muito condizente com todas as prescrições relativas ao corpo. A terceira mulher emancipada, criadora de seu próprio destino, passa a ser talvez também um desafio para as mulheres diante dos impasses das coerções atuais da mídia-publicitária-democrática. E aqui homens e mulheres se deparam com a subjetividade contemporânea delineada por Lipovetsky em outros de seus livros como um sujeito deserto.        
       
                                
                                       
 
Nada contra a beleza pin-up, contra a vida confortável e saudável. Podemos ser beneficiados pela técnica mas podemos também manter acesa a inevitável dimensão trágica da vida. Me soam bem os versos de Paulo Leminski quando nos diz  que um homem e, no nosso caso, uma mulher com uma dor é muito mais elegante.
         

domingo, 18 de novembro de 2012

Camila

Camila, eu te amo
só vivo pra você,
os filhos, o  táxi e o lava-jato
deixa dessa wave
já aprendi a dizer
não bata a porta, please
sou homem trabalhador
faço aspiração simples
dupla aspiração
polimento com cera líquida
polimento cristalizado
troco pneu que é uma coisa
vamos pro motel dreams
tem cinco corações na propaganda
nós e nossos três filhos
tô cheio de amor para dar
Camilinha, deixa disso
manera comigo
Assinado: Wellington

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

GPS

favela buraco quente
favela coreia
favela indiana
morro da cruz
morro da casa branca
morro dos prazeres
morro quieto
morro do telégrafo
morro da liberdade
morro da providência
favela dona marta
favela do borel
favela conjunto residencial
dos servidores municipais
favela bela vista da pichuna

favela avenida
favela tremendê
favela céu azul
morro do dendê
morro do alemão
morro da baiana
favela mangueira
morro do bananal
favela babilônia
favela cerro corá
favela guararapes
favela borda do mato
morro dos cabritos
morro dos macacos
morro dos urubus
ladeira dos tabajaras
favela do rato
perto da rua iracema

domingo, 11 de novembro de 2012

parede, parada, pandeiro

a mulher anda doida comigo
achando que eu tô atrás de piranha
só porque toco pandeiro
ganho cachê de setenta reais
e ela não pode ir
tá querendo me bater
não fala nada não que ela bate mesmo
me bater é mole
quero ver é pagar minhas contas
fui do tráfico, da vigilância
capoeira na terra firme
agora estou na construção civil
tenho cartão de crédito
foi a pior coisa do mundo que inventaram
tô  todo endividado, mas hoje é domingo
bebo um pouquinho, fico embrasado
internet? não uso essa parada não
a mulher tá vindo aí, fudeu, fui
depois volta aqui que eu vou
arrumar uma parede neurótica
para você mandar um poema
valeu ?

domingo, 4 de novembro de 2012

Calipso

Quando voltavas à tua casa
era de mim que partias
eram minhas as ventanias

Invoquei tormentas
potestades marinhas
qualquer coisa para quebrar teu rumo

Mas uma frágil canoa
foi mais forte

Eu conhecia feitiço, gozo, beleza

Nada que impedisse
um homem de um regresso

virei uma ilha, estilha, estame
uma fêmea estéril entre as ondas

E nem sabia como ser errante
para encontrar uma pátria
para inventar um porto
onde enterrar tua perda



Poema publicado em Invenção de Eurídice, 2004.

sábado, 3 de novembro de 2012

Dioniso diante de Apolo

Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne

Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo

Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?

Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível

Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos



Poema publicado em  Invenção de Eurídice, 2004