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sábado, 5 de dezembro de 2015

Lira de Eurídice

Vem de dentro de mim
uma música
atravessando estradas, campos, lares

Quem pode cobrir de cinza
essa lira que arde?

Vem de dentro de mim
uma música
esbarrando em pedras
soterrando portas
destravando cidades

Dentro de mim
uma música
acesa
invade mares, rios, vales

Quem lhe ousa dar margens?

terça-feira, 5 de maio de 2015

Fragmento do diário de Cosima

Invento cadernos
para entender esse homem
que me cerca

Sou uma criança que ele salvou
dos penhascos
Por gratidão,
tento aquecê-lo com a lã de minha vida
protejo seus segredos
velo seu sono e espero

A partir de agora,
serei a única guadiã de seus mistérios

Ele me convida a caminhar dentro da noite
e me leva pela mão como uma filha

Me finjo amiga, menina, companheira

Alguns anos se cumprirão
e ele nem imagina
o corpo de amante
que vou lhe ofertar sob as estrelas

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Leto e a ilha de Delos

Onde andas, Netuno?
não me deixes vagando pelos mares
ancora mu corpo, prende-me
transforma-me em filha tua

Cerca-me com tuas tempestades
com tua boca encantada
nunca deixes de ferir-me
para que eu ande sempre comovida

No meio de tanto sal
dá-me náufragos, arcas
e a nudez certa para enfrentar-te

Dá-me também tuas misérias
e a firmeza com que esperas
e inventas todos os navios

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Alcíone

                                                                      Renata Dorea



Ando à procura de um espelho
que te traga
de alguém que anuncie tua chegada
um presságio, um aviso
alguma mensagem que se abre
com navalha

Se ao menos eu sonhasse
se tua imagem me desafiasse
e me seguisse
se houvesse uma urna, uma ilha
uma prisão qualquer onde estivesse retida

Se as aves te anunciassem
se tivesses um anel
se deixasses uma pista

Mas não há nada, nada
só meu silêncio
em busca de teu nome
e deuses marinhos me turvando a vista



terça-feira, 30 de setembro de 2014

Dioniso diante de Apolo

Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne

Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo

Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?

Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível

Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos




quinta-feira, 6 de março de 2014

A equilibrista

Quedas riscos matéria
tudo um jeito de iludir

A um perfume de incêndio
vou entregando meu corpo
deixando para trás edíficios
torres fragas
e todas as ameaças de cair